Estão em muitos países, embora quase sempre desempenhando papéis secundários. A Touriga Franca é a mais divulgada, Alvarinho e Touriga Nacional as estrelas em ascensão. No estrangeiro, as castas portuguesas são ainda um nicho. Mas, com o trabalho de casa bem feito e as alterações climáticas no horizonte, há sinais encorajadores para a sua crescente afirmação internacional.

 

TEXTO Luís Francisco FOTOS Ricardo Palma Veiga e cortesia dos produtores

pouco mais de três anos, a directora do site Wine Folly (winefolly.com), a sommelier Made­line Puckett, lançou-se num exercício curioso: e se, em vez da França, tivesse sido Portugal (um país com tradição vínica e vocação globalizadora) a ex­pandir o vinho pelo mundo? Qual seria o cenário das cas­tas dominantes no planeta? As respostas são simplistas, mas curiosas: a referência dos tintos seria a Touriga Na­cional, em vez do Cabernet Sauvignon; como alternativa mais fresca haveria a Touriga Franca, no lugar do Merlot. O Encruzado substituiria o Chardonnay, teríamos Jaen (na verdade, é a casta espanhola Mencia; e estes erros de identificação são uma das maiores “armadilhas” das es­tatísticas) em vez de Syrah, a Baga faria as vezes de Pinot Noir e o Pinot Gris cederia o protagonismo ao Alvarinho (outra casta de nacionalidade discutida entre Portugal e Espanha)…

Este cenário, claro, é apenas um exercício académico. Olhando para a realidade actual, são efectivamente as castas francesas que dominam o mundo (ver quadro), enquanto as variedades portuguesas assumem o papel de alternativas de nicho. A crescente popularidade dos vinhos feitos em Portugal (e a opção pelos blends, face a uma cultura de varietais que é dominante) obrigou muita gente a começar a pronunciar nomes difíceis e misterio­sos. Dos prazeres do copo ao investimento na vinha vai um longo trajecto, mas há um caminho que está a ser percorrido.

Segundo dados compilados num extenso trabalho da Universidade de Adelaide, Austrália, as castas portugue­sas ocupavam em 2010 três por cento da área de vinha do planeta e estão em quarto lugar na tabela de populari­dade mundial. Mas a léguas das três nações dominantes: França (35,8%), Espanha (26,1%) e Itália (12,8%). Portugal é o primeiro dos pequeninos, à frente da Croácia (2,3%), da Alemanha (2,1%), da Geórgia (1,8%) e dos EUA (1,7%).

Ora, se Portugal tinha em 2010 um total de 233.597 hec­tares de vinha (dados IVV, Instituto do Vinho e da Vinha) e a percentagem de castas nacionais estava calculada pelo estudo da Universidade de Adelaide em 72,3 por cento, isso aponta para cerca de 168.891 hectares de uvas lusas em solo português. Neste mesmo ano, a OIV (Organiza­ção Internacional do Vinho e da Vinha) estimava a área total do planeta em 7.593.700 hectares, pelo que os 3,0 por cento atribuídos às castas portuguesas pelo estudo da Universidade de Adelaide corresponderiam a 227.811 hectares. Ou seja, haveria quase 59 mil hectares de vinha “portuguesa” fora das nossas fronteiras.

Parece um número pouco crível… Segundo o estudo, as castas portuguesas representavam 3,6 por cento na Ar­gentina, 1,1% em Espanha, 1% na Austrália e 0,6% na África do Sul, com presenças registadas ainda no Canadá, Chile, Hungria, Reino Unido, EUA e Uruguai (todos com 0,1%), bem como no Brasil e Nova Zelândia (residual). Com isto, as variedades portuguesas conquistavam uma “quota de mercado” global de 3% (3,6% no Velho Mun­do, Portugal incluído, e 0,9% no Novo Mundo).

O mistério argentino
Desde logo, o caso argentino. À falta de documentação oficial sobre o assunto, o cenário tem de ser traçado à força de senso comum e testemunhos no terreno. Rui Re­guinga começou a trabalhar na Argentina em 2004 e em 2007 fez o seu primeiro blend de Malbec e Touriga Na­cional, um vinho que desde então tem tido edição regular todos os anos e que já conquistou posições de destaque na imprensa internacional da especialidade (já foi, por exemplo, considerado pela “Decanter” o melhor blend da Argentina).

