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The White Experience: Celebração de um “terroir” de excelência

Grandes vinhos brancos de Portugal e do Mundo reuniram-se no Alto Minho para, ao lado dos seus anfitriões de Monção e Melgaço, celebrarem um território absolutamente singular, expressão máxima da nobre casta Alvarinho.

TEXTO António Falcão e Luís Lopes
FOTOS Ricardo Palma Veiga

Fazendo parte da grande região dos Vinhos Verdes, a sub-região de Monção e Melgaço distingue-se claramente das suas congéneres. A produção de vinho é muito antiga em todo o noroeste do País, mas o vale do rio Minho, e Monção em particular, pode orgulhar-se de ser a origem dos primeiros vinhos exportados de Portugal para Inglaterra, ainda no século XV. Não terá sido por acaso.
Monção e Melgaço, duas vilas de fronteira com mais de 700 anos de história, usufruem de uma unidade territorial que evidencia um conjunto de singularidades que consubstanciam aquilo que se convencionou chamar de terroir, ou seja, a conjugação de três factores, clima, solo, casta, aos quais acrescentaríamos o não menos fundamental factor humano.
O vale do Minho (rio que nasce na serra da Meira, Galiza, e percorre 340 km até à foz, em Caminha) transforma-se em Monção e Melgaço numa espécie de fortaleza, cujas muralhas são constituídas pelas serras galegas e pelas portuguesas Gerês e Cabreira, formando uma cintura granítica que protege esta região da influência marítima. Por isso, ao contrário do acontece na generalidade da região dos Vinhos Verdes, predominantemente atlântica, aqui o clima é mais continental, com grandes amplitudes térmicas, verões quentes, mas que, devido às diversas massas de água, beneficiam de noites frescas. Os solos, de base granítica, dividem-se em três grandes tipos: profundos, de aluvião, mais próximos do rio; terraços fluviais, por vezes com pedra rolada, em cotas um pouco mais elevadas; e granitos mais puros a partir dos 150/200 e até aos 450 metros (as vinhas mais recentes estão cada vez mais nestas cotas mais altas).
Este é o solar da casta Alvarinho, que aqui nasceu e aqui encontra as melhores condições para produzir vinhos de excelência. Variedade antiga (referenciada desde o século XVIII), só a partir dos anos 40 do século XX começou a despertar algum interesse nos viticultores e agrónomos, e apenas a partir dos anos 70, muito por via da histórica marca Palácio da Brejoeira, alcançou estatuto de nobreza junto dos apreciadores mais exigentes. De então para cá, esta uva nascida no vale do Minho valorizou-se enormemente, sendo a mais cara de Portugal, vendida sempre acima de €1/Kg (a maioria das uvas brancas do resto do país ronda os €0,30…). Existe apenas uma razão para esta valorização fora do comum: a sua relativa escassez e a elevadíssima qualidade média, personalidade e longevidade dos vinhos brancos produzidos em Monção e Melgaço. Hoje, esta sub-região alberga cerca de 1.700 hectares de vinha (incluindo uvas tintas e outras brancas, como a Trajadura), mais de 2.000 viticultores e 67 engarrafadores de vinhos que ostentam a designação Vinho Verde Monção e Melgaço.

Um evento único
Foi, portanto, este território singular que albergou um evento absolutamente inédito no seu conceito. Um conceito que, ainda que complexo, pode ser traduzido em poucas palavras: um centro de excelência na produção de vinhos brancos (Monção e Melgaço), convida produtores de brancos de excelência, de Portugal e do mundo, para em conjunto mostrarem os seus vinhos a uma plateia de visitantes constituída por enófilos conhecedores e exigentes. E no Parque das Caldas, em Monção, ao longo dos dias 21 e 22 de Julho, foi precisamente isso que aconteceu.
O evento, organizado pela Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes e produzido pela Grandes Escolhas, acolheu mais de um milhar de enófilos, consumidores especializados, conhecedores e exigentes, que vieram de todo o país e puderam ali confrontar os seus palatos com grandes vinhos brancos de Monção e Melgaço, de Portugal e do mundo. É que no mesmo espaço juntaram-se cerca de 30 produtores de Monção e Melgaço (incluindo todos os nomes mais emblemáticos), para além de criadores de grandes brancos de diversas regiões portuguesas (Vinhos Verdes, Douro, Dão, Bairrada, Lisboa, Alentejo e Açores) e ainda nomes sonantes oriundos da Alemanha, França, Espanha, Hungria, Alemanha, Áustria e Nova Zelândia.
Produtores de luxo, representados ao mais alto nível. Tanto nos stands estrangeiros como nos nacionais estiveram presentes, salvo raras excepções, os respectivos produtores/enólogos. Ou seja, os protagonistas e criadores dos vinhos.

