Bágeiras como nunca se viu

Mário Sérgio e Frederico Nuno, pai e filho, são a face mais visível da Quinta das Bágeiras, empresa familiar nascida na vindima de 1989. Como em tantas outras casas de viticultores da Bairrrada, até aí os vinhos produzidos nas Bágeiras eram vendidos a granel para as caves da região, actividade iniciada pelos avós de Mário Sérgio e continuada por seus pais.

Quando resolveu seguir o árduo caminho de vitivinicultor-engarrafador, Mário Sérgio contou com o apoio total da família, que colocou propriedades e adega nas suas mãos, na certeza de que aquele rapaz, de apenas 23 anos, sabia exactamente onde queria chegar e como. O onde, estava claro para o jovem produtor: possuir uma marca de vinho reconhecida que, através da criação de valor, permitisse às actuais e futuras gerações viver da agricultura com o mínimo de conforto. O como, nunca foi, para si, em discussão: preservar, melhorar e acrescentar o património (vinhas, adegas, conhecimentos, processos) deixado por seus antepassados, de forma a produzir vinhos clássicos, ancorados na mais pura tradição bairradina, vinhos que se assumissem como diferenciadores num mundo que, em 1989 e nas duas décadas seguintes, se deixava encantar pela tecnologia e pela inovação.

Bageiras

Quase 37 anos passados, Mário Sérgio Alves Nuno mostra ter acertado no percurso escolhido. A Quinta das Bágeiras tornou-se uma referência absoluta entre os vinhos da Bairrada e de Portugal. E processos de vinificação que, nos anos 90, eram considerados retrógrados, completamente ultrapassados (“fundamentalistas do engaço” assim foram num jornal classificados o produtor e seu enólogo de então, Rui Moura Alves), hoje são valorizados enquanto expressão de um terroir, onde o factor humano é tão importante quanto o clima, o solo e as castas.

Assim, os vinhos da Quinta das Bágeiras continuam assentes nas uvas tradicionais (Baga, Maria Gomes, Bical, Cercial…) e na vinificação “à antiga”, mantendo-se lagares, engaço, prensa vertical e tonéis velhos nos tintos; e decantadores abertos de cimento, fermentação e estágio em tonel, nos brancos. Os Garrafeira, brancos e tintos, são obtidos de vinhas centenárias, não aramadas. Na linha Pai Abel, a concessão à “modernidade” começa das vinhas, com “apenas” vinte e alguns anos de idade e continua na adega, onde os tonéis são substituídos por barricas borgonhesas muito usadas.

Não se pense, porém, que nada mudou nas Bágeiras nas últimas décadas. Desde logo, porque Mário Sérgio é um produtor aberto ao mundo, e sobretudo às regiões francesas de Champanhe, Bordéus e Borgonha, que visita com frequência e onde recolhe inspiração e conhecimento que posteriormente aplica nos espumantes e vinhos tranquilos da Bairrada. E depois, porque uma nova geração, protagonizada por Frederico Nuno, está a deixar a sua marca nos vinhos da casa.

Frederico Nuno cresceu por entre vinhas, pilhas de espumante, tonéis e alambiques. Após a licenciatura em enologia na Universidade de Trás-os Montes e Alto Douro e estágios em produtores de dimensões e conceitos muito diversos (Lusovini, Susana Esteban, Sogrape, Anselmo Mendes ou Barão de Vilar), assumiu o seu papel na empresa familiar a partir da vindima de 2022. Com o pai, forma uma dupla que alia experiência e irreverência, e se complementa perfeitamente, gerindo bem os habituais conflitos inter-geracionais. Frederico Nuno é, também ele, intransigente defensor dos princípios e processos que fazem a identidade da casa, como trabalhar exclusivamente com uva própria (a Quinta das Bágeiras é membro fundador dos Vignerons de Portugal) ou vinificar os tintos com engaço no lagar. Mas promoveu, por exemplo, a introdução de controlo de temperatura nos lagares de tintos e novas formas de trabalhar o vinho base, e multiplicar as leveduras nos espumantes, entre outros ajustes que vieram trazer mais elegância e afinamento às clássicas referências Bágeiras, sem prejudicar a sua vincada identidade. E quando, por via das “inovações”, o resultado sai fora do estilo da casa, entra em cena a linha Fogueira.

