Há semelhanças a apontar entre a medicina e a produção de vinho? É possível conciliar a prática clínica com os ciclos da vinha? Em que medida o dia a dia de um médico influencia a forma como trata as suas uvas? Quão similar é o cuidado que põe em prática no âmbito da sua especialidade e o trabalho efetuado na adega? É um negócio autossustentável? Estas e outras perguntas foram feitas a médicos que complementam a prática clínica com a atividade vitivinícola. Outros há que se entregaram inteiramente à vinha e à produção vínica.
Entre as respostas, a capacidade de observação e o rigor são palavras-chave, para poder atuar com consistência e consciência na vinha. Acresce a higienização, tema preponderante no contexto da adega, e o fator tempo, primordial face à melhoria de um paciente e, por outro lado, à gestão da vinha, indissociável aos contratempos associados ao clima e aos ciclos da natureza, bem como, e como não poderia deixar de ser, à evolução do vinho.
No entanto, há quem se afaste da postura de médico, para encarar com serenidade as contradições intrínsecas à de um produtor, seja a viticultura a sequência de um legado traduzido numa ode aos antepassados, seja o resultado de uma paixão despertada e transformada em realidade.
Vamos conhecer António José Rodrigues, da Quinta do Mascanho (Vinhos Verdes), Jorge Tenreiro, da Quinta do Cume (Douro), António Canto Moniz, da Quinta da Leira (Dão), Manuela Carmona, da Adega 23 (Beira Interior), Lúcia e Américo Ferraz, da Souvall (Beira Interior), José Madeira Afonso, do projeto Casas Altas (Beira Interior), e Nuno Monteiro Pereira, da Quinta do Cerrado da Porta (Lisboa).
António José Rodrigues
Médico de ortopedia e produtor-engarrafador
Alvarinho é a casta eleita em exclusivo pela Ceivinhas, a sociedade vitivinícola familiar de António José Rodrigues, cuja especialidade em ortopedia foi exercida em regime de exclusividade no Serviço Público. A casta ocupa quatro hectares de vinha distribuídos por duas propriedades. Uma está localizada no lugar da Valinha, na freguesia de Ceivães, concelho de Monção, e a outra no lugar de Mascanho, freguesia de Vila e Roussas, no concelho de Melgaço. “80% das parcelas sempre pertenceram à família, tendo sido uma pequena parte, entretanto, adquirida” e “os vinhos são comercializados sob a marca Quinta do Mascanho”.
A cultura da vinha e do vinho é a atividade complementar à carreira de médico de António José Rodrigues, desde 1994. O ano coincide com o término da formação da especialidade e o regresso ao meio rural, às origens. Com esta mudança, adquire casa de família no lugar da Valinha, onde reside, e terrenos de produção de cereais e vinhas. “Com incentivo financeiro existente para reconversão de vinhas, foi efetuado o projeto de plantação de acordo com as boas práticas”, dando continuidade ao cultivo da vinha, “que vem das gerações anteriores, devidamente adaptado aos novos tempos”, explica. A comercialização dos vinhos começou em 1997 e, em 2015, acrescenta o espumante feito a partir da casta Alvarinho ao portefólio vínico Quinta do Mascanho.
“Ser médico é cuidar da vida. Ser produtor de vinho é cuidar da terra”
“Ser médico é cuidar da vida. Ser produtor de vinho é cuidar da terra.” Ambas as missões permitem o encontro do “equilíbrio entre a ciência e a tradição, entre o rigor da medicina e a arte da vitivinicultura”. E acrescenta: “produzir vinho é muito mais do que elaborar uma bebida. É preservar uma herança, valorizar o território e criar momentos de partilha à volta de uma mesa.” É, no fundo, uma enorme paixão de António José Rodrigues.
Paralelamente, o ortopedista e produtor de vinho faz a analogia do reconhecimento atribuído pelos pacientes no que às cirurgias e aos tratamentos efetuados diz respeito com a qualidade dos vinhos que produz. E o tempo é factor preponderante nas duas profissões, ou não fosse este primordial na melhoria dos pacientes e, por outro lado, necessário para o afinamento dos vinhos. “A produção do vinho é autossustentável. Evidentemente que só por si os proveitos não seriam dignos para viver”, remata.