Partilha de experiências
Para os produtores estrangeiros, esta foi uma forma de contactarem consumidores e produtores portugueses, aperceberem-se dos padrões vínicos de cada país e encetarem uma sempre profícua troca de experiências. Das várias conversas que tivemos, o balanço foi de tal maneira positivo que todos mostraram muito interesse em repetir a experiência.
Para o sucesso do evento foram igualmente importantes as visitas a quatro produtores e adegas da região, duas no sábado, duas no domingo. O contacto directo com vinhas e adegas foi muito interessante e as perguntas e observações não cessaram. Outro ponto alto foram as provas realizadas nos produtores (algumas com vinhos experimentais), que estimularam a partilha de conhecimentos com os responsáveis enológicos.
Uma componente fundamental deste evento foi a realização de várias apresentações didácticas, realizadas por especialistas. Todas compreenderam componentes teóricas e práticas, com prova de vinhos que ilustravam a informação veiculada. A primeira destas verdadeiras masterclasses foi ministrada por Luís Lopes no sábado, e versou sobre o terroir da sub-região de Monção e Melgaço. Para além dos solos, Luís Lopes falou das técnicas de vinificação e dos vários perfis de Alvarinho, dos mais centrados na fruta tropical (abacaxi, macarujá, manga) aos mais focados nos citrinos (laranja, toranja, tangerina, sobretudo), variando de produtor para produtor. Outro factor diferenciador, a altitude das vinhas, foi igualmente perceptível nos vinhos provados. Uma apresentação muito reveladora deste território tão singular.
Um pouco mais tarde, João Paulo Martins falou dos Alvarinhos com fermentação e/ou estágio em madeira, apresentando vários exemplos e referindo que muito mais se sabe hoje em dia do que há uma dúzia de anos, sobre a interacção entre o Alvarinho e a barrica. A tendência actual vai para uma presença mais discreta, quase subtil, da madeira no vinho. No dia seguinte, este crítico de vinhos e jornalista dirigiu a primeira masterclass, com o tema “Monção e Melgaço – Desafiando o tempo”. O foco esteve nos vinhos Alvarinho com alguma idade. João Paulo Martins apontou o equilíbrio entre corpo, álcool e, acima de tudo, acidez, como o maior garante da longevidade destes brancos e adiantou que “os vinhos de Monção e Melgaço são muito aptos ao tempo em cave”.

Um evento a repetir
Para terminar em grande, os visitantes puderam assistir a “The White Experience – Vinhos de Portugal e do Mundo”, a masterclass que foi uma autêntica celebração desta experiência com os melhores vinhos brancos portugueses e estrangeiros. Convidados por Luís Lopes, dezoito produtores, portugueses e estrangeiros, apresentaram um vinho e falaram um pouco sobre a sua região. Para isso, cada um teve apenas cinco minutos, que foram sempre muito bem utilizados, numa prova divertida, curiosa e enriquecedora.
Domingo ao fim da tarde, os últimos enófilos abandonavam, alguns com relutância, a enorme tenda do White Experience. Alguns produtores ficaram sem vinho antes do fim. “Não esperava esta afluência”, confessa-nos um deles. Mas a sensação era de satisfação geral pela riqueza da “experiência branca”. Num “ano zero” de um evento tão complexo e ambicioso quanto este há sempre pontos a desenvolver ou afinar. Isso mesmo reconheceu Manuel Pinheiro, presidente da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes, que, com o seu caderno, ia anotando ideias para o próximo ano. Mas reconheceu publicamente a sua satisfação, tanto com o número de visitantes, como pela sua qualidade, algo que desde o início do projecto se procurou garantir. “Os objectivos foram atingidos”, referiu Manuel Pinheiro.