Bageiras

Revolução na tradição

Desde há muito que, em cada vindima, Mário Sérgio reserva tempo e espaço para materializar inspirações recolhidas noutras paragens, experimentando vinificações ou estágios diferentes do habitual nas Bágeiras. Nos casos em que o resultado o entusiasma verdadeiramente, ao ponto de lamentar não ter onde “encaixar” o vinho no portefólio, nasce um Fogueira. Até ao momento, só tinha acontecido três vezes, com um branco, um rosé e um tinto.

O branco, que agora surge no mercado com a marca Fogueira, é uma autêntica revolução no estilo Bágeiras. Desde logo, pela casta principal, Chardonnay, que representa 50% num lote onde se incluem Cercial (40%) e Bical. E depois, pela utilização, em estreia absoluta na casa, de barricas novas.

“Sou verdadeiramente apaixonado pelos Chardonnay de Champanhe e Borgonha”, revelou Mário Sérgio na apresentação no novo Fogueira branco 2023. “Plantámos, pela primeira vez, Chardonnay em 2002 e temos utilizado apenas em alguns espumantes, e em muito pequena quantidade. Esta foi a primeira vez que nos atrevemos a colocar esta variedade num branco tranquilo.”

Se Mário Sérgio é “responsável” pela escolha da uva, Frederico Nuno é o “culpado” pelas barricas novas. O jovem enólogo fez uma vindima em Monção e Melgaço com Anselmo Mendes. Com o “Senhor Alvarinho” aprendeu muito sobre o trabalho de barricas novas em vinhos brancos – volumes, tipos de madeira, origens, tostas. Foi, aliás, Anselmo Mendes que o orientou na escolha da barrica certa para o novo vinho pretendido.

Bageiras

“O estilo da Quinta das Bágeiras não contempla madeira nova, mas isso não significa que eu e meu pai não apreciemos vinhos com barrica nova, brancos ou tintos. E este é o nosso primeiro a utilizar este tipo de madeira, já que no Pai Abel usamos só barricas muito usadas, e no Garrafeira só tonéis antigos.  Aqui fizemos fermentação e estágio em barricas novas de 500 litros”, diz Frederico Nuno. “São bem mais de 2000 euros cada barrica e, para este efeito, só servem dois anos…”, completa Mário Sérgio. E acrescenta: “Mas é dinheiro muito bem gasto. Só faz sentido investir em madeira nova se for de grande qualidade.” O estágio na barrica, após a fermentação, não incluiu bâtonnage, para evitar a incorporação de oxigénio, preocupação que Frederico Nuno trouxe da aprendizagem com Anselmo Mendes. O vinho foi passado a limpo no mês de Janeiro seguinte à vindima, voltando de imediato à barrica.

O Fogueira 2023 é um vinho absolutamente extraordinário, para mim, talvez o melhor branco de sempre da Quinta das Bágeiras. Dotado de notável elegância e frescura, evidencia toda a nobreza e cremosidade da casta dominante conjugada com a firmeza da Cercial, num conjunto moldado pelo forte carácter atlântico da Bairrada. “Esta é, sobretudo, uma região de brancos”, salienta Mário Sérgio, “é mais fácil fazer todos os anos um grande branco do que um grande tinto. O clima marítimo, os solos de argila e calcário, a vibrante acidez que se manifesta em todas as castas, tudo aponta para brancos de topo.”

Aquando da apresentação do Fogueira à imprensa, que teve lugar no restaurante Pedro Lemos, no Porto – “há largos anos, o Pedro ajudou-me com uma grande encomenda, e nunca me esqueci disso, além de que adoro a cozinha dele”, diz Mário Sérgio – já era público o importante prémio alcançado por este vinho, considerado o melhor blend branco no Concurso Vinhos de Portugal. Mas prémios e classificações não vão condicionar o futuro deste branco “revolucionário” no portefólio Bágeiras. À pergunta sobre se o modelo seria para repetir, dado que os três Fogueira anteriores, todos de castas e técnicas distintas, só ocorreram uma vez, Frederico Nuno não poderia ser mais sincero: “não faço ideia. Logo se vê.”

(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)

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