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PEGOS CLAROS: A excelência do Castelão

Uma marca que é um dos símbolos da casta Castelão. Uma vinha velha, sem rega, extensa e extraordinária. Tivemos acesso a uma visão geral com a prova de quase uma dezena de colheitas de Pegos Claros e confirmámos um perfil que é imposto pela casta e pelo terroir.

TEXTO Nuno de Oliveira Garcia
FOTOS Ricardo Palma Veiga e cortesia do produtor

Os registos históricos revelam que na Herdade de Pegos Claros, em Santo Isidro de Pegões, faz-se vinho de qualidade pelo menos desde 1920. Efetivamente, são os muitos os relatos a propósito da reputação dos vinhos desta propriedade, mas é indiscutível que a marca ganhou a fama pela qual é conhecida durante a década de 90 do século passado.
Depois de vários donos e vicissitudes, o proprietário atual, desde 2010, é o CA Imobiliário – Fundo Especial de Investimento Imobiliário Aberto, um fundo do grupo Crédito Agrícola, encontrando-se a gestão afeta à Terra Team, empresa constituída em 2008 e especializada em planeamento e gestão de recursos naturais. Por isso não espanta que a herdade seja atualmente explorada em modelo de Gestão Florestal Responsável, o que implica uma atenção especial aos recursos ecológicos, ambientais e até sociais ali existentes.
A herdade passou por vários proprietários, quase meia dúzia nos últimos 30 anos, e a adega nunca teve as condições que os enólogos pretendiam, mas a verdade é que os vinhos foram preservando um fio condutor, sempre relacionado com a casta Castelão e com os solos de areia pobre onde a vinha está implementada. Para se ter uma ideia da dimensão da propriedade, as vinhas têm cerca de 40 hectares e encontram-se integradas numa área total de 540 hectares, cuja ocupação é predominantemente florestal. Encontramos, assim, grandes extensões de sobreiros e pinheiros mansos, não estivéssemos nós em terras de Palmela, em transição para o Alentejo.
Seria só no início dos anos 90 do século passado que arrancaria o projeto vinícola moderno da herdade, com a contratação de João Ramos. O conhecido enólogo e produtor (mais tarde fundador da João Portugal Ramos, Falua e Duorum) tinha ganho visibilidade com o excelente trabalho na Adega de Pegões (cuja colheita de 1992 tinha sido coroada como o melhor vinho da região), pelo que, já na colheita de 1993, passou a acumular funções na Herdade dos Pegos Claros. Aí ficaria quase até ao final da década, sendo que os magníficos tintos de 1993, 1995 e 1996 são da sua autoria.
O facto de a herdade ter enormes lagares, nos quais as uvas eram pisadas a pé, e as vinhas serem velhas e em solo de areia foram factores de sedução para cativar João Ramos, que nos confirmou o fantástico terroir da propriedade. Lembra-se de chegar à propriedade e estar quase tudo por fazer, mas, com modéstia, disse-nos que naquelas vinhas velhas – com uvas pisadas a pé, fermentação em lagar, e estágio em barricas – não era difícil produzir bom vinho… Recorda-se que a vindima era relativamente precoce, e exalta as qualidades da casta Castelão quando plantada em solos adequados, sobretudo pela capacidade de reter sabor a fruto encarnado mesmo após vários anos de evolução, algo que podemos atestar na nossa prova vertical.

