Os três dias passados no Algarve em visitas aos produtores, em provas de vinhos e conversas com enólogos e com a Presidente da Comissão Vitivinícola do Algarve (CVA), Sara Silva, foram bastante elucidativos. Confirmou-se a sensação que tinha acerca de uma eventual grande mudança, uma (r)evolução em curso que deixa de ser silenciosa e passa a ser evidente no território mais a sul do país.
Esta região, quente e árida, que no imaginário colectivo português pouco está associada a vinhos a sério, tem uma característica que mais nenhuma região do nosso país tem: o mercado à porta. O mercado que não se importa de pagar o preço bem mais alto do que no resto de Portugal, sem esmagar as margens aos produtores, como por hábito acontece na exportação. Por isso, hoje, como nunca, o Algarve atrai investimento na área vitivinícola. Já para não falar que cerca de 70% do vinho do Algarve se vende na região.
Em 2016 havia 30 agentes económicos registados na CVA e, numa década, esse número duplicou. O tecido empresarial é muito diverso, desde produtores algarvios que sempre estiveram por cá; um grande núcleo de produtores estrangeiros (o equivalente a 40%), alguns com o foco em potenciar o negócio, outros porque querem ter a sua vinha no quintal; e até grandes empresas que trouxeram o know how de outros regiões do país e uma visão estratégica, como é o caso da Aveleda e da Casa Santos Lima. E há espaço para todos.
Enoturismo e restauração
Eis dois grandes pilares de comercialização e promoção dos vinhos no Algarve. A maior parte dos projectos vitivinícolas na região já nascem com enoturismo pensado de raiz. Naturalmente, mais vocacionado para o público estrangeiro. O turista português não vai ao Algarve para provar vinhos, vai pelas praias e numa de relaxar. O estrangeiro quer tudo o que este território português banhado pelo sol oferece, vinho incluído.
O mercado dita as regras do jogo: há uma procura muito forte por brancos frescos, rosés de qualidade e espumantes. O turista do Algarve está acostumado ao Sauvignon Blanc e ao rosé francês. Este vende-se pela cor. Portanto, quanto mais clarinho, melhor. E a proximidade do mercado, quer com o consumidor final, quer com a restauração e agentes de enoturismo, faz com que o feedback recebido pelo produtor seja directo e quase imediato, o que lhe permite ir adaptando o seu portefólio.
Segundo Sara Silva, dos vinhos produzidos no Algarve, 60% são tintos, entre os 30% e 40% são brancos e o restante é rosé. A partir de 2020 também passaram a certificar espumantes e já têm 12 produtores a apostar em bolhas, utilizando, sobretudo, as castas Negra Mole e Arinto para esse efeito.
A forma como a restauração algarvia olha para os vinhos da própria região também mudou bastante nos últimos tempos. Há 20 anos a abertura era quase nula, os produtores eram praticamente expulsos dos restaurantes. É claro que, na altura, os vinhos dificilmente competiam com Douro ou Alentejo, mas o cenário mudou.
Cerca de 70% do vinho do Algarve vende-se na região.
DO vs. IG
As denominações de origem, no Algarve, foram demarcadas em 1980, seguindo um critério administrativo e não técnico. Basicamente, a cada adega cooperativa correspondia uma DO. E foram quatro: Portimão, Lagos, Lagoa e Tavira. O vinho regional Algarve só surgiu nos anos 2000, quando as adegas começaram a colapsar. A de Tavira e a de Portimão encerraram ainda no final do século passado e, mais tarde, a fusão da Adega Cooperativa de Lagoa com a Adega de Lagos deu origem à ÚNICA – Adega Cooperativa do Algarve. Literalmente.
As denominações de origem ficaram praticamente atrofiadas, enquanto, a partir de 2000, começaram a surgir produtores privados na região. Estes tinham noção quem era o principal consumidor deles – o turista estrangeiro – e preferiram plantar castas internacionais e nacionais mais conhecidas, como a Touriga Nacional. A IG (Indicação Geográfica) serviu perfeitamente para enquadrar vinhos produzidos com estas castas. E vamos mais longe: internacionalmente, o Algarve tem mais expressão do que qualquer das DO existentes. Coloca logo o vinho no mapa vínico do mundo.