Jorge Tenreiro
Cirurgião vascular e produtor de vinho
Da juventude, recorda o gosto pelo mundo rural, em particular pela vinha e pelas pessoas do Douro, das férias passadas numa propriedade familiar da referida região vinhateira, cuja venda deixou saudades. Anos mais tarde, concretizou o sonho de adquirir uma propriedade duriense, com cerca de três hectares, localizada no cume de Provesende, freguesia pertencente ao concelho de Sabrosa, “um terreno que muitos consideravam improvável para produzir grandes vinhos”. Um desafio, que, com o apoio da mulher, Claudia Cudell, deu início à Quinta do Cume, no final da década de 90 do século passado.
Com a passagem do tempo, adquire parcelas vizinhas, privilegiando sempre as vinhas em altitude e com diferentes exposições. Objectivo? “Construir um património vitícola diversificado e representativo do Douro”, esclarece. Atualmente, a área total da propriedade é de 25 hectares, dos quais 15 são de vinha. Rabigato, Gouveio, Viosinho e Malvasia Fina são as castas brancas em destaque. Estão plantadas em maior altitude, factor que proporciona “excelentes condições para produzir vinhos de grande frescura, precisão e longevidade”, descreve Jorge Tenreiro. Nas cotas mais baixas, estão as tintas, com especial evidência para Touriga Franca, Touriga Nacional, Tinta Roriz e Alicante Bouschet, pois é aí que “expressam muito bem a identidade do Douro elegante, quando trabalhadas com equilíbrio”, acrescenta.
A Quinta do Cume “é um projeto economicamente sustentável”, graças ao investimento efetuado no princípio, “muito antes de existirem resultados”. A par com paciência, persistência e visão de futuro, conta, desde sempre, com Claudia Cudell, responsável pela área comercial e “pela notoriedade que a Quinta do Cume tem vindo a ganhar, tanto no mercado nacional, como no internacional”.
“A medicina permite-me cuidar das pessoas. O vinho permite-me criar algo que reúne pessoas à mesa”
No entanto, a medicina permanece como a profissão principal, sendo a produção de vinho um complemento da realização pessoal de Jorge Tenreiro. Apesar das “devidas diferenças, há uma enorme responsabilidade”, avança, pois “tanto um doente como uma vinha dependem de escolhas feitas no momento certo”. Organização e uma equipa competente são vetores cruciais a considerar em ambos os casos. Afinal, “a vinha exige acompanhamento permanente, mas também exige o estímulo e a confiança nas pessoas que trabalham diariamente no terreno”, afirma Jorge Tenreiro, que faz questão de marcar presença nas vindimas, “mas o sucesso resulta sempre de um trabalho coletivo”, enaltece.
Persistência, disciplina, rigor e capacidade de observação são os princípios apreendidos no âmbito da medicina e aplicados na viticultura. “Na vinha, tal como na medicina, muitas vezes, a melhor intervenção consiste apenas em acompanhar atentamente a evolução natural e intervir quando é realmente necessário”, elucida. Na cirurgia vascular, tal como na adega, “a precisão faz toda a diferença”. Neste contexto, Jorge Tenreiro refere “o momento da colheita, a temperatura da fermentação, o tempo de estágio ou a seleção dos lotes”. Aliás, o tempo é determinante, seja na melhoria de um doente, seja na evolução de um vinho, assim como o acompanhamento e o ato de proporcionar as “condições certas, para atingir o seu melhor potencial”, embora no caso do paciente, a recuperação seja idealmente atingida o mais rapidamente possível, enquanto no vinho a evolução é lenta, quando se pretende que ganhe complexidade ao longo dos anos.
Em suma, “a medicina permite-me cuidar das pessoas. O vinho permite-me criar algo que reúne pessoas à mesa, celebra momentos especiais e transmite a identidade de um território. São formas diferentes de contribuir para a qualidade de vida”.
António Canto Moniz
Médico cirurgião oncológico e produtor de vinho
Quinta da Leira é o nome da propriedade de António Canto Moniz. Está localizada na freguesia de São João de Lourosa e estende-se para Silgueiros, no concelho de Viseu, pertencente ao território vinhateiro do Dão. A área total de vinha, com exposição norte-nascente, ronda os dez hectares. Aqui, prevalecem as castas tradicionais. “Touriga Nacional, Alfrocheiro Preto e Jaen, que são as três castas clássicas do Dão, e Tinta Roriz”, afirma. Nas brancas, constam a Encruzado, a Malvasia Fina e a Gouveio.