Quatro produtores de referência

Do programa do White Experience constava a visita a quatro produtores da sub-região de Monção e Melgaço. Limitadas a jornalistas e aos produtores estrangeiros, por óbvias razões de logística, estas visitas proporcionaram um contacto ‘in loco’ com a viticultura e enologia da região.

PROVAM
Este produtor de Melgaço faz vinho Alvarinho desde 1993, usando uvas próprias e uvas compradas a viticultores locais, com quem a PROVAM tem acordos de longa data. A empresa foi fundada por uma sociedade de 10 amigos e tem singrado ao longo dos anos, aumentando a facturação e o volume de vinho vinificado. A adega, por exemplo, já foi objecto de ampliações e estão outros mais na forja. Isto porque de umas dezenas de milhares de litros em 1993, a empresa passou para os actuais 500.000.
Abel Codesso, o responsável de produção da casa, foi o anfitrião da visita, coadjuvado por João Marques e João Mota, da área comercial. O ponto alto foi uma prova histórica das marcas mais icónicas da casa, Portal do Fidalgo e Vinha Antiga. No primeiro caso, a viagem começou com o colheita de 2017, ainda em cuba, e prolongou-se até ao 1995, uma colheita famosa nesta casa. Pelo meio, outras cinco vindimas. Nenhum estava cansado, longe disso. Mesmo os 99 e 95 mostraram-se em excelente forma, ainda com muita frescura e tons melados.
A viagem pelos Vinha Antiga correu também muito bem. Esta marca tinha como elemento diferenciador o facto de o Alvarinho ser estagiado em madeira.

Foram provadas seis colheitas, de 2015 a 1996. Esta última foi a primeira, sendo mesmo uma das pioneiras na região.
E estava ainda em boa forma, como todos os outros, aliás. Não sei se haverá mais alguma destas provas porque a adega já não possui garrafas de alguns anos.
A visita não terminou sem uma prova de dois espumantes (Côto de Mamoelas) e da edição 2017 do topo de gama, o Alvarinho Contradição, ainda para ser lançado no mercado. No final, uma consistência notável de qualidade, a surpreender muita gente.

Soalheiro
Os irmãos Cerdeira, António Luís e Maria João, dirigem o projecto Soalheiro, em Melgaço. Foram eles os anfitriões na adega da casa, primorosamente arranjada, mas a sofrer obras de grande envergadura para ampliação das instalações. A marca praticamente dispensa apresentações, sendo uma das que maior notoriedade tem na sub-região de Monção e Melgaço. Foi, aliás, a primeira marca a engarrafar em Melgaço, em 1974, na altura por obra do pai (já falecido).
A casa Soalheiro usa uvas próprias e de cerca de uma centena de viticultores. Actualmente produz mais de 700.00 garrafas por ano e factura em torno de 3 milhões de euros. O segredo do enorme crescimento vai para um conjunto de factores, onde se destacam a consistente qualidade dos vinhos e uma gestão cuidada da matéria-prima.
De facto, para a sua marca Soalheiro, de longe a que vende mais, António Luís usa uvas de Alvarinho de diversas proveniências e de diferentes modos de condução de vinha. Com um histórico grande (António Luís faz vinho desde 1994), e fruto de muitas experiências, a casa consegue hoje acertar os lotes com muito mais facilidade.

A empresa possui inclusive um departamento de Investigação e Desenvolvimento e investiu forte nestes últimos anos em pessoas: “Somos uma equipa de 20 e estamos muito orgulhosos deles”, referiu o gestor.
Do portefólio Soalheiro constam dez referências diferentes, todas ostentando a palavra Alvarinho no rótulo. A prova que se seguiu foi inolvidável: um misto de várias marcas e alguns vinhos históricos, como o Soalheiro de 1989, em grande forma. Pelo meio, o Nature Pure Terroir de 2016, sem sulfitos, o Granit 2015 (de vinhas a 400 metros) ou o Primeiras Vinhas de 2012. Este, revelou Cerdeira, é proveniente das vinhas mais antigas (cerca de 35 anos), de que uma parte está plantada em pé-franco, como se fazia antes da filoxera.
No almoço que se seguiu, outros vinhos foram provados, mas sobressai uma consistência de qualidade de muito alto nível. Impressionante o que a família Cerdeira tem vindo a fazer aqui.

