Notícias Vinho

Tapada do Chaves, um clássico reerguido

É das casas vinícolas mais antigas do Alentejo e nos anos 80 tornou-se uma marca ícone da região. Depois de um período mais discreto está agora, pelas mãos da Fundação Eugénio de Almeida, a caminho de voltar ao estrelato.

TEXTO Mariana Lopes
NOTAS DE PROVA Luís Lopes
FOTOS Ricardo Palma Veiga

Ao largo de Portalegre, em Frangoneiro, existe uma vinha com mais de 100 anos. Não é uma vinha alentejana qualquer, pela idade e localização. À sombra da serra de São Mamede, a Tapada do Chaves, plantada em solo granítico, beneficia de um Alentejo fresco, alto e com amplitude térmica considerável entre o dia e a noite, na fase de maturação das uvas.
Tudo começou no primeiro ano do século XX, quando o senhor Chaves plantou a primeira vinha na sua Tapada, de uvas tintas. Dois anos depois, plantou a segunda, desta feita de variedades brancas. Desde aí, a Tapada do Chaves já passou pela alçada da família Fino e da Murganheira, sendo que, em Julho de 2017, foi a Fundação Eugénio de Almeida (FEA) que lá espetou a bandeira. Atraídos pelo património vitícola e pela qualidade e personalidade única pelos quais os vinhos da Tapada são reconhecidos há décadas, José Mateus Ginó e Pedro Baptista (o presidente do concelho executivo e o enólogo da FEA, respectivamente), assumiram as rédeas de uma marca da qual já conheciam bem o percurso. “Foi uma marca que, de certo modo, ajudou a criar este novo Alentejo vitivinícola, com uma projecção muito importante”, disse José Mateus. “Falamos em marca porque sempre fomos da opinião de que a Tapada do Chaves, para além de ser um projecto vitivinícola, era uma marca e, na estratégia da Fundação, o caminho sempre foi muito assente nas marcas. Olhamos para elas como um grande capital.”
É certo que houve um período relativamente longo de menor exposição, mas isso não fez a dupla perder o interesse, pois o estatuto ganho pela Tapada do Chaves, ao longo do tempo, foi adormecido mas não apagado. A hipótese de assumir o projecto surgiu em 2010, sete anos antes da conclusão do processo. Neste intervalo, houve margem para ponderação e avaliação. Entretanto, a região de Portalegre começou a ganhar outro foco, com novos players a investir, e isso foi motivação acrescida. José Mateus Ginó explicou: “Tendo a Fundação consciência de que poderia crescer, entendemos que o deveria fazer dentro do universo do Alentejo vitivinícola, e numa região que não fosse Évora, onde está o coração do nosso projecto.”
E a intenção sempre foi muito clara, Tapada do Chaves e FEA são duas entidades independentes e a primeira não é uma marca da segunda. “Achamos que deve viver por si só, com tudo aquilo que é a sua identidade e as suas características únicas, somos fiéis a isso. O ponto comum é tão só o conselho executivo da FEA ser a administração da Tapada”, adiantou José Mateus.
Partindo desta premissa, nem os canais comerciais serão os mesmos. A estratégia comercial, decidiram, será a de dar um passo atrás. “Queremos um contacto directo com os nossos clientes e parceiros e, para isso, retirámos a marca da distribuição moderna. Estamos a elencar uma rede de restaurantes e de algumas garrafeiras onde queremos estar presentes. Será uma distribuição capilar.” Um reposicionamento, a nível de preço, também já está em marcha. Também os novos rótulos são um regresso às origens e até o antigo carimbo, com o ano da colheita, é reproduzido digitalmente.
Toda a equipa que estava na Tapada ficou e ganhou um elemento, o jovem enólogo Bruno Ramos, que veio da FEA, em Évora, e que agora é o responsável permanente em Frangoneiro. “Deu-me muito prazer ser chamado para ajudar a reerguer um vinho que compete facilmente com outros grandes do mundo”, confessou Bruno.

