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Cinco escapadinhas que sabem tão bem

By 21 Dezembro, 2018 Sem comentários

Se o leitor é daqueles que escolhe o destino das férias com o estômago, este artigo é para si. Estes são alguns dos destinos mais saborosos do país, para ir de fim-de-semana ou mesmo só passar um dia.

TEXTO Ricardo Dias Felner

Olhão

Só o Mercado de Olhão vale a viagem. Mesmo à beira da ria, estão dois edifícios do início do século XX cheios de coisas extraordinárias. Um deles tem das mais ricas bancas de peixe do país, com algumas espécies raras, como o peixe aranha ou o litão (da família do tubarão, bom para feijoada), e especialidades como a barriga de albacora ou de atum-rabilho. Vá ao sábado de manhã, quando os produtores do concelho vendem no exterior todo o tipo de produtos autóctones, das malaguetas aos figos, da papaia algarvia às compotas, passando por ervas aromáticas e azeitonas de várias curas.

Nas mesas de Olhão em redor do mercado, não perca a tasca Vai e Volta, com a raia alhada e os biqueirões albardados, ou a Casa de Pasto, com cataplanas e lulinhas fritas. Na zona, vale a pena ir em direcção a Tavira para comer polvo ou estupeta de atum no restaurante O Chico, em Santa Luzia. Ali ao lado, no Livramento, visite a produção de ostras de topo do Moinho dos Ilhéus e acabe a almoçar na Marisqueira Fialho (obrigatório o peixe-rei frito) ou na Noélia & Jerónimo, em Cabanas (marque com muita antecedência).

Mértola e Alcoutim

Mértola é uma vila encantadora, com muitas atracções culturais (obrigatórias as Minas de São Domingos), mas a cozinha e o produto da região também são verdadeiros tesouros. Por todo o lado há pequenas queijarias, quase todas a trabalhar com leite de ovelha e de cabra, bons enchidos e boa carne de porco, as sopas alentejanas (de cação, bacalhau, etc.) ou o bom pão de São Miguel do Pinheiro e de Boizões, ali ao lado. Algumas destas iguarias vai encontrar nos restaurantes locais, como o Tamuje, o Brasileira e A Paragem. Se tiver tempo, desça ao concelho vizinho de Alcoutim.

No primeiro fim-de-semana de cada mês, na povoação de Altoito, há feira de produtores locais, entre eles os de excelente queijo de cabra algarvia (uma raridade que não encontra em Lisboa), mas também de legumes biológicos, e coze-se pão in loco pelas mãos de dona Hortense, antiga padeira. Procure nos restaurantes locais a canja de perdiz e os ensopados de borrego e de enguias, pescadas mesmo ali ao lado no Guadiana.

Estremoz

Fica a pouco mais de uma hora e meia de Lisboa, com auto-estrada mesmo em cima da cidade, e tem vindo a afirmar-se como uma alternativa gastronómica a Évora, inflacionada de turistas e preços. Ao sábado há o mercado tradicional no Rossio, com animais vivos, hortícolas, enchidos, queijarias (procure a Queijaria do Carlos e aguente a fila). Alguns vendedores nem banca têm, mas não os despreze, pelo menos aquela senhora que vende ovos de galinhas saudáveis. A menos de 300 metros daqui, tem dois restaurantes bem bons, ambos já com toques de chef, mas onde se pode só petiscar e beber um copo.

O restaurante Alecrim tem vista para o mercado e a Mercearia Gadanha, premiada por esta revista em 2017, fica no largo do Gadanha. Os dois restaurantes têm vinhos de produtores locais, como Tiago Cabaço, ou os Dona Maria, cuja adega, magnífica, tem visitas guiadas aos fins-de-semana.

Porto

Tornou-se um lugar comum falar no Porto como destino turístico. Mas a capital do Norte continua a revitalizar-se, conseguindo um compromisso único entre tradição e modernidade. Em nenhuma outra cidade portuguesa se consegue, num espaço tão pequeno, ter os melhores pratos de cozinha tradicional portuguesa lado-a-lado com os fine-dining mais sofisticados — e isto a preços abaixo da tabela de capital europeia, onde Lisboa já entra. Um pretexto para a viagem pode ser a renovação do Mercado do Bolhão ou uma reserva no Euskalduna, um dos restaurantes de alta cozinha (de vanguarda) mais badalados no ano passado.

Mas não perca também a nova leva de restaurantes de cozinha moderna em ambiente informal, como o Mito ou o Almeja. De resto, absolutamente imperdíveis continuam as francesinhas do Santiago, as sandes de pernil da Casa Guedes e os cachorrinhos da Gazela.

Chaves

Trás-os-Montes é porventura a região de Portugal onde descobrimos mais produto e receituário tradicional. No triângulo de ouro dos enchidos que liga Montalegre, Chaves e Vinhais, está algum do fumeiro mais exclusivo do país, pequenas ou pequeníssimas produções, feitas artesanalmente e que não são vendidas em mais lado nenhum. O bicho-rei é o porco bísaro, com Denominação de Origem Protegida, mais delgado do que o porco branco que abunda por aí. Boa parte destes animais são alimentados com as sobras da horta e isso nota-se na carne, que faz um presunto distinto, bem como linguiças ou a distinta chouriça da cabaça, recheada de faceira, cachaço, abóbora e cebola.

Algumas deles entram no famoso folar de Chaves, que pode comprar no não mesmo famoso João Padeiro – O Rei dos Folares. Outra iguaria é, naturalmente, o pastel de Chaves, e a casa onde ir bater é a maravilhosa Pastelaria Maria, com mais de 45 anos de actividade. Para refeições completas, a Adega do Faustino continua a ser a referência da cozinha regional. Em vindo de carro para Sul, dê um salto à vila de Vidago, onde encontra uma água mineral magnífica que pode ser bebida da nascente.

 

 

Edição Nº15, Julho 2018

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