O enólogo e produtor português tem um projecto pró­prio na Argentina com 240 hectares, dez dos quais ocupa­dos por Touriga Nacional, a única casta portuguesa que cultiva na América do Sul. Juntar a rainha das variedades tintas lusitanas com a casta mais emblemática da Argenti­na não é caso único e Reguinga avança que “haverá umas dezenas de hectares de Touriga Nacional na Argentina”: “É uma casta que começa a ter alguma posição no país. Mas, por enquanto, apenas dá origem a vinhos de nicho.”

Daí até as uvas portuguesas representarem três por cento da área de vinha na Argentina, conforme aponta o es­tudo australiano de 2010, vai uma diferença colossal… É um mistério difícil de deslindar, mas que pode ser parcial­mente explicado pela dificuldade de destrinçar as origens de uma variedade em função dos diversos nomes por que pode ser conhecida. A Trincadeira, por exemplo, pode ser Tinta Amarela; o Jaen é Mencia (espanhola); quando falamos de Aragonez ou Tinta Roriz estamos a referir-nos à Tempranillo (também de Espanha). Há até uma casta, a Português Azul, que de lusitano só tem o nome…

Adiante. Apesar de os números indicarem o contrário, é convicção generalizada de que o país estrangeiro onde as castas portuguesas terão maior expressão é a África do Sul. Rita Marques, criadora, entre outros, dos vinhos Con­ceito e que mantém um pé naquele país africano (tam­bém trabalhou na Nova Zelândia, mas está agora mais focada nos seus projectos portugueses), diz que há por lá “bastantes castas portuguesas”, uma presença em gran­de parte justificada pela produção de vinhos fortificados (apresentados mesmo no mercado, até há alguns anos, como “Port”). “Temos até uma casta, a Tinta Barroca, que, não sendo muito popular em Portugal, é um pouco moda na África do Sul. Onde, aliás, assume um nome li­geiramente diferente, com sonoridade mais italiana: Tinta Barocca.

“Quando, nos anos 1940, a África do Sul se lançou na produção de vinhos fortificados e tentou replicar o Vinho do Porto, várias castas portuguesas cultivadas no Dou­ro foram adoptadas”, reforça Dirk Niepoort. Há também, acrescenta o enólogo e produtor, vinhas velhas “na África do Sul e na Austrália” onde as castas aparecem mistu­radas. “Estive numa de brancos com mais de 100 anos e disseram-me que havia variedades portuguesas lá no meio, mas não é comum encontrar variedades brancas de Portugal”, recorda ainda Rita Marques.

Pelo contrário, na Austrália a casta portuguesa mais rele­vante será a Verdelho, levada da Europa ainda no século XIX, juntamente com outras (Tinta Barroca, Touriga Na­cional…), quando os australianos fizeram prospecção e se lançaram na vitivinicultura, explica Eiras Dias, responsável pela Colecção Ampelográfica Nacional, em Dois Portos. Os australianos desenvolveram entretanto novos clones e não parecem muito interessados em partilhar informação. “Pedimos-lhes Verdelho para confirmar que era o nosso e não nos ouviram…”, lamenta o investigador português.

Regressando à América, o cenário continua a ser mar­cado pelo interesse pontual de alguns produtores, que lançam vinhos diferentes e especiais, mas não destinados ao grande consumo. Dirk Niepoort conhece vinhas de Touriga Nacional e Alvarinho (“neste último caso, até fui que enviei os garfos para lá”) nos EUA (na Califórnia e no Oregon), outras de Touriga Nacional no Canadá. No Brasil, Anselmo Mendes tem Touriga Nacional, Alvarinho, Gouveio…

Adaptação e mentalidades
Pelo que atrás fica dito, fácil se torna perceber que a ta­refa de definir por onde andam, e que importância assu­mem, as castas portuguesas no panorama mundial é um pouco como solucionar um puzzle: unir as peças e com­por uma manta de retalhos. Há, no entanto, alguns dados que podem ajudar.