Se mantivermos as antigas DO, de que identidade estamos a falar? As castas são praticamente as mesmas das já existentes nas outras regiões do país. Provavelmente, as variedades estrangeiras trazem mais identidade ao Algarve, do que as portuguesas, com algumas excepções. E são mais facilmente percebidas pelo consumidor, a quem pouco importa se a Sauvignon Blanc que tem no copo é de Lagos ou de Lagoa.
Agora fazia mais sentido unir as quatro DO dentro de uma só, para elevar o nome Algarve, e criar o Regional Algarvio, à semelhança de DO Alentejo e IG Alentejano, por exemplo. Mas administrativamente e burocraticamente não é fácil alterar estas nomenclaturas. A ver vamos.
Negra Mole com bagos de cores diferentes no mesmo cacho, dá vinhos de cor aberta e bastante leves.

Negra Mole: sunset no copo
Mal-amada durante décadas, a Negra Mole está a ser promovida, a pouco e pouco, a uma estrela ascendente no universo algarvio. Fruto dos investimentos mais recentes, não tem aumentado em termos de área, ainda mais por falta de bacelos para plantar.
É uma casta autóctone, típica da região e uma das mais antigas variedades portuguesas. Com bagos de cores diferentes no mesmo cacho, dá vinhos de cor aberta e bastante leves. Como refere Diogo Campilho “por muito que se tente extrair, a cor nunca vai muito além disto.”
Na década de 80 do século XX, a Negra Mole representava 75% da plantação da região. Mas a partir dos anos 90, este perfil de vinho tinto não era valorizado, tendo sido gradualmente posta de parte. Actualmente, ocupa o segundo lugar nos vinhedos da região, ocupando 15% da área, a seguir à Castelão, com 16%. Parece que chegou o seu momento. Por um lado, os produtores profissionalizaram-se e conseguem tirar o melhor proveito das particularidades desta casta; por outro, o consumidor também está mais aberto a este tipo de vinho.
Se há alguma casta tinta que identifica o Algarve, o seu perfil ligeiro e descontraído, com aquela cor que é só dela, que faz lembrar uma toranja, é, claramente, a Negra Mole. Ela própria é o sunset no copo: vermelho, com tons alaranjados. Esta, sim, deveria ser protegida no âmbito da denominação de origem do Algarve, seja ela qual for.
Dos vinhos produzidos no Algarve, 60% são tintos, entre os 30% e 40% são brancos e o restante é rosé.
Vinho, arte e turismo
A Quinta dos Vales, em Estômbar, no concelho de Lagoa, é bastante conhecida pela sua ligação à arte, da qual o fundador do projecto, o empresário alemão Karl Heinz Stock, era grande apreciador. Em 2024, a “quinta das esculpturas” mudou de mãos, sendo adquirida por um grupo de empresários do sector de hotelaria.
A produção de vinho manteve-se, tal como as marcas existentes: Marquês dos Vales e Grace. A equipa de enologia, jovem e dinâmica, é composta pela algarvia Rita Xavier, que durante o seu percurso profissional já passou por Alentejo, Douro e Argentina, e pelo chileno Rafael Merce, com vasta experiência internacional na Argentina, México, Estados Unidos e Brasil, para além do seu país natal. Ambos contam ainda com consultoria de Paulo Laureano.
“Estamos a cinco quilómetros do mar e a três do rio [Arade], em linha reta”, afirma Rita Xavier. “Os solos são argilo-calcários e, na vinha, estamos sempre a encontrar fósseis”, continua. Dos 44 hectares da propriedade, a vinha ocupa 19, dos quais três foram replantados recentemente. Para ir ao encontro do mercado, a Syrah foi reconvertida em Sauvignon Blanc e a Castelão em Arinto. “Adaptamo-nos um bocado à realidade em que estamos inseridos, porque tanto o branco como o rosé é o que mais se consome aqui”, justifica a enóloga. Cerca de metade da produção é dominada pelos vinhos brancos, 30% são tintos e 20% são rosé. Selecta é a gama de entrada, Duo, a gama média, que é sempre bivarietal, e a marca Grace representa a gama mais alta.
