Editorial da edição nrº 110 (Junho de 2026)
Com a aproximação do verão, procuram-se vinhos mais leves: brancos, rosés, espumantes e tintos delicados. A frescura torna-se a palavra do dia, assim como tudo o que lhe está associado – vivacidade, tensão, suculência, acidez. E talvez nunca se tenha falado tanto de acidez como hoje.
Uma vez, numa feira de vinhos num país estrangeiro, troquei ideias com um sommelier que estava a provar ao meu lado. Questionada sobre o que achei de um monovarietal de Vermentino, respondi-lhe que tinha gostado, encontrando-o bastante equilibrado em termos de aroma, corpo e frescura. Seguiu-se um comentário “é porque tu não gostas de acidez tanto como eu”. Não é, porém, uma questão de gosto. A acidez não existe isoladamente, mas sim, como parte integrante e fundamental na matriz de um vinho. Será que vale a pena elevá-la ao culto?
Tal como na moda, as tendências no mundo do vinho funcionam como um pêndulo que oscila entre extremos. As calças skinny e as silhuetas justas são substituídas por modelos largos e oversize. No vinho, o movimento é semelhante: o que esteve em voga torna-se démodé, e vice-versa, desvaloriza-se aquilo que antes era o padrão a seguir.
Durante décadas, o prestígio no vinho esteve frequentemente associado à maturidade da fruta, ao volume de boca e à riqueza aromática e gustativa. Nos anos 90 e início dos anos 2000, muitas das referências mais reconhecidas internacionalmente procuravam concentração, extração, álcool elevado, textura densa e forte presença de barrica. Ainda há poucos anos, a acidez não tinha o protagonismo que hoje lhe é atribuído. Numa conversa recente, um produtor contou-me que, quando lançou os seus primeiros vinhos no Alentejo, em 2013, foi apelidado de “água com ácido” por apresentar vinhos menos frutados e com acidez elevada.
Hoje, o paradigma alterou-se. As vindimas anteciparam-se; a amplitude térmica, a altitude e a influência marítima passaram a dominar o discurso do vinho. É aqui que a acidez, lida como frescura, subiu ao palco, proclamando autenticidade, precisão e qualidade. O vocabulário vínico ganhou descritores como “nervo”, “tensão”, “energia” e “verticalidade”. E esta mudança não é apenas enológica, mas também psicológica, amplificada por críticos e sommeliers, o que, por si só, não é um problema.
A acidez é, de facto, um componente estruturante do vinho, sobretudo nos brancos. Para além de conferir frescura e de facilitar a harmonização gastronómica, uma acidez mais elevada, associada a um pH mais baixo, contribui para uma boa evolução em garrafa. Quem participou em provas verticais de Loureiros ou Alvarinhos, ou provou brancos e tintos antigos de Colares, do Dão ou da Bairrada, percebe do que estou a falar.
Mas quando a busca pela frescura se torna uma obsessão e as uvas submaduras são colocadas no altar da acidez, surgem vinhos magros, acídulos, com notas verdes e uma tensão que lembra fios descarnados. Costumo dizer que a acidez é uma grande virtude do vinho, mas quando é a única, este torna-se monocórdico, demasiado vertical, frio e metálico – como um varão sem dançarina à volta; falta-lhe corpo, dimensão estética e complexidade emocional.
Por isso, e voltando à questão inicial, reforço que gosto da acidez, mas não quando fica sozinha em palco. V.Z.





