Editorial da edição nrº 113 (Setembro de 2026)
O Porto Vintage é uma das poucas categorias de vinho em que uma declaração geral continua a ter um significado colectivo e histórico extraordinariamente forte. Geram-se expectativas, opiniões e até alguma polémica. Paradoxalmente, todo este movimento se concentra no topo da pirâmide, numa ínfima parte, cerca de 1%, de todo o Vinho do Porto produzido.
Lembro-me de que, na altura das declarações gerais consecutivas de 2016 e 2017, os comentadores estrangeiros mais críticos referiam, com algum sarcasmo, que o Vintage clássico agora era todos os anos. Com a declaração de 2018, a ‘acusação’ ressurgiu, embora esse ano, apesar de excelente, não tenha sido considerado clássico. Entretanto, em Portugal ganhou força a convicção de que o velho padrão de três grandes Vintage por década já não fazia sentido: o Vintage é quando o homem quiser. A natureza parece ter discordado. Foram precisos sete anos para que chegasse outro clássico: 2024.
Será que hoje, com viticultura de precisão, adegas bem equipadas, melhores aguardentes e muito conhecimento científico, não se consegue produzir um grande Vintage todos os anos? Sim, temos hoje essa capacidade. Mas não em todo o lado e não ao mesmo tempo. Mesmo nos anos péssimos, há sempre qualidade algures. São vitórias de terroir. E a decisão de declarar um Vintage cabe ao produtor. As grandes casas podem encontrar condições óptimas numa ou noutra propriedade para um Single Quinta Vintage; os produtores mais pequenos interpretam o ano a partir das suas próprias vinhas. Se a Câmara de Provadores do IVDP aprovar, Vintage será.
O que verdadeiramente distingue um ano bom de um ano extraordinário é a qualidade transversal e generalizada. Quando tudo acontece no timing certo e na medida certa, ou quando um excesso é compensado por outro factor, como por exemplo, a falta de água no Verão, pela precipitação generosa no Inverno. Nestes anos, os Vintage das grandes casas são um lote de vinhos de várias propriedades sob o nome da marca principal – Graham’s, Dow’s, Taylor’s, Fonseca, Ferreira, Sandeman, Kopke – e não de uma só quinta. O resultado vai para além da soma das partes.
Foi o que aconteceu em 2024. Depois de anos muito secos, marcados por ondas de calor e precipitação errática, este veio com humidade suficiente no solo, sem vagas de calor prolongadas e com noites frescas, permitindo uma maturação lenta e uniforme de diversas castas em variadíssimas vinhas.
O barómetro do Vinho do Porto é sempre o desempenho da Touriga Franca. Em 2024, porém, muitos produtores destacam a Touriga Nacional. Até as castas mais complicadas, como a Tinta Roriz ou a Malvasia Preta, entregaram uma qualidade acima da média, como referiram vários enólogos na recente prova de 40 Vintages 2024 organizada pela Associação das Empresas de Vinho do Porto (AEVP). Esta prova, entre outras realizadas este ano, permite identificar alguns traços do Vintage 2024: pureza excepcional da fruta, muita frescura de boca, taninos sedosos e um charme imediato, mas com o potencial de envelhecimento.
Também foram partilhadas impressões sobre os vinhos de 2025 em estágio, muito opacos e densos, já uma grande promessa. Há indícios de que poderemos ter novamente uma declaração generalizada. Talvez seja essa a ironia: podemos estar cada vez mais preparados para fazer grandes Vintage, mas ainda não podemos comandar o ano. Podemos discutir quantos anos clássicos cabem numa década, mas a natureza continuará a decidir quando eles acontecem. (V.Z.)