A adega tem capacidade de produção para 150 mil litros, mas, actualmente, produzem cerca de metade. Isto tem a ver com a reestruturação da vinha e com o facto de deixarem de ter uma vinha em Silves, que pertencia ao antigo proprietário.
A vertente de enoturismo é muito forte. Têm parcerias com hotéis, dispõem de alojamento próprio e de organização de eventos na quinta (casamentos, baptizados, jantares privados), os quais contribuem para a promoção das suas marcas de vinhos.
Uma oferta muito particular que desenvolveram na Quinta dos Vales é The Winemaker Experience. Pressupõe o aluguer de uma vinha com uma ou mais variedades em função do tipo de vinho que se pretende produzir. O contrato, normalmente, dura um ou dois anos e inclui todas as despesas com a vinha e o acompanhamento enológico. Quanto mais cedo começar, mais interessante será o processo, porque a data de vindima e a abordagem na adega são definidas em parceria com a equipa de enologia. Basta imaginar que a mesma casta, como, por exemplo, a Syrah, pode originar um rosé, um blanc de noir, um tinto ligeiro ou um tinto com estágio em barrica; e cada opção envolve manuseamento diferente. Para a vindima de 2026 já fecharam as oportunidades, mas para 2027 há mais.
Vinho de autor
A Quinta do Francês é uma das mais antigas quintas privadas no Algarve. Localizada no Vale da Ribeira de Odelouca, em Silves, esta pequena pérola pertence, desde 2000, a Patrick Agostini, de origem italiana, nascido em França. Médico de formação, radicado em Portugal, com a sua mulher Fátima, levou o projecto tão a sério, que tirou o curso de Enologia em Bordéus. Em 2002, plantaram a primeira vinha e, em 2008, estava pronta a adega. Hoje, contam com 12 hectares de castas, portuguesas e internacionais. A produção ronda as 80 000 garrafas por ano.
A propriedade está no sopé da Serra de Monchique e é marcada mais pela influência da serra do que do mar. “Quase todas as outras quintas apanham alguma maresia. Aqui, a influência marítima é quase nula, mas há sempre o ventinho da serra”, explica o enólogo Pedro Mendes. E no Inverno refere a diferença de 5º C para menos, comparativamente com a zona próxima da autoestrada, localizada a apenas a quatro quilómetros de distância.
Os solos também são fortemente marcados pela orografia. Na cota mais abaixo da quinta, onde o afluente do Arade, o Odelouca, cravou um vale, os solos são calcários, com uma percentagem de argila, zona conhecida no Algarve como Barrocal. No início da serra, nas colinas, já se nota a presença de xisto, mas quando chegamos a Monchique, muda para solos graníticos.
Vindima-se tudo à mão. A mecanização não é fácil e a dimensão relativamente pequena também não a justifica. A produção é reduzida, rondando as três toneladas por hectare. Tem a ver com os solos pouco férteis e, com o clima tão quente, “a videira também se protege um bocado para não produzir muito”, resume o enólogo.
A vinificação é separada casta por casta, para “ter mais ferramentas para trabalhar no final” e Patrick participa sempre nas decisões de lote. “Hoje em dia, estamos a usar mais as barricas de 500 litros, porque fazemos estágios mais prolongados”, justifica Pedro Mendes. A gama de entrada chama-se Odelouca e a gama superior ostenta o nome da quinta, com destaque para o Syrah Terrasses e Ianthis Cabernet Sauvignon.
O enoturismo é uma componente importante da oferta. Inclui visitas guiadas às vinhas e à adega, bem como diferentes provas de vinho, realizadas numa sala ou num pitoresco terraço, sombreado por vegetação trepadeira, com vista, naturalmente, para as vinhas.
O turista português não vai ao Algarve para provar vinhos, vai pelas praias e numa de relaxar.
Rigor e definição
O projecto Villa Alvor começou em 2019, quando a Aveleda adquiriu a propriedade em Alvor, no concelho de Portimão, e criou esta marca. “Já fizemos investimentos grandes na vinha e também vamos investir em grande a nível de enoturismo. É um projecto que nós gostamos e pelo qual temos um carinho enorme”, declara Diogo Campilho, Director de Enologia da Aveleda. Na sua equipa conta com o enólogo Rui Viana, que passou a acompanhar o Villa Alvor em 2024, e com Pedro Furriel, que ali começou a trabalhar como enólogo residente no ano passado.