O novo século
João Ramos deixa a herdade entre 1999 e 2000, no meio de uma sucessão de proprietários e projetos. Entre 2000 e 2010, a herdade passou a estar sob gestão da Companhia das Quintas, com João Corrêa a assumir as funções de enólogo, coadjuvado por Bernardo Cabral e Nuno do Ó. Este último recorda-se bem das condições difíceis na adega, e lembra-se de chegar à propriedade pela primeira vez e deparar-se com vinho em barrica há mais de 3 anos… Todavia, e ao contrário do que seria de esperar, os vinhos estavam de boa saúde, o que atesta bem as qualidades da casta e do terroir em termos de longevidade.
Durante essa década, a qualidade do vinho manteve-se no essencial, apesar do maior volume de produção ter acarretado uma ligeira alteração do perfil, mais acessível e leve desde novo, tendo mesmo existido algum desinvestimento na marca entre 2006 e 2009. Ainda assim, foi nesse período que se lançou o Garrafeira de 2005, um vinho arrebatador, e do qual nos lembramos bem e com saudade, mas que, infelizmente, não tivemos oportunidade de provar nesta vertical.
Em 2010, e como acima mencionámos, a gestão da propriedade passou, e mantém-se, para a Terra Team, que criou a subsidiária HPC especificamente para a administração do projeto Pegos Claros. À frente da Terra Team e da HPC encontra-se José Miguel Gomes Aires, que começou por contratar Frederico Falcão para a enologia. Este, que ficou em Pegos Claros entre 2010 e meados de 2012 (altura em que passou a assumir funções como presidente do Instituto da Vinha e do Vinho), elogia as vinhas e os solos fundos e pobres da propriedade, destacando ainda os clones específicos e antigos de Castelão como uma das suas mais-valias. Para o enólogo, e agora administrador delegado (CEO) do Grupo Bacalhôa, que já tinha trabalhado com a casta na Herdade do Esporão e na Companhia das Lezírias, os clones de Castelão na Herdade dos Pegos Claros deram origem a uma das melhores vinhas que conhece daquela casta.
Com a saída de Frederico Falcão, Bernando Cabral assume a responsabilidade pela enologia, projeto que, curiosamente e como acima referimos, tinha acompanhado nos tempos em que trabalhou com João Corrêa na Companhia das Quintas. Bernardo conta-nos que procurou manter um estilo clássico, com fermentação em lagar com algum engaço (em 20% a 30%) e pisa a pé. O seu grande desafio inicial passou por compreender como uma adega tão pouco equipada (praticamente sem equipamento de frio e cubas de cimento mal conservadas) conseguia produzir vinhos tão interessantes e longevos.
Das primeiras colheitas, o enólogo recorda que o desengaçador original funcionava mal e que talvez fosse essa uma das razões pelas quais os vinhos fermentavam com engaço… A verdade é que, quando Bernardo trouxe uma nova máquina, cedo se apercebeu de que o engaço era mesmo necessário. Assim como também notou que um pico rápido de temperatura na fermentação (30º durante um dia, algo comum na vinificação de Pinot Noir) contribuía para uma maior complexidade do vinho. Com tanta precariedade na adega, só mesmo um terroir de excelência, e uma casta perfeitamente apta aos solos, pode produzir excelência.

Em 2010, e como acima mencionámos, a gestão da propriedade passou, e mantém-se, para a Terra Team, que criou a subsidiária HPC especificamente para a administração do projeto Pegos Claros. À frente da Terra Team e da HPC encontra-se José Miguel Gomes Aires, que começou por contratar Frederico Falcão para a enologia. Este, que ficou em Pegos Claros entre 2010 e meados de 2012 (altura em que passou a assumir funções como presidente do Instituto da Vinha e do Vinho), elogia as vinhas e os solos fundos e pobres da propriedade, destacando ainda os clones específicos e antigos de Castelão como uma das suas mais-valias.

