Durante mais de cinco gerações, os antepassados de Óscar e Cláudia Quevedo – representantes da quinta geração e que estão, hoje, à frente do projeto –, dedicaram-se ao cultivo da vinha. As primeiras terão sido plantadas em 1889, em Valongo dos Azeites, no concelho de São João da Pesqueira, onde se encontra a sede e a adega desta empresa familiar. Até meados da década de 80 do século passado, produziam uva e vinho a granel, que posteriormente era vendido às grandes companhias exportadoras sediadas em Vila Nova de Gaia. Sobretudo Vinho do Porto.
Ao longo dos anos, a família cultivou 100 hectares de vinha e 25 hectares de olival biológico, legado preservado amiúde. Só em 1993 é que a marca Quevedo foi oficialmente fundada, marcando uma nova era para a família, que começou a engarrafar vinhos do Porto com o próprio rótulo, graças à entrada do país, em 1986, na então Comunidade Económica Europeia (atual União Europeia). “É a União Europeia [UE] que obriga Portugal a alterar a legislação. Uma lei que vem da demarcação da região instituída pelo Marquês de Pombal, em 1776! Portanto, quando Portugal adere à UE, tudo se altera. Aparece um grande grupo de pequenos produtores – nós inclusive –, que muda para sempre a região e está, hoje, a produzir em nome próprio, e a levar o nome do Douro e a marca Vinho do Porto por este mundo fora” afirma Óscar Quevedo.
De facto, este marco histórico traz consigo uma enorme mudança legislativa para a região: o fim do “Entreposto de Gaia”. Até então, qualquer Vinho do Porto destinado à exportação tinha de ser obrigatoriamente armazenado e expedido a partir de Vila Nova de Gaia. Com a nova legislação, os produtores do Douro passaram a poder engarrafar e exportar os vinhos com identidade própria, dando início a toda uma nova fase de independência para muitas casas familiares.
A quinta geração
Foi este sopro de autonomia que impulsionou Óscar e Beatriz Quevedo (pais de Óscar Jr. e Cláudia Quevedo) a fundarem a marca com o próprio nome. Em 1991, a empresa foi constituída e, em 1993, os primeiros vinhos com o rótulo Quevedo chegaram ao mercado, assinalando o princípio de uma nova era de orgulho familiar.
Por conseguinte, atualmente, a empresa é conduzida pela quinta geração da família: Cláudia Quevedo é enóloga e responsável pela produção dos vinhos, enquanto Óscar Quevedo lidera o desenvolvimento internacional da marca. Há cerca de um ano juntou-se, à equipa, Cristina Azevedo, para desenvolver o mercado nacional. “A partir de 2009, comigo a 100% na empresa, continuamos muito esta linha de exportação que, de certa forma, vinha do passado. Com a vinda da Cristina quisemos [re]conquistar o mercado nacional”, refere Óscar Quevedo.
A Quevedo gere, no presente, um património vitícola de cerca de 114 hectares distribuídos por cinco quintas com características geológicas e climáticas distintas. Esta diversidade é a “caixa de ferramentas” da enologia da casa. Quinta Senhora do Rosário, a mais antiga das propriedades da Quevedo e onde se localiza a adega; Quinta Vale D’ Agodinho, excelente para os melhores Portos; Quinta da Trovisca, o campo experimental das novas variedades ou processos de viticultura; Quinta da Valeira, com vinhas a uma altitude de cerca de 500 metros; Quinta da Alegria, com vinha e pomar, e uma frente ribeirinha com mais de 700 metros de comprimento. Sobre esta última, acresce o facto de estar dividida pelo caminho-de-ferro que liga o Porto ao Pocinho.
Produção própria e viticultores selecionados
O portefólio vínico é extenso, sobretudo no que diz respeito aos vinhos do Porto, génese da empresa, com colheitas de praticamente todos os anos e de variadíssimos estilos – Tawny, Ruby, Crusted, LBV, Colheita, Vintage –, graças a um enorme espólio de inegável qualidade. Os vinhos DOC Douro, embora sejam uma aposta mais recente, apresentam uma imagem renovada e um perfil moderno, como Óscar Quevedo passa a explicar: “os vinhos que produzimos são todos de produção própria ou de viticultores selecionados da zona de São João da Pesqueira. Queremos produzir vinhos mais frescos, com menos extração, menos álcool e tanino”. Vinhos que se enquadram na filosofia friendology forever, e que a empresa defende: “é, basicamente, um estado de espírito. Achamos que o convívio, a amizade, as portas abertas são uma forma de estar. E o vinho sabe muito melhor com companhia. E com partilha!”
A gama DOC douro está distribuída pelas referências Truques, nas versões branco, tinto e rosé, são vinhos frescos e não são submetidos a barrica; Alegra, em branco e tinto, traduzidos nos reserva da casa, com barrica, mas num perfil de grande equilíbrio e frescura; a gama Q.Lab, que consiste em vinhos mais experimentais, como o extraordinário branco 100% Folgazão, um curtimenta feito a partir da casta Gouveio ou um inusitado e delicioso clarete 100% Tinta Amarela e, finalmente, os Grande Reserva Q, um branco e um tinto com um perfil duriense mais clássico.
A empresa foi constituída em 1991 e, em 1993, chegaram ao mercado os primeiros vinhos com o rótulo Quevedo
A joia da coroa
Todos os DOC Douro estiveram disponíveis ao longo do almoço servido na Quevedo Lodge, espaço da Quevedo Wines instalado numa antiga tanoaria convertida em centro de visitas e eventos, localizado em Vila Nova de Gaia, onde é possível provar todos os vinhos, mergulhar em degustações e harmonizações, e participar em workshops. A refeição preparada com produtos locais pelo restaurante Toca da Raposa, de São João da Pesqueira, onde a comida tradicional prima pela excelência, foi irrepreensível. Tratou-se de um almoço que serviu de mote para o lançamento de um vinho muito especial, o Quevedo White Colheita 1986, produzido no referido ano que tanta simbologia trouxe à região do Douro; evoluiu lentamente em casco de castanho, ganhando concentração, complexidade aromática e uma textura envolvente.
Cláudia Quevedo foi quem acompanhou esta “joia da coroa” de perto, com o propósito de assegurar a sua estabilidade e preservar o equilíbrio entre frescura e maturidade. Com o conhecimento de quem o viu evoluir ao longo do tempo, a enóloga indicou o momento certo para o revelar. “Este vinho é muito especial para mim: tinha 10 anos quando foi feito e acompanhá-lo ao longo do tempo deu-lhe ainda mais significado. Impressiona pela riqueza aromática, pelo volume que preenche a boca e, sobretudo, pela forma como permanece – longo, persistente – muito depois de ser provado. É um vinho que pede tempo, para ser apreciado com calma”, explica Cláudia Quevedo, com evidente comoção. Um vinho que é uma homenagem ao ano da “independência” da família, além de que preserva e enobrece o legado de séculos de um produtor familiar.
(Artigo publicado na edição de Abril de 2026)