“A designação Quinta da Leira já é muito antiga. Vem do tempo do meu trisavô, um senhor que também se dedicou à vinha e a fazer vinho”, descreve António Canto Moniz, que refere a cultura da vinha e do vinho como dominante no passado, na região. No seguimento da história da família, a propriedade passa para o avô, Silvério Abranches, deputado na I República e o primeiro presidente eleito da Federação dos Viticultores do Dão, e, mais tarde, para a mãe, Maria da Paz Othon. Porém, é o pai de António Canto Moniz, igualmente médico cirurgião e com o mesmo nome, quem continua o legado da vinha e do vinho, tendo assumido ainda a função de presidente de uma adega cooperativa. “O meu pai fazia vinho cientificamente. Tinha tudo na adega para calcular a acidez, para calcular tudo. Apesar de não ser um analista, estudou o assunto. Aprendi a fazer vinho com o meu pai”, revela. Por conseguinte, “a história de eu, como médico, fazer vinho, é muito simples: segui a tradição dos donos das terras, que, ou continuavam ou as vendiam”, afirma. “Conheci muitos médicos filhos de antigos agricultores, porque havia uma certa tradição nos agricultores ter um filho médico, doutor. Isto no século XX”, afiança. Portanto, “ser médico e fazer vinho é mais uma relação do que se herda”, resume, assumindo que “não há relação entre medicina e entre ser vinhateiro. Tenho amor à terra, à tradição”.
Quando António Canto Moniz passa a tomar conta da Quinta da Leira, preserva a venda a granel, pois “era mais simples do que o engarrafar”. Contudo, houve quem convencesse o médico cirurgião oncológico a dispor o vinho em garrafa. Miguel Viegas Louro, proprietário da Quinta do Mouro e produtor de vinho, em Estremoz, “foi um dos que me convenceu a fazer vinho” em nome próprio “e começamos a usar barricas, que não se usavam no Dão”. Com este passo, em 2002 surge o primeiro Vinha Paz, em homenagem à mãe do produtor – o rótulo Vinha Othon está igualmente neste alinhamento.
“Fazer vinho não é muito difícil. É preciso ter boas cepas no local certo e isso já as tinha eu”
Contudo, a carreira de cirurgião oncológico permanece como atividade principal de António Canto Moniz, um dos fundadores do IPO do Porto e, posteriormente, médico do Hospital da Prelada, no Porto. “Como médico trabalhava 12 horas por dia e ainda tinha funções associativas na direção da Ordem dos Médicos, e o governo requisitava-me para entidade reguladora da saúde.” Como tinha tempo para tudo isto? “Ao fim de semana lá ia eu para Viseu, mas a cultura do vinho não era tão difícil. Hoje, sim, porque há falta de pessoal, e como não utilizamos herbicidas, mais complicado é. Mas quando se quer, consegue-se.” Além disso, “fazer vinho não é muito difícil. É preciso ter boas cepas no local certo e isso já as tinha eu”, sublinha.
No alinhamento da passagem de testemunho entre gerações, numa sociedade constituída com os filhos, a meio da primeira década do século XXI, entrega a pasta a Henrique Canto Moniz, que “há, mais ou menos, 15 anos passou a tomar conta do negócio”, isto é, assume o cargo de gerente. “Agora, é o meu filho que trata de tudo”, contando com o apoio de João Paulo Gouveia, na viticultura, e de Carlos Silva, na enologia. É ainda responsável pela exportação para a América, Suíça, Bélgica, Noruega, países nomeados por António Canto Moniz, que considera o negócio do vinho autossustentável, “na medida em que dá emprego ao meu filho e concretiza dinheiro que se reinveste na vinha”.
Em suma, ser produtor de vinho tem a ver com “uma certa devoção à minha infância”, declara António Canto Moniz, recordando-se que em setembro, ia para a quinta, por ser a época das colheitas. “E na altura da vindima também, enquanto o mês de agosto era passado na praia. Lembro-me do meu pai fazer a vindima em outubro. Eu também fiz vindima em outubro, mas agora é tudo muito mais precoce.” Nas palavras do médico cirurgião oncológico, esta mudança deve-se às alterações climáticas. E face à atual crise no vinho? “Nós cá vamos aguentando.”
