Quando um enólogo coloca a mão em adega alheia, é possível que nasça um vinho improvável. Foi este o desafio que Marta Maia, da alentejana Casa Santa Vitória, e Ricardo Gomes, da empresa duriense Quinta Val Moreira, ambos pertencentes ao grupo hoteleiro Vila Galé, decidiram colocar em marcha, com a finalidade de produzirem dois vinhos diferentes, não só dentro da gama das adegas respectivas, mas também inesperados e apetecíveis para o mercado. Com o aval da empresa, Marta Maia trocou temporariamente o Alentejo pelo Douro, para elaborar um vinho em Val Moreira; já Ricardo Gomes fez o percurso inverso, isto é, rumou ao Alentejo para igual desafio.
Desta troca nasceram os Vinhos Improváveis, um do Douro e outro do Alentejo. São duas edições exclusivas, produzidas em quantidades limitadas, que reflectem a visão pessoal de cada enólogo fora do seu ambiente habitual, celebram a capacidade criativa de ambos e mostram ser possível haver liberdade na interpretação de cada terroir dentro da mesma casa. Cada referência dispõe de 1800 garrafas, sendo estas vendidas em caixas duplas. “Foi um desafio que nos deu muito gozo, numa reinterpretação que nunca tinha sido feita”, salientou Marta Maia. “O objectivo foi fazer dois vinhos que não tivessem nada a ver um com o outro, diferentes, mas ambos prazerosos”, sublinhou Ricardo Gomes.
Durante a festa de lançamento, que decorreu no Hotel Vila Galé Ópera, em Lisboa, foram apresentadas outras três referências do Grupo Vila Galé, o Paço do Curutelo Colheita, da região dos Vinhos Verdes, um novo reserva rosé colheita e o mais recente Touriga Nacional da Casa de Santa Vitória.
Tudo começou em 2023
O projecto surgiu durante a convenção do Grupo Vila Galé, em Fevereiro de 2023, quando Marta Maia e Ricardo Gomes resolveram desafiar-se e transmitir, aos seus superiores, a decisão de trocar de casa e cada um fazer um vinho na adega do outro. O nome Improváveis para a marca surgiu a posteriori, por serem vinhos um pouco fora da caixa e provenientes de duas regiões completamente diferentes.
“Eu nunca tinha trabalhado a sério no Douro, a não ser em estágio de vindima, e o Ricardo também nunca o fez a sério no Alentejo, a não ser como estagiário de vindima”, contou Marta Maia, acrescentando que ambos pretendiam criar coisas diferentes das existentes dentro das respectivas gamas, que contribuíssem “para se falar mais das duas empresas”.
Depois de colocada a sugestão, a administração incentivou-os a irem para a frente com o projecto, “com o desafio de desenvolver o processo com um custo razoável”, revelou Ricardo Gomes. O repto foi aceite, mas foi concretizado com algumas dificuldades.
A ideia de trocar de casa e cada um fazer um vinho na adega do outro surgiu durante a convenção do Grupo Vila Galé, em Fevereiro de 2023
Muitos quilómetros entre vinhas
A primeira foram os muitos quilómetros que ambos tiveram de fazer, em plena vindima: Marta Maia entre o Alentejo e o Douro, e Ricardo Gomes em sentido inverso. “O que fizemos foi uma vinificação diferente da tradicional na casa um do outro”, afirmou, acrescentando que inventou pormenores que não existiam na Quinta Val Moreira, o que envolveu mais trabalho à equipa local. No Alentejo, aconteceu o mesmo. Mas à procura de quê? “De criar um vinho que fosse a imagem daquilo que é o enólogo”, respondeu a enóloga. Ou seja, o vinho que criou no Douro corresponde à sua interpretação da região.
O Val Moreira Improváveis tinto 2023 é feito a partir de uvas apanhadas em vinhas velhas, das quais “nunca se saberão as castas em concreto”, e com base “num processo de vinificação duro, porque incluiu dois dias complicados em termos de recepção de uvas durante a vindima”. Foram vinifcadas em cinco barricas usadas de 500 litros, às quais foi tirado o topo. A fermentação decorreu com uva desengaçada em três e, em duas, com engaço, de cacho inteiro, pisado a pé, processo esse que durou quatro horas por barrica. Segundo Marta Maia, “as uvas estavam muito frias, porque as guardamos durante 24 horas num contentor refrigerado antes do processamento”, o que dificultou o processo.
Após a fermentação, decorreu o estágio, realizado na mesma madeira e já com as barricas tapadas. Este processo deu origem a um vinho mais rústico e com carácter mais duriense do que os tradicionais da Quinta Val Moreira, segundo a opinião de Ricardo Gomes, que, por seu turno, esteve no Alentejo a criar um vinho improvável.
Com os recursos que as adegas tinham, a ideia foi inovar em termos de tipos de fermentação, para criar algo diferente
Vinhos elegantes e um clarete
“Na Casa de Santa Vitória, os vinhos são muito elegantes, desde que a Marta assumiu o projecto. Têm muita personalidade. E eu tentei levar isso a um extremo. O resultado foi um clarete”, conta o enólogo, explicando que a produção ocorreu com base em extracções de início de fermentação que estavam a decorrer na adega da Casa de Santa Vitória, as quais foram submetidas, posteriormente, a um estágio de um ano em barricas usadas, tal como o vinho de Marta Maia no Douro.
“Ou seja, com os recursos que as adegas tinham, porque era preciso concretizar a nossa ideia sem grandes investimentos, a ideia foi inovar em termos de fermentações, para criarmos algo diferente”, esclareceu Ricardo Gomes, que, tal como Marta Maia, manifestou contentamento em relação ao resultado. Por um lado, do Douro, saiu um vinho mais rústico e poderoso, com um carácter regional marcado, sem perder a elegância tradicional dos tintos de Val Moreira; por outro lado, mais a sul, surgiu o Santa Vitória Improváveis 2023, um clarete fresco, mas também com um toque de rusticidade e notas de fruta silvestre, que o tornam apetecível para os comeres da estação quente do ano.
(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)










