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ALIJÓ, a personalidade do planalto

Alijó é terra de altitude e de gente genuína que em conjunto com as tradicionais castas do Douro (onde avulta o Moscatel Galego) expressa um terroir único. Num evento organizado pelo Município de Alijó e produzido pela Grandes Escolhas, provaram-se os Vinhos e Sabores dos Altos.

TEXTO Mariana Lopes
FOTOS Ricardo Palma Veiga

Este ano, de 13 a 15 de Julho, a Grandes Escolhas assumiu a produção da Alifeira, juntando-lhe os Vinhos e Sabores dos Altos. Organizado pelo Município de Alijó, o evento aconteceu a par do festival de música Sons no Parque, para uma combinação saborosa entre o copo e o fogoso blues de Marta Ren & Groovelvets, a poderosa voz da espanhola Aurora & The Betrayers ou os aveirenses Moonshiners, conhecidos pela harmónica que usam com destreza e riffs sem medos.
Tudo se passou na vila que dá nome a um dos concelhos mais importantes do Douro, a nível vitivinícola. Alijó é delimitado pelos rios Douro, Tua, Tinhela e Pinhão e tem uma área de cerca de 300km², abrangendo um vasto número de produtores e extensão de vinha. A zona vinhateira está, maioritariamente, na parte sul, desde Favaios e redondezas até ao Pinhão (que, à beira Douro, pertence ao concelho de Alijó), com a parte norte a integrar sobretudo floresta e pastorícia. É, sem dúvida, um dos concelhos mais ricos do Douro a nível vitivinícola e empresarial, com as suas aptidões para vinha a chamarem muitas grandes empresas da região a comprar ali uvas, sobretudo de variedades brancas. É lá a origem, também, de um dos produtos de maior valor acrescentado da região, o Moscatel do Douro, feito da casta Moscatel Galego Branco.

A selecção de produtores e expositores presentes do Planalto de Alijó foi de luxo, com nomes mais conhecidos que trouxeram consigo a qualidade comprovada, ao lado de outros mais pequenos, com novidades que surpreenderam: Real Companhia Velha (com os Quinta de Cidrô e Grandjó), Adega Cooperativa de Favaios, Lua Cheia em Vinhas Velhas, Adega Cooperativa de Alijó, Amareleza Vinhos, Quinta do Sagrado, Pedaços, Quinta do Jalloto, Secret Spot Wines, Costa Boal Family Estates, Agri-Roncão, C. da Silva, Fragulho, Quinta de Santa Eugénia, Quinta do Silval, Vértice, Quanta Terra, Vieira de Sousa, Wine & Soul, Quinta da Avessada – Enoteca Douro, BR Wines, Família Silva Branco, Mapa, D’Origem, Epordouro, Folias de Baco, Fingerprint, Croft, Águia de Moura, Quinta da Peruana, Quinta da Foz e Quinta do Zimbro. A estes ainda se juntaram as casas de sabores Fumeiro Nunes, Casa do Eirô e Qualifer, o famoso talho do Pinhão que é das principais atracções da vila.
Em cada um dos três dias houve duas provas rápidas, comentadas por Luís Lopes, director da Grandes Escolhas. Nessas provas espontâneas os visitantes foram convidados a apreciar vinhos de expositores presentes e a relembrar aquilo que o terroir de Alijó imprime nos seus vinhos: frescura e acidez, para a qual a altitude desempenha um papel fundamental, boa fruta e um carácter único.

Duas visitas que impressionaram
Uma das partes mais interessantes do evento em Alijó foi a das visitas a dois produtores do Planalto, bem distintos entre si. Adega Cooperativa de Favaios, o campeão dos números, e Família Silva Branco, um pequeno produtor que acaba de lançar o seu primeiro vinho, o Pedigree.
A Adega Cooperativa de Favaios nasceu em 1952 e tornou famoso um produto que criou para si a sua própria categoria, o Moscatel de Favaios. Hoje com 550 sócios, e 1100 hectares de vinha entre todos, a Cooperativa e o seu Moscatel têm um papel social e económico muito grande em Favaios e arredores, onde muita gente está, de alguma maneira, ligada ao negócio.
Em 1988, a Adega de Favaios inventou uma garrafinha que iria revolucionar o consumo nos cafés por este país fora, o Favaíto. Vendidas a um euro, 99% do seu mercado é nacional e a produção já vai em 27 milhões de exemplares.
A equipa de enologia actual entrou em 2001. Celso Pereira é o “vértice” superior de um triângulo que é completado por Miguel Ferreira e Filipe Carvalho, os dois enólogos residentes. Introduzindo inovação na Adega, aceitaram o desafio de desenvolver um novo centro de vinificação e de criar novas referências, que passam por categorias especiais de Moscatel, vinho branco e tinto, colheita tardia e até espumante. Actualmente, já são 23 os diferentes vinhos produzidos.