Manuela Carmona
Médica oftalmologista e produtora de vinho
A proximidade de uma autoestrada, a A23 é o mote para o nome da casa produtora de vinhos de Manuela Carmona, a Adega 23. Está localizada no limite dos concelhos de Castelo Branco e de Vila Velha de Ródão, e a inauguração acontece em 2018. Mas a ligação à região vitivinícola da Beira Interior remonta ao seu nascimento, sendo Manuela Carmona natural de Castelo Branco, onde viveu até concluir o liceu. Apesar da formação em medicina acontecer em Lisboa, com os anos acaba por conquistar uma relação permanente com as suas origens, mediante as quais o vinho é feito apenas para consumo próprio.
Portanto, a paixão pela cultura do vinho surge anos mais tarde, após ter recebido Le Grand Larousse du Vin. Com tempo e dedicação, o gosto por este produto evoluiu para o desenvolvimento do projeto Adega 23, em 2013. Em 2015, são plantadas as primeiras vinhas e, dois anos depois, são lançadas as primeiras colheitas. Inicialmente, o negócio do vinho teve a medicina como pilar no contexto financeiro. “Hoje, está equilibrado e autossustentavel”, assegura.
“Provar os vinhos das cubas e analisar a sua evolução é um fantástico exercício para estimular os sentidos e a memória”
“É como viver intensamente várias vidas numa só. Uma forma de descansar de uma profissão com uma atividade diferente. É salutar e refrescante”, começa por explicar Manuela Carmona a forma como vivencia os dois mundos, o da medicina com o do vinho. Ainda a respeito deste último, faz questão de salientar a eficácia desta cultura: “andar no campo pelo meio da vinha, aceitar a natureza e o seu tempo é retemperador. Provar os vinhos das cubas e analisar a sua evolução é um fantástico exercício para estimular os sentidos e a memória.”
Para a médica oftalmologista, tanto a medicina como a vitivinicultura “existem a pensar nas pessoas”. A primeira incita “a resolver problemas, encontrar soluções e decidir rapidamente, e, muitas vezes, sob pressão”, argumenta, acrescentando a viabilidade dessa aprendizagem, a qual lhe permite encarar os problemas na vinha e na adega. De uma forma geral, “são duas áreas desafiantes”, na medida em que exigem rigor e atenção a cada pormenor. Contudo, “não há dois doentes iguais nem duas vindimas iguais”, o que obriga Manuela Carmona a conviver com a imprevisibilidade e a diversidade.
Por outro lado, enquanto médica, destaca o rigor, a segurança e a rapidez face a cada diagnóstico, destacando o valor da saúde, pois “o erro tem consequências” e a perda “pode ser devastadora”. Este comportamento repete-se frente aos imprevistos na vinha e na adega, mas Manuela Carmona prefere encarar estas contrariedades de forma serena.
O desvelo na adega é comparável com o que põe em prática no âmbito da especialidade, em particular no bloco operatório. Organização, rigor e higiene estão no topo da lista das exigências estabelecidas em ambos os casos, pois “a saúde depende muito do que fazemos – alimentação, estilo de vida, hábitos”. Por conseguinte, o trabalho de campo é proporcionalmente primordial para a qualidade do vinho, ou não fossem necessários ter “vinha saudável, boas uvas, vindima manual e no momento certo”.
Em jeito de conclusão, Manuela Carmona fala sobre o papel do vinho em várias áreas, ao longo de milénios, bem como na atualidade: “na medicina foi desinfetante, anestésico, analgésico, anti depressivo. Na oftalmologia , as propriedades antioxidantes recomendam-no para prevenir o envelhecimento da retina.”
José Madeira Afonso
Médico radiologista e produtor de vinho
Casas Altas é nome indissociável a José Madeira Afonso. Natural de Coimbra, passa muitas das férias de verão ao Souropires, no concelho e sub-região de Pinhel, distrito da Guarda, pertencente ao território vinhateiro da Beira Interior, onde mantém a casa de família, onde, em tempos idos, viveu a avó materna, e as propriedades da família.