O grande foco, neste momento, é organizar a área de produção, de modo a que o trabalho seja feito da forma mais eficiente possível, com o menor recurso a mão-de-obra. Para o ano, vão começar as obras, para compor a zona de enoturismo. Vai haver uma loja e um espaço criado para refeições ligeiras, que podem ser acompanhadas com vinhos, e uma grande esplanada.
A visita à vinha revelou solos são argilo-calcários, com muita pedra à vista. Entre as castas nacionais e internacionais há particular destaque para a Negra Mole, Moscatel Galego Roxo (da qual fazem um belíssimo rosé) e Crato Branco.
As vindimas de 2020 a 2022 foram feitas à mão, mas não é nada vantajoso apanhar uva à mão em 30 hectares, devido ao calor algarvio e à escassez de recursos humanos. Aqui, onde o terreno é bastante plano, a vindima nocturna à máquina é a melhor solução. A vantagem de ser uma empresa grande, permite aproveitar as sinergias. “Isto antes era impensável no Algarve. Agora fazemos controlo de maturação, provamos, decidimos, vem a nossa máquina da Aveleda, com o operador especializado para vindimar tudo no ponto”, refere Diogo Campilho com satisfação.
Atendendo às preferências do mercado, dos 200-250 mil litros por ano, metade são vinhos brancos, 30% rosés e 20% tintos. Os perfis dos vinhos são bem definidos entre todas as gamas e também se percebe a filosofia do produtor. “O nosso estilo é muito frutado e limpo, tudo protegido das oxidações. Com o tempo, vamos começar a criar aqui uns vinhos mais de autor, que eu acho que é interessante. Até lá, queremos cimentar a marca que temos”, resume o Director de Enologia.
No enoturismo, para além dos “casais que batem à porta”, têm visitas organizadas através das parcerias com as agências turísticas. E, de 15 em 15 dias, à sexta-feira, organizam uns sunsets.
Rio, ânforas e Negra Mole

Arvad é um projeto relativamente recente em Estômbar, Lagoa. Começou em 2016, com vinhas plantadas de raiz. Os proprietários da família Garcia de Matos compraram, em 2012, um monte e com os anos foram comprando os terrenos à volta. Neste momento, são 120 hectares.
“É um lugar muito bom para a plantação de vinha, porque nós estamos na curva do rio. De um lado, temos uma exposição a Norte. Quando está vento Norte, recebemos aqui nortadas frias. Do outro lado, estamos expostos a Oeste, de onde recebemos mais a influência do Oceano Atlântico. A outra frente do terreno está virada para a Serra de Monchique, que bloqueia os ventos do Norte, mas, ao mesmo tempo, temos um vale, onde corre a Ribeira de Odelouca, que afunila os ventos e concentra a frescura”, conta Mariana Canelas, responsável de vendas e exportação do Arvad.
No início do projecto, foi contratado um historiador, para saber mais sobre a história deste lugar. Parece que o nome do rio Arade provém da palavra “Arvad”, porque era a designação que os fenícios atribuíam a esta parte deste curso fluvial. Quer dizer “refúgio”, “porto seguro”, porque, naquela época, fugiam para dentro do rio, com o intuito de se refugiarem das tempestades e dos piratas. E foram os primeiros a introduzir vinho na Península Ibérica. Pensa-se que aqui, nesta zona, em Silves, foi a primeira região, onde se provou vinho, trazido pelos fenícios, em ânforas vinárias. Daí a grande aposta do produtor em ânforas.
O projecto foi pensado no enoturismo de raiz. Em 2016, plantaram nove hectares de vinha, com uma selecção de castas portuguesas e internacionais: Arinto, Alvarinho e Sauvignon Blanc, para os brancos; para os tintos, Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon e Alicante Bouschet. Estrearam-se na vindima em 2019 e lançaram os primeiros vinhos em 2020, em plena pandemia. Correu tudo tão bem, que decidiram apostar na plantação de mais vinhas e, nessa altura, introduziram a Negra Mole. Primeiro alugaram cinco hectares de vinhas velhas desta casta, que ficam perto do Morgado do Quintão (outro produtor do Algarve), e depois plantaram parcelas novas. Neste momento, já contam com 12 hectares de Negra Mole, a protagonista de um tinto, um rosé, um blanc de noirs e um espumante.