O clássico Adega de Favaios Moscatel do Douro começou a ser produzido apenas dois anos depois da fundação da empresa. De Moscatel Galego Branco, estagia três anos, mesmo que o período mínimo legal seja apenas de um ano. “Apesar de sermos uma adega de volumes, olhamos para a filigrana”, disse Celso Pereira, referindo-se à atenção à qualidade e à especificidade dos novos recursos da adega de vinificação. A produção actual do Adega de Favaios Moscatel do Douro é de 3 milhões de litros, mas nem sempre o seu escoamento foi o desejado.
Foi numa altura dessas que se criaram alternativas, como o vinho branco seco feito 100% da uva Moscatel, para que não houvesse desperdício. Celso Pereira explicou: “Os solos aqui são muito produtivos, cerca de 15 toneladas por hectare, pelo que temos de equilibrar a oferta com a procura.” Agora, depois do sucesso do vinho branco, irão fazer um novo investimento em inox, para acompanhar o crescimento, que se traduz em 1,3 milhões de litros produzidos, sendo que 700 mil desses são engarrafados e o resto vendido a granel. A nova referência Casa Velha, de Gouveio, Viosinho, Arinto e Rabigato, também contribui para isso.
Com o renovadíssimo centro de visitas e uma sala de provas elegante e moderna, a Adega de Favaios recebe cerca de 35.000 visitantes por ano. Uma cooperativa de referência no Douro.

Small is beautiful
Agora falamos numa escala muito mais pequena, mas cheia de raça. A Família Silva Branco dedica-se à vinha e ao vinho em duas vertentes: o pai e dois irmãos na sua empresa de terraplanagens e preparação de terrenos para plantação de vinhas, com uma inovadora técnica a laser, e os outros dois irmãos na produção de vinho. Movidos pelo amor à vinha e pelo prazer da experimentação, Filipe e Pedro Silva Branco, um agrónomo e um enólogo, tratam das suas vinhas, localizadas em vários pontos do concelho de Alijó, com uma dedicação que fascina.
Ao todo são sete e nós visitámos três: a Vinha das Cancelas, plantada em 2017 na aldeia de Castelo do Douro, tem Tinta Roriz, Tinta da Barca, Tinta Francisca, Touriga Nacional, Touriga Franca e também um apontamento de Moscatel e Síria; em Cotas do Douro está a Salgueira, uma bonita vinha velha plantada em socalcos, com mistura de castas, cujas uvas originam (a par de outra vinha velha de cota mais baixa) o primeiro e, para já, único vinho que está no mercado, o Pedigree; e em Póvoa do Douro encontramos a vinha Vale da Mó que, plantada em 2013, tem as variedades Gouveio, Viosinho, Donzelinho Branco, Arinto, Rabigato e um pouco de Sousão e Tinta Amarela. Foi no meio desta última que, debaixo de um sol quente, partimos e partilhámos uma bôla de carne de Alijó em cima da caixa de uma carrinha Bedford “vintage”, que acompanhámos com um “Moscatel Tonic” que nos refrescou a cada trago.
O Pedigree vem, como referido, de duas vinhas velhas, uma com 60 e outra com 80 anos, com altitudes de 250 a 500 metros. O 2014, já à venda, fez a sua fermentação em barricas novas e usadas, sendo que, nessa fase, em 50% foi mantido o engaço. São 1300 garrafas de um tinto que espelha todo o carácter dos “altos”, com elegância, frescura e muita persistência…

Edição Nº16, Agosto 2018

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