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Adega23: A visão de Manuela

By 4 Dezembro, 2018 Sem comentários

O trocadilho é quase irresistível, uma vez que a proprietária da Adega23 é médica oftalmologista. Mas resume bem o que aconteceu em Sarnadas do Ródão, região da Beira Interior: Manuela Carmona teve uma visão e concretizou-a. Com enologia de Rui Reguinga, os vinhos estão prestes a sair para o mercado. E a adega capta os olhares de quem circula na A23.

TEXTO Luís Francisco
FOTOS Ricardo Palma Veiga

É verdade que do sonho nasce a obra, mas há casos em que a obra supera o próprio sonho. Que o diga Manuela Carmona, médica oftalmologista, que um dia sonhou ter uma vinha e fazer vinho na terra dos seus avós, Sarnadas de Ródão, concelho de Vila Velha de Ródão. “A minha ideia inicial era uma coisa pequena, um hectare ou assim…”, confessa, na sua novíssima adega forrada a cortiça e pairando sobre quase 12 hectares de vinha nova, mesmo à beira da A23. Que inspirou o nome deste projecto: Adega23. Os primeiros vinhos estão agora a sair para o mercado.
Estamos nos limites meridionais da região vitivinícola da Beira Interior, bem mais perto das primeiras vinhas do Alentejo – ali ao lado, na serra de São Mamede – do que de qualquer outro projecto beirão… “Somos o único produtor entre o Tejo e a Gardunha. As pessoas estão muito curiosas e a população local entusiasmada! E isso deixa-me muito feliz. Porque o principal objectivo é fazer o melhor vinho possível, mas também trazer algo de bom à terra.”
Manuela, 56 anos, nasceu em Castelo Branco, a sua família é de Sarnadas e esta filha da terra a boa casa tornou. Bom, por enquanto em part-time, que a medicina continua a tomar-lhe a maior fatia do seu tempo. Ainda assim, adivinha-se a altura em que a balança penderá para os vinhos… Pelo brilho nos seus olhos, mas também pela qualidade e dimensão da infra-estrutura criada, uma adega que vai abrir-se ao enoturismo e de onde sairão, nesta fase, 30.000 garrafas por ano.

O dedo do enólogo

A enologia está a cargo de Rui Reguinga, um enólogo com projectos na Beira mais setentrional e na serra de S. Mamede, que daqui se avista tão bem (já agora, do alto da adega também a Serra da Estrela é visível…). A matéria-prima provém de vinhas plantadas entre 2014 e 2015 em solos pedregosos (xisto), nalgumas parcelas com alguma argila, a meia-encosta e com exposição dominante Sul-Poente. Sob a sua orientação, foram escolhidas nove castas, quatro de uvas brancas e cinco de tintas. Entre as brancas, contam-se Arinto, Síria, Verdelho e Viognier; nas tintas há Alicante Bouschet, Aragonez, Touriga Nacional, Rufete e Syrah. Resumindo: castas que se dão bem no norte do Alentejo, e duas com raízes beirãs (Síria e Rufete), que dão “o carácter local”, assume o enólogo.
A ideia é fazer lotes – o branco (quatro castas) e o rosé (Aragonez e Rufete), que agora vão ser lançados, são o resultado dessa filosofia, bem como o tinto que sairá dentro de alguns meses. “Mas não descartamos a hipótese dos monocastas, se der para isso”, esclarece Reguinga, que idealizou a adega de forma a poder trabalhar em pequenas vinificações. Há depósitos em inox de 1.500 e 2.500 litros para os brancos; lagares, troncocónicas, cubas em inox e (em breve) balseiros em madeira para os tintos. “Os primeiros dois anos são vindimas de experiências, até porque eu tenho muitos anos disto, mas não nesta zona. Com estas instalações podemos vinificar separadamente as castas e até as parcelas, para ficarmos com uma ideia mais definida do que cada uma dá.”
Nesta primeira vindima, a de 2017 (toda feita entre as 6h e as 10h da manhã, com mão-de-obra voluntária da região), o enólogo destaca os bons resultados da Rufete e da Síria, bem como da Syrah, embora esta sem surpresa, uma vez que “se dá bem em todo o lado”. As vinhas tintas ficam situadas nos declives mais acentuados, as brancas em zonas mais planas – para quem segue para norte na A23, as brancas ficam à direita, as tintas à esquerda, junto ao edifício da adega.
Esta destaca-se bem na paisagem e está a transformar-se num dos ícones da região. O projecto, do atelier Rua, assenta numa planta rectangular (aproveitando a área antes ocupada por um pavilhão agrícola) e destaca-se pelo revestimento em cortiça e pela cinta metálica do anel exterior, que brilha sobre a paisagem com o sol da tarde em tons de dourado e com iluminação artificial à noite. É impossível passar na A23 e não dar com o edifício. E dar com ele é meio caminho andado para o visitar, porque a saída da auto-estrada é mesmo ali ao lado… Manuela Carmona quis que a adega dispusesse de espaços sociais generosos e está a decorá-los com gosto, apostando claramente no enoturismo. Na região, repete-se, não há mais nada assim.

A vinha do avô

Vinhas sempre houve, e continua a haver. Pequenas, quase sempre limitadas à bordadura dos terrenos, porque as regras impostas pelo regime do Estado Novo colocaram esta região fora do mapa vínico. Na sua família, Manuela sempre teve gente que cultivava videiras e fazia vinho, mas em pequenas quantidades e apenas como ocupação de fim-de-semana. Quando, em 2010, na “ressaca” da sua passagem pela presidência da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia, sentiu a necessidade de respirar fundo e “mudar de ares”, quis voltar a fazer vinho na velha vinha do avô.
Mas os estragos provocados pelos veados e javalis já eram irreversíveis e os planos adaptaram-se a essa nova realidade. Procurou uma propriedade onde fosse mais difícil a vida selvagem vir a causar problemas – e encontrou-o nas margens da A23. A seguir percebeu que só valia a pena apostar numa adega bem equipada e com padrões ambiciosos de qualidade se a operação tivesse alguma dimensão. Finalmente, deixou-se seduzir pelo mais arrojado dos três projectos arquitectónicos que lhe foram apresentados para a adega.
O resultado aqui está: quase 12 hectares de vinha e um edifício “muito importante para a auto-estima desta região do interior”. Manuela frisa este ponto com mal disfarçado orgulho: “Veio mostrar que aqui se podem fazer projectos de qualidade.” Pessoalmente, isto é também o reflexo da sua filosofia de vida, assente na ideia de que “é preciso ter objectivos e enfrentar os desafios”. A missão não está cumprida e há novos episódios prometidos para breve, como a abertura ao enoturismo a tempo inteiro ou a plantação de mais três hectares de vinha, nos terrenos ainda disponíveis. Mas, por agora, chegou a altura de o vinho falar por si.
A primeira edição do branco (13.500 garrafas) e do rosé (2.500) vai ser apresentada nas próximas semanas, o tinto (outras 13.500 garrafas) verá a luz do dia mais lá para o Outono. O engarrafamento recente levou Rui Reguinga a adiar uma prova formal, mas pelo que já se pôde saborear (à refeição), os vinhos são ambiciosos e têm carácter. E de outra maneira não poderia ser, dada a faixa de preço (acima dos 10 euros) onde se querem inserir. Para já, produtora e enólogo destacam a grande curiosidade que os vinhos Adega23 estão a despertar. “Fiz as primeiras vendas há mais de um ano, ainda nem havia vinho…”, confessa Manuela.

 

Edição Nº14, Junho 2018

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