Ainda ficaram com uma quinta em Alvor, com 27 hectares de vinhas, onde fizeram um projecto diferente, para um público diferente e uma abordagem diferente, e lançaram uma segunda marca, a Uca.
Em 2021, recuperaram as primeiras ruínas. Agora têm uma sala de estágio, uma sala de provas e uma sala de eventos. Segundo Mariana Canelas, o enoturismo tem corrido muito bem. Neste momento oferecem uma série de experiências, além das provas de vinho durante todos os dias do ano. As actividades incluem piqueniques nas vinhas: “os clientes podem vir de barco e provar vinhos ou almoçar no deck; podem fazer provas e almoços privados na casa do rio, com um chefe e show cooking.” Às quintas-feiras organizam o sunset com DJ ou com música ao vivo, “que é um sucesso”. O espaço é grande e bem decorado, e ainda dispõe de uma esplanada. Enche-se de gente alegre e de copos de vinhos brancos e rosés, maioritariamente.
“Neste momento o enoturismo é, sem dúvida, uma fatia grande da nossa faturação, mais de metade”, refere a anfitriã. Neste momento, estão a construir um hotel de cinco estrelas, com abertura prevista para o final de 2027.
“A exportação ainda é reduzida, mas eu posso dizer de uma forma geral o seguinte: 70% do vinho que é produzido no Algarve é vendido e consumido no Algarve. Cerca de 18%, creio eu, nem chega a 20%, é consumido noutras regiões do país. O resto, que é uma minoria, 1,8% mais ou menos, é para exportação.” Actualmente, estão a exportar em quantidades pequenas, para Alemanha, Áustria, Holanda, Inglaterra, e a Negra Mole para Ibiza.
A biodiversidade como compromisso
A Quinta dos Capinhas nasceu de uma história de amor. O alemão Horst Lieberwirth, depois de reformado, mudou-se para o Algarve, onde conheceu a sua futura esposa, Inês Capinha, portuguesa com raízes nestas terras. Casaram-se e adquiriram uma propriedade, em Porches, onde fundaram o projecto vitivinícola, em 2013, com o nome Quinta dos Capinhas.
A quinta tem cerca de 30 hectares, dos quais oito são de vinha plantada pelo casal, com castas portuguesas e internacionais: Cabernet Sauvignon, Chardonnay, Touriga Nacional, Alfrocheiro, Arinto, Verdelho. Mais recentemente acrescentaram a Negra Mole.
“Temos o mar ali à nossa frente a dois quilómetros. Depois, temos esta brisa, que é muito frequente, é óptima para não termos doenças nas plantas. Estamos no segundo ano de conversão para biológico e tem corrido bem. Não estamos com grandes problemas em comparação com o ano passado”, esclarece Sofia Saraiva, gestora do projecto.
A equipa é pequena, à dimensão do empreendimento. Para além do enólogo consultor Pedro Mendes, entrou recentemente o enólogo residente, Marco Crispim. Na parte do enoturismo, contratam uma pessoa de fora para a época alta. Felizmente, têm a possibilidade de lhe oferecer alojamento durante essa temporada. Durante o verão, praticamente todos os dias, têm provas de manhã e à tarde, organizam jantares vínicos com catering feito por um restaurante local. Há ainda três casas na propriedade, que podem ser arrendadas a turistas.
Para além de enoturismo, os vinhos vendem-se na restauração e em algumas garrafeiras. Uma pequena percentagem é exportada para a Alemanha, graças à ligação do dono da empresa a este mercado.
Os colheitas, ou entradas de gama, são sempre blends; depois há vinhos monovarietais em função do ano. Os best-sellers são a Alicante Bouschet e Antão Vaz. A novidade mais recente é um colheita tardia de Moscatel Galego, com podridão nobre. E ainda adquiriram um Moscatel produzido no Algarve nos anos 50 do século passado. Este não tem o nome da quinta. Chamam-no Testamento.