A uva portuguesa mais “universal” é a Touriga Nacional, que está presente em 12 países, Portugal incluído. É se­guida pela Verdelho (10 países), Touriga Franca (6), Alvari­nho (6) e Fernão Pires (4). “Penso que a Touriga Franca e a Tinta Barroca terão viajado mais, a Touriga Nacional é a casta da moda”, comenta Dirk Niepoort. Talvez só outra casta lusa esteja à altura dessa popularidade crescente: “O Alvarinho está a espalhar-se pelo mundo”, analisa Rita Marques, que enuncia vários países: “EUA, Austrália, Nova Zelândia…”

O país dos antípodas merece uma atenção especial. A imprensa neozelandesa fez eco, já este ano, do interesse crescente dos viticultores locais na casta Alvarinho (apre­sentada como espanhola, mas com a ressalva de quatro dos cinco clones utilizados serem oriundos de Portugal). A uva Alvarinho ocupa actualmente apenas 27 hectares no país, uma ninharia se comparada com os 21.400ha de Sauvignon Blanc, mas está a ser apontada como uma alternativa muito interessante, tanto em termos de viti­cultura (é mais resistente às doenças) como de percep­ção sensorial (a prova devolve uma menor sensação de acidez, acentuando a suavidade). Num cenário em que muita gente está a fazer experiências com novas varieda­des brancas (incluindo Gruner Veltliner, Viognier, Arneis e… Verdelho), o Alvarinho é apontado como o “new kid on the block” do vinho neozelandês.

Há apenas quatro castas portuguesas (se incluirmos o Al­varinho) aprovadas na Nova Zelândia – Alvarinho, Touriga Nacional, Viosinho e Verdelho –, a que se poderia ainda somar o Aragonez (referenciado assim, em separado da Tempranillo). Entre as principais potências da vitivinicul­tura mundial, a mais aberta às variedades lusas é a Aus­trália, que inclui 18 castas portuguesas entre as 235 auto­rizadas na sua lista nacional. O Brasil tem 13, a África do Sul 9, os EUA 8, a Argentina 7, a Espanha 6 (a que se jun­tam um sem-número de “traduções”, com castas ibéricas que assumem nomes diferentes de região para região…), a França 4 (e todas aprovadas recentemente). Em Itália, nem uma para amostra.

De vez em quando, há notícias de outros países que dão conta do interesse em uvas oriundas de Portugal. Dirk Niepoort lembra os pés de Baga enviados recentemente para a Suíça, por exemplo. “A bolha das castas portugue­sas está finalmente a rebentar”, analisa Domingos Soares Franco. Mas há um grande obstáculo à sua internaciona­lização massificada: não são, genericamente, variedades que permitam produções de grande volume.

“Não acredito que esta expansão possa dar grandes fru­tos, porque a tentação nos países do Novo Mundo é para puxarem as produções para níveis em que a qualidade fica comprometida”, explica o responsável pela enologia da José Maria da Fonseca. “Temos castas extraordiná­rias, mas não de grande produção. As excepções serão Fernão Pires, Moscatel de Setúbal ou Antão Vaz… quase todas as outras exigem domínio das técnicas de viticul­tura para se afirmarem com qualidade. Tem de ser com os nossos métodos e produções normais, no máximo 7/8 toneladas por hectare. Quando as puxam acima das dez toneladas elas falham.”

No Brasil, Anselmo Mendes faz outro diagnóstico para ex­plicar as dificuldades de afirmação das castas portuguesas: “É muito difícil vender tintos e brancos. O espumante é que dá.” Um ponto a favor do Gouveio, ligado ao nas­cimento de um espumante que se afirmou no mercado. Mas não é fácil… “A única casta que tem um compor­tamento mais ou menos razoável [Anselmo trabalha nas regiões da serra de Santa Catarina e da serra Sudeste] é a Touriga Nacional.”

 

Variedade e diversidade
Apesar destas limitações, um dado muito interessante é a popularização crescente de castas portuguesas que até há pouco estavam fora do radar mundial. Se em 2000 as variedades lusas compunham 6,8 por cento da lista de todas as uvas plantadas no mundo, essa representação mais do que duplicou numa década, para 15,4 por cento em 2010. A proporção da área de vinha ocupada por es­tas castas estabilizou nos tais três por cento, mas a paisa­gem enriqueceu-se. Num mundo em que as castas mais populares são cada vez mais dominantes (as 35 primeiras da lista valiam 59% em 2000 e já representavam 66% em 2010), Portugal é (mais uma vez) um caso à parte…

Os dados do estudo australiano mostram que em 2010, as cinco castas mais plantadas em Portugal ocupavam pouco mais de um terço (36%) da área de vinha nacional. E dados mais recentes do Instituto do Vinho e da Vinha (IVV) baixavam essa fasquia das mais populares (Arago­nez/Tinta Roriz, Touriga Franca, Castelão, Fernão Pires e Touriga Nacional) para 24,7%. Um contraste profundo com países como a China (97,4%), Nova Zelândia (86,9%), Chile (76,1%), Austrália (74,4%), Espanha (65%), África do Sul (61,9%), EUA (59,2%), Argentina (55,6%), Alemanha (51,2%) ou França (49,5%)… Neste pormenor, mais uma vez, só a Itália se equipara a Portugal, com 30,5 por cen­to da sua área de vinha ocupada pelas cinco castas mais populares.

