Sabores

Cerveja artesanal: Criatividade e paixão

São já quase uma centena as marcas de cervejas criadas por pequenos produtores, dando corpo à categoria a que se convencionou chamar “cerveja artesanal”. Um nome apropriado, já que em cada copo destas cervejas está um pouco do empenho, da paixão e da capacidade de quem a produz.

TEXTO José Miguel Dentinho
FOTOS Ricardo Palma Veiga

Há quem diga, de uma cerveja artesanal, que são “10 minutos de prazer” ou a “felicidade pura num copo”. Outros salientam que é “autêntica”, um “arquétipo”, uma “bebida intelectual que deve ser saboreada e não ingerida avidamente”. São inúmeras as definições deste tipo de cerveja, apreciada nas celebrações do dia-a-dia e considerada, por muitos, como algo especial que torna os dias melhores.
Cada copo de cerveja artesanal, ou craft beer, em inglês, mostra a criatividade e a paixão de quem a produz e a complexidade dos seus ingredientes. Este tipo de cerveja é um tesouro para milhões de pessoas no mundo, que consideram que não se trata apenas de uma bebida fermentada, mas algo que deve ser apreciado com moderação, partilhado e reverenciado. Tem também a vantagem de ser versátil, pois melhora a experiência de uma refeição quando emparelhada com comida, e pode ser usada, na cozinha, como ingrediente de diversos pratos.
Nos últimos anos, o conceito de cerveja artesanal tem estado em debate, principalmente a partir do momento em que as grandes cervejeiras começaram a introduzir-se no setor, após décadas de concentração dos seus esforços a vender um só estilo para um leque alargado de consumidores.

A defesa do conceito
O movimento que tornou possível a ressurreição de estilos antigos de cerveja, e a criação de uma nova geração, através da investigação, em conjunto com os produtores de matérias-primas, de técnicas inovadoras de produção para acentuar ainda mais os aromas frescos e potentes do lúpulo e do malte, tratou de defender o seu trabalho denominando estes tipos e estilos de cerveja, inicialmente como de produção em microcervejarias e, mais tarde, como craft beers ou cervejas artesanais.
Mas esta última mudança pode ter sido uma falha técnica, porque microcervejarias é um conceito fácil, desde que se estabeleça a dimensão das unidades de produção. Mas o de cerveja artesanal dificilmente pode ser definido, nem serve para diferenciar uma cerveja de outra. No fundo, apenas significa o mesmo, que é produzido numa cervejeira geralmente de pequena dimensão, pois o conceito de artesanal não é propriedade de ninguém e não significa nada em particular a não ser isso.
Afinal, a maioria das cervejas artesanais não é produzida à mão nem mexida com uma colher de pau nas pequenas empresas do setor. A produção na maior parte destas também é automatizada. Nos casos em que isso não acontece, os seus proprietários terão de investir em tecnologia se as suas vendas crescerem, porque empregar mão-de-obra na produção é mais caro do que usar máquinas.

O que é uma cerveja artesanal?

Apesar de não haver uma definição precisa do que são cervejas artesanais, o que a palavra define é que são diferentes, únicas, e refletem o conceito de quem as produz.

De pequena dimensão
Pequenas unidades, isoladas ou integrando restaurantes e pubs, como acontece nos Estados Unidos, Grã-Bretanha, Alemanha, Bélgica e República Checa, e raramente em Portugal. Geralmente são apenas distribuídas local ou regionalmente.

Independentes
A maior parte das empresas que produz cervejas artesanais no mundo não pertence às grandes companhias do setor.

…e tradicionais
As suas cervejas apenas usam ingredientes tradicionais – água, malte de cevada ou outros cereais e lúpulo – na sua produção.

