À entrada da Herdade do Mouchão, localizada em Casa Branca, no concelho de Sousel, tudo transmite uma sensação rara de permanência. Não há ostentação; parece um lugar que nunca teve pressa em modernizar-se para impressionar quem chega. Os edifícios agrícolas alinham-se com uma simplicidade austera: paredes grossas caiadas a branco, janelas pequenas, para proteger do calor o interior do edifício, telhados de telha escurecidos pelo tempo. A arquitectura é rural e profundamente alentejana, feita para resistir aos verões quentes e a uma história secular.
Foi aqui que um ramo da família inglesa Reynolds consolidou o projecto agrícola iniciado no Alentejo, ainda no século XIX, primeiro ligado à cortiça e depois ao vinho. Em 1901 foi construída a ala nascente da adega, ano gravado em cima da entrada –significa que este ano a Herdade do Mouchão celebra 125 anos. No entanto, a propriedade soma mais de 150 anos de viticultura. “Por isto, na altura, foi chamada ‘a adega nova’”, explica Iain Reynolds Richardson, que representa a sexta geração da família.
O tempo deixou marcas na herdade. Depois da Revolução de Abril de 1974, o Mouchão foi expropriado e devolvido à família apenas em meados da década de 1980, já bastante degradado. A adega foi recuperada e a vinha teve de ser replantada a partir do material genético original da propriedade.
A franja capilar garante que as raízes mais profundas conseguem alcançar reservas hídricas
O berço da Alicante Bouschet
Na Herdade do Mouchão, com 900 hectares, que incluem olival e montado, a vinha ocupa, hoje, 47 hectares. A maior parcela, com seis hectares, conhecida como Vinha dos Carapetos, está plantada com Alicante Bouschet e Trincadeira. É precisamente aqui que se encontram as raízes da casta protagonista do icónico Mouchão Tonel Nº 3-4, tanto na vinha como na história do Alentejo, num território que lhe oferece o terroir ideal.
A paisagem da propriedade assenta numa vasta planície de sedimentos do Cenozoico, que preencheu uma antiga bacia e originou uma superfície relativamente plana. Durante o Quaternário, esta planície foi sendo progressivamente entalhada pela acção do rio, que esculpiu os vales que actualmente marcam o território.
Adrian Mellin, geólogo com uma longa carreira na Shell, tem um fascínio particular pelo terroir do Mouchão e ajuda a compreender as suas particularidades. Na herdade distinguem-se dois vales principais: o Almadafe Molhado e o Almadafe Seco. Os respectivos nomes reflectem o seu comportamento hidrológico: o primeiro apresenta uma área de drenagem mais activa, concentrando e conduzindo a água ao longo do eixo do vale, enquanto o segundo tem um regime muito mais limitado, com escoamento reduzido e caudais pouco persistentes. Em ambos os casos, as águas provenientes das encostas alimentam o fundo dos vales, onde, durante milhares de anos, em zonas de estrangulamento do curso do rio, se acumulam aluviões, formando várzeas.
O próprio nome “mouchão” está ligado ao terroir e designa pequenos bancos de terra, lodo ou areia que se formam no leito dos rios ou estuários, resultantes da acumulação de aluviões. Segundo Iain, nos mapas de 1894, o rio que moldou o vale apresentava um traçado em ziguezague, dando origem a vários mouchões ao longo desta paisagem.
Passando muito tempo, na herdade, e medindo a água nos poços a 40 e a 80 centímetros de profundidade, Adrian observou uma relação interessante entre a precipitação e o comportamento do lençol freático. Em períodos de chuva significativa, a recarga do solo é intensa, alimentando a zona freática que soube entre duas a três vezes o nível de água que recebe. Cria-se uma zona de saturação capilar mais ampla, que se torna particularmente importante nos períodos secos prolongados e de maior calor, cada vez mais frequentes. Para suportar as temperaturas elevadas, a planta precisa de transpirar e, para isso, necessita de água disponível. A franja capilar garante que as raízes mais profundas conseguem alcançar reservas hídricas, mantendo a planta funcional.
Cria-se um pouco de tensão, um stress controlado, suficiente para equilibrar o desenvolvimento da videira sem comprometer os estados fenológicos. Atinge-se uma maturação completa, mas equilibrada, com menor degradação de ácidos, mantendo a tão preciosa frescura, que encontramos no Tonel Nº 3-4.
Os dados registados ao longo de três anos pela estação meteorológica instalada no vale mostram que as temperaturas máximas são muito semelhantes às de Évora. Já as temperaturas mínimas aproximam-se mais das de Portalegre, cerca de 200 metros acima, uma diferença explicada pela localização da herdade no fundo do vale, onde o ar frio tende a acumular-se durante a noite. O regime de precipitação também segue um padrão mais próximo do de Portalegre do que do de Estremoz ou Évora.
Na vinha, explica Iain, é feita uma monda em verde, removendo parte dos pâmpanos, com o objetivo de abrir a copa, melhorar a ventilação e reduzir a necessidade de tratamentos. O trabalho fitossanitário baseia-se quase exclusivamente em cobre e enxofre, embora, em situações excepcionais, possam ser utilizados outros tratamentos de recurso. Em meados de Julho, realiza-se igualmente a monda de cachos, para ajustar o potencial produtivo da vinha.
Nos últimos 12 anos, a produção média tem sido de cerca de quatro toneladas por hectare, descendo, em alguns anos, para valores próximos das duas toneladas. Em 2015, a produção atingiu 4,5 toneladas por hectare.