Vinhas velhas, mas cheias de vida
“A viticultura é o suporte de tudo”, reiterou Pedro Baptista, “e se a Tapada do Chaves tem o percurso que tem, de imagem, credibilidade, valor de marca, da forma como comunica há décadas com o consumidor, é por causa disso.” Esta parte do património, a das vinhas velhas, que construiu uma base importante para a solidificação do projecto, está extraordinariamente saudável. Ninguém diria que aquelas parcelas, com 117 e 115 anos, têm a idade que já carregam em si, e isso reflecte-se, indubitavelmente, no produto final.
Além disso, é um património que prevalece face às condições mais adversas. Pedro Baptista não tem dúvidas sobre as vantagens que estas vinhas trazem: “A capacidade de resistência às alterações climatéricas é elevada, são muito resilientes. Também geram, habitualmente, vinhos mais concentrados e mais equilibrados, habituando-nos a um excelente nível de qualidade.” A idade média de todas as vinhas da propriedade é também relevante, umas com 100 anos, outras com 40 e algumas com 11, numa totalidade de 32ha, inseridos numa área de 60ha, sendo que algumas parcelas estão localizadas a mais de 500 metros de altitude.
O levantamento das variedades está a ser feito. A vinha velha de tintas, com pouco mais de um hectare, é sobretudo Trincadeira, com um pouco de Grand Noir (que faz parte da história da casa e de Portalegre) e outras mais. A de brancas, que tem quatro hectares, inclui Arinto, Assario, Fernão Pires, Roupeiro, algum Tamarez, Diagalves, etc. A vinha mais jovem branca, por sua vez, foi plantada com Antão Vaz, Arinto e Fernão Pires. No total, a Tapada do Chaves tem 23ha de uvas tintas e nove de brancas.
Pedro Baptista contou que as alterações que introduziram na vinha foram apenas ao nível do conhecimento que detêm ao nível da agricultura biológica. “Entendemos que o orgânico era o caminho a percorrer, do ponto de vista de potenciar as características que aqui tínhamos na vinha”, disse. Assim, começaram este ano a reconversão para a agricultura biológica na totalidade da quinta, onde também introduziram algumas práticas de biodinâmica.

Passado, presente e futuro
José Mateus Ginó e Pedro Baptista não regateiam elogios ao anterior proprietário, a sociedade detentora da Murganheira: “Quando entrámos, no Verão de 2017, foi só fazer a vindima. Vinhas e adega estavam num estado impecável. E o passado, o património vínico, foi integralmente preservado.” O stock que encontraram, guardado na adega, incluía vinhos engarrafados de colheitas relativamente recentes, mas também de várias bem antigas. De 1961, resta-lhes uma garrafa, que ostenta uma chave desenhada no seu rótulo poeirento.
Agora, são três os vinhos que chegam ao mercado, o Tapada do Chaves branco 2014, o Reserva tinto 2013 e o Vinhas Velhas tinto 2010. Mas, entretanto, duas outras colheitas existentes na casa serão colocadas nas lojas, um branco de 2012 (700 garrafas para vender) e um branco Vinhas Velhas de 2008 (2500 garrafas). “Com estas referências conseguimos espelhar estas vinhas em vinho”, afirmou Pedro Baptista, e desvendou que, no futuro, poderão ser produzidas cerca de 180.000 garrafas, exclusivamente das vinhas da Tapada.
José Mateus Ginó, que começou a trabalhar na CVR Alentejo em 1991 e na FEA em 1999, foi o primeiro jovem do Alentejo a viajar com 40 marcas “às costas” para a Europa. Quando questionado sobre a maneira como vê, a nível pessoal, o novo projecto, respondeu: “Tive a felicidade de, após quase 30 anos, ter feito o percurso por duas casas que sempre foram, para mim, uma referência do mundo do vinho e do Alentejo, a Fundação Eugénio de Almeida e a Tapada do Chaves. Hoje digo, com alguma vaidade, que me sinto realizado.”

  • Tapada do Chaves
    Alentejo, Branco, 2012

    18.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Tapada do Chaves
    Alentejo, Reserva, Tinto, 2013

    17.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Tapada do Chaves Vinhas Velhas
    Alentejo, Tinto, 2010

    18.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Tapada do Chaves Vinhas Velhas
    Alentejo, Branco, 2008

    18.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Tapada do Chaves
    Alentejo, Branco, 2014

    17.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor

Edição Nº16, Agosto 2018

Escreva um comentário