A formação em medicina ocorre na cidade natal e em Lisboa, mas primeiramente estudou na Escola de Regentes Agrícolas de Coimbra e de Santarém. Com o canudo na mão, vive e exerce medicina na Noruega, tendo sido a Escandinávia o ponto de partida para o gosto pelo vinho. O primeiro vinho produzido data de 1994; é feito a partir de uvas vindimadas na propriedade da família, então na posse do pai.
A sustentabilidade financeira do negócio do vinho é visto “com muita dificuldade. A jardinagem é um luxo que não sei se será possível sustentar”
Dos solos graníticos e às grandes amplitudes térmicas, José Madeira Afonso tira os proveitos, para dar primazia às castas regionais – Fonte Cal, Síria, Verdelho e Malvasia, nas brancas; Rufete, Baga e Touriga Nacional, nas tintas –, pois estão mais adaptadas e “são as que dão menos problema”. A estas, junta variedades d’além-fronteiras: Chardonnay e Riesling. Ainda acerca da vitivinicultura, não considera esta missão um complemento ou uma alternativa à medicina. “É, antes, a procura do ‘paraíso’ na terra, criando o local paradisíaco, as vinhas” e “uma fuga ao quotidiano”. Finda a atividade médica há cerca de cinco anos, a vitivinicultura passa a ser uma missão “a tempo inteiro”, tarefa apaixonante, com destaque para a origem das uvas, o estado de maturação, o processo de fermentação, entre outras etapas de cada processo na vinha e na adega. No entanto, “na vinha e na adega não sou médico, sou viticultor”, embora haja necessidade de “diagnosticar os problemas ou doenças em tempo útil, e tratar de forma adequada, sobretudo sem causar mais mal”, afirma. E tal como na medicina, “a adega também exige calma, reflexão e muita higiene”. Quanto à evolução de um vinho, “é preciso ter condições” para melhorar com o tempo.
Porém, a sustentabilidade financeira do negócio do vinho é visto “com muita dificuldade. A jardinagem é um luxo que não sei se será possível sustentar. Claro, que este problema não é só dos médicos”, remata.
Lúcia e Américo Ferraz
Médicos dentistas e produtores de vinho
A história começa com Álvaro Ferraz e Maria Fernanda Ferraz, pais de Américo Ferraz, e as suas vinhas em Vale Flor, na União das Freguesias de Vale Flor, Carvalhal e Pai Penela, concelho de Mêda, distrito da Guarda e integradas na região vitivinícola da Beira Interior. Esta profunda ligação à terra, à vinha e ao vinho é “familiar, emocional e identitária” e “representa uma herança feita de terra, trabalho, memórias e valores”, descreve Lúcia Ferraz. Por outro lado, “a produção de vinho é uma atividade real, exigente e com responsabilidades muito concretas”.
Com precisão, dedicação, responsabilidade e atenção ao detalhe, o casal Lúcia e Américo Ferraz decide “dar uma nova dimensão a essa herança” através da construção de uma adega moderna e da criação das condições necessárias, para desenvolver um projeto vitivinícola centrado na produção de vinhos “com maior rigor, consistência e identidade”.
Porém, a medicina dentária permanece no epicentro da atividade profissional de ambos: “não se tratou de abandonar a medicina dentária, mas de fazer coexistir duas vocações: cuidar de pessoas e cuidar de um património familiar e agrícola.” Mesmo assim, Lúcia Ferraz anuncia a existência de mais semelhanças entre ambas as profissões, com a condição de “observar, interpretar, prevenir e intervir no momento certo”. Isto é, “um médico não pode olhar apenas para um sintoma isolado; tem de compreender a pessoa no seu todo”. Na vinha, também é fundamental conhecer o todo: “o solo, o clima, a exposição solar, o comportamento de cada casta e a evolução de cada parcela ao longo do ciclo vegetativo.” Lúcia Ferraz enfatiza o conhecimento científico, a experiência e a capacidade de decisão como fatores comuns às duas missões do casal, mas impera sempre o respeito pelo tempo: “podemos acompanhar, orientar e criar melhores condições, mas temos de respeitar os seus ritmos.”