O trabalho conjunto da ViniPortugal e da Porvid (Associa­ção Portuguesa para a Diversidade da Videira) na promo­ção das castas portuguesas (ver caixa) ganha ainda mais importância num momento em que muita gente encara com alguma preocupação a cada vez menor diversidade da vinha mundial… E Portugal tem muito para dar neste campo. Na lista da Universidade de Adelaide, é notório o desfasamento entre a riqueza ampelográfica e a populari­dade mundial das castas dos diferentes países: os 3,03% de Portugal estão repartidos por 196 variedades, uma pulverização de que só a Itália se aproxima (12,8% com 328 variedades). Compare-se com as duas grandes do­minadoras da paisagem vínica mundial: a França (35,76%) tem apenas 120 variedades na lista e a Espanha (26,06%) fica-se pelas 88. Se o mundo está à procura de diversida­de, bem pode olhar para Portugal com mais atenção.

A comparação de dados é quase impossível, por respei­tarem a anos diferentes e nem sempre terem em conta os diversos nomes que as castas assumem em diferentes regiões, mas há alguns dados interessantes quando olha­mos para os números nacionais disponibilizados pelo IVV (relativos à vinha em Portugal) e os que surgem no estu­do australiano. A Touriga Franca, por exemplo, é a casta portuguesa mais plantada no mundo, diz a Universidade de Adelaide, que fala de uma área total de 11.586ha no planeta (ver quadro). Mas os números mais recentes do IVV apontam para 15.407ha só em território nacional… Muita vinha foi plantada nos últimos anos e o cenário está sempre a evoluir.

Nesse aspecto, seja pela afirmação de qualidade dos seus vinhos, seja pela curiosidade crescente do público por no­vas variedades, seja pela influência das alterações climá­ticas, Portugal só pode esperar boas notícias. O mundo já começou a aprender a soletrar “Tou-ri-ga Na-cio-nal”, “Al-va-ri-nho” e outros nomes de castas que até há pouco tempo estavam arrumados na prateleira das curiosidades exóticas. Primeiro estranha-se, depois entranha-se.

António Graça, Porvid

“Portugal é o país que está a trabalhar melhor na conservação das suas castas”

António Graça, membro da direcção da Porvid, a As­sociação Portuguesa para a Diversidade da Videira, garante que “Portugal é o país que está a trabalhar melhor na conservação das suas castas”. E esse es­forço sustenta o crescente interesse internacional pelas variedades lusitanas, que ganham ainda mais protagonismo no cenário actual das alterações cli­máticas.

Faz sentido falar de castas portuguesas? As castas portuguesas são as castas ibéricas que existem maioritariamente em Portugal. Há oito grupos no mundo e um deles tem génese ibérica. Curiosamente, os estudos de DNA têm mostrado que, para lá do conhecido movimento de evolução das castas de Leste para Oeste na bacia mediterrâ­nica, também existiu um fluxo em sentido contrário.

Que implantação têm as variedades portugue­sas no mundo? As uvas portuguesas existem em muitos países, mas quase sempre em áreas pequenas. Verifica-se, no entanto, um crescente interesse pelas variedades nacionais, mesmo na Europa, onde as alterações cli­máticas abrem novos horizontes. A Porvid, em cola­boração com a ViniPortugal, tem feito um trabalho de divulgação das castas portuguesas, sobretudo num esforço de explicar o porquê de serem dife­rentes. Somos o país que está a trabalhar melhor na conservação das suas castas.

Como é que sustenta essa convicção? Em Pegões temos a maior colecção clonal do mun­do. No Pólo Experimental Central para a Conserva­ção da Variabilidade Genética das Videiras Autócto­nes [instalado em 140 hectares cuja gestão foi cedida pelo Estado à Porvid em 2010 por um prazo de 50 anos] temos cerca de 30.000 clones de 200 castas. São entre 100 e 200 clones por casta, que não estão apenas conservados: são estudados! E isso permite trabalhar em pesquisa, de forma a colocar nos pro­dutores os clones mais adaptados. No cenário das alterações climáticas, isso é fundamental.

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