O importante é que seja boa
A cerveja artesanal pode ser produzida por qualquer pessoa ou empresa que tenha a capacidade e as aptidões técnicas para o fazer. O importante é que seja boa. E isso não está ao alcance de todos, porque não é tão fácil, como isso, conseguir fazer produtos de qualidade elevada.
O conceito de cerveja artesanal está a desenvolver-se pouco a pouco e ainda não está totalmente bem definido. Mas isso não é muito importante. O que é realmente interessante é que o setor cervejeiro está a disponibilizar, para o mercado, em Portugal e no resto do mundo, cada vez mais cervejas variadas, com sabores e aromas mais acentuados, frescos e diferenciados.
Não se trata apenas de uma revolução no setor da cerveja, mas sim de um movimento que abrange todo o conceito de tudo o que é “artesanal”. As redes sociais e a Internet estão a ajudar muitos consumidores a encontrar produtos diferenciados, e a informar-se, de forma independente da publicidade que nos chega todos os dias através da televisão, rádio, imprensa, etc…, sobre produtos inovadores que podem proporcionar experiências originais e diferentes. É nesta área que as cervejas da nova geração, ou as produzidas com base em receitas antigas, têm tido mais sucesso, abrindo um segmento de mercado premium que se tornou apetecível, para qualquer cervejeira, independentemente da sua dimensão.

Consumidores pouco fiéis
Grandes grupos do sector investiram na aquisição de algumas pequenas unidades de produção da nova geração que souberam consolidar a sua posição no mercado. Por aqui, a Unicer criou o que a empresa designa como mini-oficina de cerveja artesanal, para produzir as suas 1920. A Central de Cervejas, por seu turno, fundou a Hoppy House Brewing, empresa dedicada à produção e comercialização de cervejas artesanais em Portugal, que relançou as marcas tradicionais de Coimbra, Topázio e Onyx, em parceria com a Praxis, microcervejeira desta cidade e, mais recentemente, lançou a marca portuense Loba, com a Post Scriptum Brewery, em três variedades: Loba Session IPA, Loba Rye Red Ale e Loba Oat Pale Ale.
Mas não é fácil dominar uma área na qual as pessoas procuram coisas especiais, até porque é um sector em que os consumidores são pouco fiéis a marcas particulares. O que querem é experimentar cervejas novas, diferentes, organizando sessões de provas comparativas, sós ou com amigos, e partilhando as suas experiências nas redes sociais.
Actualmente as grandes cervejeiras estão a usar técnicas diferenciadas para comercializar as suas marcas da nova geração, tanto as das unidades que adquiriram como das que começaram a produzir nas suas fábricas. Isso torna o futuro aliciante, já que haverá mais marcas para experimentar no mercado, que poderão cativar, ou não, os consumidores.

Como seria expectável, os produtores de cerveja artesanal, liderados pelos seus mestres cervejeiros, manterão a liberdade para alterar as suas receitas e apresentá-las aos consumidores potenciais. Serão estes os principais beneficiados do alargamento da oferta de cervejas.
Muito ainda se vai passar neste mercado, tanto em termos mundiais como em Portugal, onde existem atualmente mais de 100 marcas de cervejas artesanais, principalmente locais ou regionais, algumas de empresas vitivinícolas, já que este sector começa a mostrar também algum interesse pela bebida.
A primeira empresa desta área a lançar uma cerveja foi a Quinta do Gradil, com a marca Xana, em 2016. No ano seguinte foi a vez da Quinta de La Rosa, que já lançou uma IPA e uma Lager e prepara-se para apresentar uma Stout no final do verão. Também em 2017, a Quinta do Portal, em parceria com a minhota Letra, lançou uma Dark Ale envelhecida em barris de Vinho do Porto. A mesma Letra apoiou-se no conhecido enólogo Anselmo Mendes para lançar uma Grape Ale, aromatizada com mosto de Loureiro, Avesso e Alvarinho. Outro produtor de referência, Dirk Niepoort apresentou a sua própria cerveja, a Grande Birra. Este ano foi a vez do Esporão, que adquiriu a maior empresa do sector das cervejas artesanais, a Sovina, com sede no Porto. É um futuro aliciante, que vale a pena assistir e viver, neste universo único que é o da cerveja.

Edição Nº16, Agosto 2018

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