Praticamente em todos os rótulos existe um camaleão. Sofia Saraiva explica a razão: “esta zona do Algarve é uma das únicas zonas onde o camaleão não está em vias de extinção.” E, de tempos em tempos, o colega que trabalha no tractor, mostra fotografias dos camaleões que tem encontrado na vinha. “Mais uma razão para a transição para o biológico, porque nós estamos inseridos aqui nesta zona de grande biodiversidade. E para nós é mais do que uma certificação, é um objectivo de manter aqui o ecossistema da quinta equilibrado”, resume.
Nos planos, está a construção de uma adega na propriedade e o projecto já foi submetido para a câmara. Na colina, de onde se vê toda a vinha e o mar ao fundo, planeia-se a construção de um restaurante. Enfim, será bom voltar cá daqui a uns anos.
O projecto algarvio da Casa Santos Lima
Al-Lagar começou com dois hectares de vinha plantada numa propriedade que José Luís Santos Lima Oliveira da Silva,administrador e proprietário da Casa Santos Lima, adquiriu em 2008. À medida que ia comprando terrenos com casas para alojar as pessoas que precisava para trabalhar, ia plantando mais vinha. Depois investiu em adega própria, porque o volume de produção o justificava. Agora, a empresa possui cerca de 60 hectares, que é uma grande dimensão para o Algarve.
Segundo José Luís Santos Lima Oliveira da Silva, a Casa Santos Lima é não só o maior produtor de vinhos na região, como destacadamente o maior exportador de vinhos do Algarve, colocando, lá fora, 65% do vinho que produz neste território vitivinícola, estando presentes nos 30 mercados estrangeiros, com destaque para Reino Unido e Suécia, com dois vinhos registados no regime de monopólio; e depois desde a Ucrânia, à Tailândia e Nova Zelândia, só para nomear alguns. Mas é na própria região, onde se consome mais o seu vinho – 35% do que produz –, porque existe um grande consumo doméstico.
Em 2025, produziu cerca de 320 mil litros, entre branco e rosé e, este ano, está a contar com o crescimento de 10%. Cerca de 25% são vinhos brancos, 5% rosé e o resto tintos. Entretanto, devido à grande procura pelos brancos e rosés, as próximas plantações irão contar com esta tendência em termos de castas.
A vinha é toda regada. A água é proveniente das barragens de Beliche e de Odeleite, próximas de Castro Marim. “Também temos uns furos, mas nunca faltou a água da barragem”, assegura o produtor.
Ao contrário de muitos produtores que nasceram já a pensar no enoturismo, para a Casa Santos Lima, que sempre se focou na produção, esta actividade é recente, mas no Algarve faz todo o sentido. Está em desenvolvimento um projecto de alojamento local, com 18 quartos, no meio da vinha, com uma vista fantástica para o mar e para Vila Real de Santo António; e Al-Lagar, é a marca do enoturismo já a funcionar. Brevemente também será lançado um vinho com esse nome. Era um antigo lagar dos anos 80 do século passado, recuperado e transformado em espaço de enoturismo. Durante a restauração, preservou ao máximo o traço antigo e ficou um blend perfeito entre o rústico e o moderno. Nesta sala, que se mantém naturalmente fresca no ambiente acalorado da Tavira, podem ser feitas provas de vinhos, acompanhadas de refeições ligeiras e também podem ser adquiridos os vinhos da casa, abrangendo todas as regiões do país, onde têm produção. Ao lado, no antigo edifício de apoio ao lagar, chamado Casa da Nora, totalmente recuperado, existem salas para eventos ou provas privativas.
Durante o Verão, organizam sessões de cinema ao ar livre, em parceria com a empresa local All Stars Cinema. “Ontem, tivemos, aqui, à noite, a projecção do Sideways. Estiveram cento e tal pessoas aqui sentadas ao ar livre”, recorda José Luís Santos Lima Oliveira da Silva. É uma experiência para repetir.
(Artigo publicado na edição de Agosto de 2026)



