Conciliar a medicina com os ciclos da vinha é tarefa que carece de “planeamento e uma equipa de confiança”. Afinal, as fases de trabalho na vinha não podem ser adiadas, exigindo disponibilidade no momento da poda, dos tratamentos, do controlo do desenvolvimento vegetativo e da vindima, “pelo que procuramos antecipar cada fase do calendário vitivinícola e acompanhar de perto as decisões mais importantes”, informa Lúcia Ferraz. Para o efeito, são distribuídas responsabilidades, mantida a comunicação com a equipa e feito o acompanhamento da evolução de cada etapa. O mesmo se aplica na medicina dentária no que há disponibilidade diz respeito. Como complemento, Lúcia e Américo Ferraz implementaram a necessidade de observar, fazer uma leitura minuciosa das causas e apostar na prevenção. “Tal como na saúde, prevenir é, geralmente, mais eficaz do que tentar corrigir um problema numa fase avançada”, justifica a médica dentista, daí que cada casta seja tratada de forma diferente e se procure compreender as necessidades de cada parcela. Em contrapartida, “prática clínica exige concentração permanente, decisões rápidas e uma grande responsabilidade perante cada pessoa”; enquanto a vinha ensina a esperar em função do ritmo das estações. “Esse contacto com a terra ajuda-nos a recuperar energia e a relativizar algumas das tensões do quotidiano clínico”, resume, embora haja uma constante incerteza em relação ao clima, à mão de obra e às decisões de investimento inerentes à atividade agrícola.
“Tal como na saúde, prevenir é, geralmente, mais eficaz do que tentar corrigir um problema numa fase avançada”
Na adega, e à semelhança do desempenho profissional do casal, “trabalhamos frequentemente à escala do milímetro. A precisão, a higiene, o controlo dos procedimentos e a escolha dos materiais são determinantes para o resultado final”. Além de que, a qualidade do vinho depende, para Lúcia Ferraz, da prática estabelecida no momento da vindima e do procedimento na adega. “Um pequeno desvio numa destas fases pode alterar significativamente o resultado”, destaca. Sem descurar a estética comum às duas práticas: “na medicina dentária procuramos aliar saúde, função e harmonia; no vinho procuramos equilíbrio, autenticidade e prazer sensorial.”
Sobre a sustentabilidade financeira, Lúcia Ferraz afirma que o projeto “ainda não atingiu plenamente esse objetivo”, pois depende da atividade na medicina dentária para suportar os custos inerentes à vinha e à produção de vinho. “O nosso objetivo é que o projeto se torne progressivamente autossustentável, preservando uma visão de longo prazo. Mais do que produzir em quantidade, queremos consolidar uma marca credível, associada à qualidade, à família e ao território da Beira Interior”, sustenta.
No contexto odontológico, Lúcia Ferraz aponta para o facto de o vinho ser uma bebida ácida. Logo, “a exposição frequente ou prolongada aos seus ácidos pode contribuir para a erosão do esmalte dentário. No caso dos vinhos tintos, os pigmentos e os taninos também podem contribuir para o aparecimento de manchas superficiais, sobretudo em pessoas com maior predisposição ou com acumulação de placa bacteriana.” Por conseguinte, após a ingestão de vinho, Lúcia Ferraz aconselha a beber água e escovar os dentes 30 minutos depois, bem como recorrer regularmente ao médico dentista. “O vinho pode fazer parte de momentos de convívio, gastronomia e cultura, mas deve ser sempre consumido com moderação.”
Nuno Monteiro Pereira
Médico urologista e produtor de vinho
“A reviravolta começou quando tinha cerca de 45 anos. Exercia urologia em Lisboa, com uma atividade muito intensa entre o hospital público e a prática privada. Senti então a necessidade de equilibrar essa vida profissional com um projeto completamente diferente, que me permitisse fugir ao ritmo da cidade e concretizar um antigo sonho: produzir espumantes e vinhos tranquilos.” Tomada a decisão, Nuno Monteiro Pereira procurou, durante um ano, pela propriedade ideal, “com potencial vitícola e espaço para construir uma casa, uma adega e plantar a minha vinha”, de preferência próxima da capital. A extensiva procura levou o médico urologista a optar, em dezembro de 1996, pela aquisição de uma casa rural do século XVIII, “então bastante degradada, rodeada por cerca de quatro hectares de terreno, incluindo uma velha vinha”, conta. Está localizada no lugar da Patameira, concelho de Sobral de Monte Agraço, pertencente ao território vinhateiro dos Vinhos de Lisboa. Chama-se Quinta do Cerrado da Porta.
