Num espaço carregado de memórias, que vão desde o acolhimento de refugiados em transição para as Américas durante a última Grande Guerra, dolorosas partidas de soldados para a Guerra Colonial e, mais recentemente, palco de eventos culturais, corporativos e de moda, o edifício projectado pelo arquitecto Porfírio Pardal Monteiro continua a impressionar pelos seus traços modernistas e uma linguagem estética entre a Arte Déco e o Monumentalismo da primeira metade do século XX.
O Grupo Visabeira, que tomou conta do espaço, percebeu a jóia que tinha em mãos e teve em conta o enquadramento, e a história do espaço. A inspirada decoração do restaurante, recentemente inaugurado, respeita esse legado e remete para um diálogo vivo entre o passado e o presente. A preocupação com o conforto do cliente, as cadeiras ergonómicas, o jogo entre a luz que vem de fora filtrada pelos vetustos vitrais e a que é espalhada pelo impressionante candeeiro de bolas suspenso sobre a sala, e o bar à vista em forma de onda, contribuem para uma sensação de bem-estar, que convida ao prolongamento da estadia.
A bem dizer, este convite começa bem antes da refeição, porque o espaço é um verdadeiro dois em um. A entrada no restaurante faz-se pela esplanada debruçada sobre o cais de Alcântara e onde a Martini foi desafiada a reconstruir a sua conhecida Terrazza, que já teve outros poisos em Lisboa. Com cerca de 100 lugares, é o local ideal para experimentar um cocktail no fim da tarde, um aperitivo antes da refeição, uns pregos ou uns snacks. Por isso, o Gare Restaurant e a Terrazza Martini funcionam em conjunto.
No que à refeição diz respeito, o Gare não dispensou a consultoria do conhecido restaurante Casa Arouquesa, em Viseu, propriedade do mesmo grupo, do qual copiou o estilo e a ementa (um pouco curta), baseada nas carnes e nos vinhos da também sua Casa de Ínsua, no Dão. Para os almoços, está disponível um menu executivo (€20) composto por entrada e prato principal ou prato e sobremesa. Ao jantar, as refeições têm naturalmente outro ritmo e é aí que podemos explorar com mais profundidade a cozinha do Gare.
Podemos começar, por exemplo, por uns Croquetes de Vitela (€7,90/5 unidades), com redução de vinhos branco, suculentos no interior e crocantes por fora, ou o Carpaccio de Vitela com mostarda antiga, rúcula e parmesão, fresca e bem temperada. Nas entradas, ainda provámos com prazer uma Burrata com Carpaccio de tomate, pesto, rúcula e flor de sal. Como pratos principais, entramos no domínio das carnes, já que a oferta de produtos do mar e vegetariana é exígua, à excepção do Bacalhau à Arouquesa, do Camarão Tigre e do Risotto de Cogumelos, e pouco mais. Como especialidades são anunciados o Bife da Alcatra (€26,90), Bife da Vazia (€28,90), Bife do Lombo (€35) e Costelão (€57 Kg). Todos grelhados, servidos fatiados e com batata frita e arroz branco. Garantida a qualidade da carne, atestada pela origem da raça Arouquesa e acertando o ponto de cozedura de acordo com o pedido do cliente, não haverá, por certo, margem para errar. O mesmo não se passa com dois best sellers do restaurante de Viseu e que aqui se repetem como pratos de assinatura: a clássica Vitela Assada no forno (€27,50/1 pessoa; €44,50/2 pessoas), com batata assada, e o Filé à Jefferson (€33), corte do lombo com molho trufado e acompanhado por Tagliatelle com queijo Grana Padano ralado e natas. Aqui, onde se nota um maior labor da cozinha, as expectativas não saem defraudadas e a combinação resulta saborosa, embora um pouco pesada no último caso. A lista de sobremesas é extensa e variada e assegura um final doce para uma refeição que dificilmente ficará por menos de meia centena de euros.
Gare Restaurant & Terrazza Martini
Gare Marítima de Alcântara, Lisboa
Tel.: 967 505 320
Horário: de Terça a Quinta-feira, das 11h00 às 23h00, Sexta-feira e Sábado, até à 01h00, e ao Domingo, até às 18h00
Encerra: Segunda-feira
Preço médio: €45