Para o enólogo, e agora administrador delegado (CEO) do Grupo Bacalhôa, que já tinha trabalhado com a casta na Herdade do Esporão e na Companhia das Lezírias, os clones de Castelão na Herdade dos Pegos Claros deram origem a uma das melhores vinhas que conhece daquela casta.
Com a saída de Frederico Falcão, Bernando Cabral assume a responsabilidade pela enologia, projeto que, curiosamente e como acima referimos, tinha acompanhado nos tempos em que trabalhou com João Corrêa na Companhia das Quintas. Bernardo conta-nos que procurou manter um estilo clássico, com fermentação em lagar com algum engaço (em 20% a 30%) e pisa a pé. O seu grande desafio inicial passou por compreender como uma adega tão pouco equipada (praticamente sem equipamento de frio e cubas de cimento mal conservadas) conseguia produzir vinhos tão interessantes e longevos.
Das primeiras colheitas, o enólogo recorda que o desengaçador original funcionava mal e que talvez fosse essa uma das razões pelas quais os vinhos fermentavam com engaço… A verdade é que, quando Bernardo trouxe uma nova máquina, cedo se apercebeu de que o engaço era mesmo necessário. Assim como também notou que um pico rápido de temperatura na fermentação (30º durante um dia, algo comum na vinificação de Pinot Noir) contribuía para uma maior complexidade do vinho. Com tanta precariedade na adega, só mesmo um terroir de excelência, e uma casta perfeitamente apta aos solos, pode produzir excelência.

A casta-mistério
Com o passar do tempo, as vinhas ficaram ainda mais velhas, e algumas morreram, a produção total diminuiu e as quantidades de vinho, no que respeita ao topo de gama tinto, baixaram (o que até permite melhor seleção e qualidade). Por outro lado, aumentou-se a gama com um rosé muito cativante, um interessante branco de uvas tintas, e um sólido tinto Reserva, todos feitos a partir de Castelão. Há ainda uma surpresa em cave, um tinto topo de gama num perfil diferente do Grande Escolha, com fermentação em barricas de 500 litros, estágio curto de 6 meses e, por isso, engarrafado mais cedo. Um belíssimo tinto, antecipamos, que se estima ir para as garrafeiras lá mais para o final do ano.

Atualmente, a herdade está numa fase de velocidade de cruzeiro, com uma produção total de 100 mil garrafas, podendo crescer entre 20% a 30% nos próximos cinco anos, em parte devido à reconversão de uma área de seis hectares de vinha em 2013. Neste momento, dos quase 40 hectares em produção, 28 hectares têm mais de 25 anos – e, desses, cerca de 18 hectares com mais de 60 anos e parte significativa com mais de 90 anos.
O grande desafio para José Miguel Gomes Aires tem sido o repovoamento (retancha) de algumas falhas na vinha, e recuperação das vinhas velhas, sempre com o material genético original e em pé-franco, tarefa particularmente difícil numa vinha sem rega mecanizada. Para grande surpresa do próprio, recentemente foram descobertas, no meio da vinha mais velha de Castelão (acima de 90 anos), algumas linhas de uma outra casta, tintureira por sinal e ainda por catalogar, mas que José Miguel Gomes Aires está tentado a replicar em futuras plantações já em 2019.
José Miguel Gomes Aires é a verdadeira força motriz do projeto, não falha a uma apresentação dos vinhos, cuida de todos os pormenores, mesmo os comerciais, e toma quase todas as decisões. Quando o contactámos, encontrava-se a trabalhar na herdade, onde passa muitos dias a pensar no que pode fazer para melhorar a propriedade. A sua filosofia é ser fiel ao terroir único, viticultura e enologia conservadoras, e preservar o património vitícola para as gerações futuras. A qualidade dos vinhos, como atestamos nesta vertical, é evidente e justifica todos os investimentos.
A visão e persistência de José Miguel Gomes Aires, completada pela sensibilidade e técnica de Bernardo Cabral, dão-nos a certeza de um futuro muito risonho, com vinhos cheios de carácter.

  • Poderi Bellovile Serego Alighieri Toscano Vinho Biológico
    Itália, Tinto, 2015

    16.0
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Masi Costasera Amarone della Valpolicella Classico
    Itália, Reserva, Tinto, 2011

    18.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Masi Brolo Campofiorin Oro Rosso Verona
    Itália, Tinto, 2013

    17.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Vaio Armaron Serego Alighieri Amarone della Valpolicella Classico
    Itália, Tinto, 2011

    18.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor

Edição Nº16, Agosto 2018

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