O projeto vitivinícola começou em 2011. As vinhas são plantadas em 2012 e 2013 e as castas “selecionadas em função da orografia, da exposição das encostas e das características do clima atlântico da região”: Arinto, Chardonnay, Moscatel Graúdo, Touriga Nacional, Pinot Noir, Syrah, Merlot e Castelão. A estreia na vindima ocorre no ano de 2015 e no engarrafamento acontece em 2016. Um ano mais tarde é dado início à comercialização. A vinha ocupa uma área de 13 hectares. O portefólio vínico divide-se em quatro rótulos: Troviscal (vinhos tranquilos e grandes reservas), Peripécia (monocastas), Quinta do Cerrado da Porta (espumantes) e Capicua (licorosos e colheita tardia).
Sobre os pontos comuns entre a medicina e a produção de vinho, refere a necessidade de ter “paciência, respeito pelos seus ritmos e a consciência de que nem tudo pode ser acelerado”. Paralelamente, há um exigente “estudo permanente, a atualização técnica, o rigor, a disciplina e uma grande capacidade de adaptação”, sendo as pequenas decisões cruciais, uma vez que “podem ter consequências importantes”. Por esse motivo, durante o período em que conciliou a medicina com a prática agrícola teve de instituir “uma gestão muito rigorosa do tempo”, porque “a vinha não espera”. Perante esta realidade, durante muitos anos, recorre a empresas especializadas.
“Na medicina lutamos contra o tempo. No vinho aprendemos a trabalhar com ele”.
A mesma necessidade imperiosa ocorre na época das vindimas, o que o obriga a reagendar consultas, entre outros compromissos profissionais. Atualmente, acompanha e põe em prática as recomendações do viticultor Amândio Cruz, “e isso permite-me um controlo muito mais próximo e fiável”, salienta. E acompanha o trabalho de campo e na adega sob a orientação da enóloga Alexandra Mendes. “Quando olho para trás, pergunto-me, com alguma surpresa, como consegui conciliar durante tanto tempo duas atividades tão absorventes.”
“Observar, estudar, medir e decidir com base na evidência disponível” fazem parte da prescrição de Nuno Monteiro Pereira face à viticultura. Apesar de ter igualmente maleitas, não faz questão “de olhar para a vinha como um doente”, pois há que respeitar o próprio ritmo da videira. E à semelhança do que acontece no bloco operatório, a higiene “é uma condição absoluta” no que toca ao trabalho efetuado na adega. “A limpeza, o controlo microbiológico e o respeito pelas boas práticas são determinantes para o resultado final”, independentemente dos objetivos.
A respeito das semelhanças encontradas entre a medicina e a produção de vinho, Nuno Monteiro Pereira é peremptório: “felizmente poucas e isso é uma boa notícia.” O fascínio advém precisamente das diferenças que encontra neste mundo do vinho: “a medicina, e particularmente a cirurgia, intervém e transforma na permanente procura de devolver a saúde às pessoas; a produção de vinhos procura respeitar e valorizar aquilo que a natureza produz.” Em relação ao fator tempo, enquanto médico, o objetivo é o doente recuperar “melhor e o mais depressa possível. Já um grande vinho necessita de tempo para revelar toda a sua complexidade. Na medicina lutamos contra o tempo. No vinho aprendemos a trabalhar com ele”, elucida.
Em todo o caso, Nuno Monteiro Pereira manifesta preocupação com o consumo excessivo de álcool, uma vez que “aumenta a produção de urina e pode agravar sintomas urinários em algumas pessoas”, daí que defenda a integração moderada de vinho “numa alimentação equilibrada e num estilo de vida saudável”. Portanto, “enquanto médico, sempre aconselhei moderação. Enquanto produtor, continuo a defender exatamente o mesmo”.
No âmbito da sustentabilidade financeira deste negócio associado ao vinho, Nuno Monteiro Pereira declara que a medicina “permitiu suportar os maiores investimentos na vinha e na adega. Já reformado, o projeto procura ser economicamente sustentável”, com uma produção entre 1300 e 5000 garrafas por referência, as quais se destinam “exclusivamente ao mercado nacional, através de garrafeiras e restaurantes selecionados”.
(Artigo publicado na edição de Setembro de 2026)
