Mouchão vs. Tonel 3-4
Após o período de ocupação, quando a herdade regressou às mãos da família, já não havia vinho; tinha sido todo vendido. Para restaurar os grandes tonéis, os tanoeiros chegaram a viver na propriedade durante dois anos. Segundo Iain, os tonéis 3 e 4 são construídos a partir de diferentes madeiras (castanho, carvalho, macacaúba e mogno), com aduelas a rondar os 60 anos e topos a aproximarem-se dos 100 anos.
O primeiro vinho Tonel Nº 3-4 surgiu na colheita de 1996. Desde então, foram lançadas apenas sete edições, correspondendo à oitava a de 2015, a ser lançada agora.
Iain esclarece que esta referência só é produzida em anos em que “o Alicante Bouschet é fantástico” e está disponível em “quantidade suficiente, para assegurar também o Mouchão”. Se a primeira razão é óbvia, a segunda tem a ver com a filosofia da casa. Há anos em que, do ponto de vista qualitativo, seria possível produzir o Tonel Nº 3-4, mas tal não acontece, devido à reduzida quantidade de uva que não permite assegurar simultaneamente os dois vinhos.
“Nós somos conhecidos pelo Mouchão. Esse é o nosso fio de estabilidade ao longo dos últimos 70 anos e não queremos que este vinho sofra a custo do outro vinho […], o Mouchão, para nós, é o principal. Depois temos um enorme prazer, em anos como este, de lançar uma coisa absolutamente fantástica, completamente fora dos moldes do Mouchão.”
O enólogo Hamilton Reis resume, de forma poética, a relação entre os dois topos de gama da herdade, mas simultaneamente muito precisa. O Mouchão não é um segundo vinho da propriedade: “reúne numa garrafa o património e a identidade de duas famílias – os Reynolds, na sexta geração enquanto proprietários, e os Alabaça, na terceira geração enquanto adegueiros –, bem como as diferentes parcelas de Alicante Bouschet e Trincadeira”. Por sua vez, o Tonel Nº 3-4 vive numa realidade diferente. É, nas suas palavras, “um vinho egoísta”, “a expressão máxima de uma casta que encontrou o seu território perfeito” e “um produto absolutamente único que fala de si”.
Normalmente, a primeira noção de que poderá haver um Tonel surge ainda durante a vindima. O longo estágio permite adiar a decisão até ao momento em que já não restam dúvidas. A produção varia de ano para ano. O Mouchão é produzido na ordem das 35-40 mil garrafas. O Tonel Nº 3-4 de 2015 resultou em 11 mil garrafas. A produção total da herdade ronda as 150 mil garrafas.
Mini-vertical
Antes de conhecer o vinho que deu origem a este lançamento especial, provámos duas colheitas anteriores – 2001 e 2005 –, com o objetivo de evidenciar a capacidade de envelhecimento do Tonel Nº 3-4. João Alabaça explicou que “o ano 2001 teve alguma falta de água, mas viveu no que deixou o ano anterior. O 2005 foi o primeiro ano do ciclo de seca entre 2005-2008, mas o 2004 foi o ano de água, o que acabou por criar um equilíbrio”, resumiu.
Na prova, o Tonel Nº 3-4 2001 mostrou-se muito profundo no aroma, balsâmico, com couro fino e azeitona preta, alguma tinta-da-china, mas com fruta ainda fresca a lembrar amora e cereja bem madura. Muita frescura em evolução, firmeza de tanino e textura de linho. O 2005, ligeiramente mais fechado, revelou também fruta como a amora e a cereja preta, muito couro e eucalipto, pimenta e um fundo terroso com apontamentos de petrichor. Surgiram ainda nuances de açúcar mascavado e, com tempo no copo, especiaria doce. Musculado, muito fresco e ainda com uma energia jovem e uma ligeira nota verde do engaço, que acrescenta tensão. Nenhum dos dois se mostra pesado ou cansado; ambos projectam uma grande presença e afirmação de estilo e carácter.
O Tonel 3-4 2015
Segundo João Alabaça “o ano 2014 fechou com muita chuva e, quando começou o 2015, tornou-se um inverno extremamente seco e muito frio. A primavera foi mais amena, choveu pontualmente, mas a chuva estava com uma boa intensidade, por isto a água ficou no solo. A fase da primavera, com excelentes temperaturas. Em finais de Junho, princípio de Julho, tivemos um grande problema com temperaturas muito altas durante uma semana e nesta altura perdemos muita fruta queimada. Isto desenvolveu um cacho mais aberto, com as uvas mais pequenas, que resultou em concentração e muito equilíbrio no próprio cacho e na vinha. O verão correu plenamente, não muito quente, oscilações de noite e dia muito agradáveis até praticamente a vindima. Não tivemos nem pragas nem doenças na vinha, quase sem tratamento. A colheita das uvas na Vinha dos Carapetos, aconteceu entre o dia 9 e o dia 11 de Setembro. As uvas estavam fantasticamente sãs, com um equilíbrio muito grande entre a maturação alcoólica e a maturação fenólica. Os engaços estavam completamente maduros.”
Esta última referência aos engaços é particularmente relevante, uma vez que a filosofia de vinificação da propriedade se mantém inalterada desde sempre: fermentação em lagares de mármore, com pisa a pé e sem desengace. Após cerca de sete dias, o vinho é trasfegado para os tonéis, onde realiza a fermentação maloláctica e estagia durante três a quatro anos.
Depois do engarrafamento, o estágio continua por mais seis anos antes do lançamento para o mercado. Em princípio, a partir deste momento o vinho está num ponto óptimo para ser apreciado, mas facilmente aguentará mais uma década (ou mais) em garrafa.
(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)