Adega de Monção
Este é o maior produtor da região, a grande distância de todos os outros. Disse-nos Armando Fontaínhas, presidente da Adega, que esta empresa é responsável pela maior parte dos selos de certificação da sub-região. A Adega de Monção é um dos casos de maior sucesso no mundo cooperativo, apesar de a área média de vinha por associado não chegar sequer ao hectare. Os 1.640 sócios exploram pouco mais de 1.280 hectares!
A marca mais conhecida é a Muralhas de Monção, lote de Alvarinho e Trajadura, mas a prova que nos foi preparada compreendeu os 100% Alvarinho: Deu La Deu, nas suas versões ‘normal’, Reserva, Estagiado e Premium. No primeiro caso, a viagem desceu desde 2017, já no mercado, até 1998. Todos ainda em boa forma, tal como estavam os Reserva/Grande Escolha, de 2016 a 2010. De seguida foram provados dois projectos especiais, como o Terraços de 2016, um Alvarinho que resultou de um trabalho de investigação em biotecnologia das leveduras autóctones, realizado em parceria com a empresa YeastWine; e o Deu la Deu Premium de 2015, fermentado e estagiado em carvalho francês e americano.

Quanto aos ‘Estagiado’, que, como o nome indica, beneficiaram de estágio em madeira, mostraram-se muito bem, mesmo o mais antigo em prova, da colheita de 2000. Dois espumantes Muralhas de Monção (2007 e 2015) completaram a prova.
A apresentação contou com a ajuda dos enólogos da casa, Fernando Moura, há décadas na empresa, e José António Lourenço. Considerando os volumes envolvidos (o colheita Deu la Deu faz 360.000 garrafas!), a qualidade média surpreendeu os presentes, incluindo vários produtores estrangeiros.

Anselmo Mendes
Experimentador nato, Anselmo Mendes decidiu receber os visitantes no seu novo e ambicioso projecto, a Casa da Torre – Quinta da Bemposta, em Monção. Com áreas pouco comuns para a região, esta quinta possui 62 hectares contíguos e 40 hectares de vinha, a grande maioria com Alvarinho. Mas Anselmo confidenciou que vai plantar mais vinha, experimentando outras castas, algumas delas muito pouco conhecidas.
Muito impressionante ainda é o trabalho que está a ser feito na recuperação dos edifícios da quinta, um deles datado do século XIV. Aqui vai funcionar um enoturismo com alojamento e, pasme-se, um Centro de Experiência do Alvarinho. Os vinhos, contudo, continuam a ser vinificados em Melgaço, alguns quilómetros mais a leste, na adega que o produtor e enólogo aí possui, com capacidade para 800.000 litros. Longe vão os tempos em que Anselmo aí vinificou o primeiro vinho, de que resultaram… 2.000 garrafas. Corria então o ano de 1998 e já se percebe o percurso fulgurante até aos dias de hoje.
A prova que se seguiu incidiu sobre as suas marcas mais importantes, 100% Alvarinho, incluindo o Muros Antigos e o Contacto, ambos de 2017.

A prova incluiu 5 vinhos com barrica, um tema que Anselmo tem estudado profundamente desde 1987, quando começou a trabalhar. Passaram assim pela mesa de provas o Muros de Melgaço, Expressões, Curtimenta, Parcela Única e o Tempo. Cada um com a sua personalidade, mas todos em alto nível.
A prova terminou com cinco vinhos experimentais e didácticos, da Casa da Torre de 2017. Anselmo dividiu a vinha em cinco partes, usando sobretudo como elemento diferenciador o tipo de solo. Por lá existem desde aluviões anexos ao rio Gadanha (afluente do Minho) até terraços fluviais e ainda solos franco-arenosos, com predomínio de granito. Apesar de usarem a mesma casta e semelhantes técnicas de vinificação, os vinhos mostraram-se todos diferentes. Uma experiência fascinante, que dará certamente mais uns anos de estudo (e prazer) a um dos enólogos mais experimentadores de Portugal.

 

 

Edição Nº16, Agosto 2018

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