A herança de Michel Rolland: entre o vinho limpo e o palato globalizado

Michel Rolland (1947-2026)

Foi, sem sombra de dúvida, o grande arquiteto da enologia contemporânea, o homem que dividiu o mundo do vinho em duas fações de contornos quase religiosos. De um lado, os acérrimos defensores que o percecionaram como o salvador iluminado portador da higiene às trevas das adegas sujas. Do outro, os detratores que o diabolizaram como o grande destruidor da alma do “terroir” e o mercenário da padronização.

Hoje, afastados do calor das paixões mais imediatas que marcaram o início do milénio, torna-se imperativo separar o homem da sua caricatura pública e a ciência enológica do panfleto ideológico.

O homem e a lente

Para dissecarmos o “fenómeno Rolland”, somos obrigados a recuar ao abalo provocado por Mondovino, lançado em 2004. Realizado pelo luso-americano Jonathan Nossiter com uma câmara numa mão trémula. Este filme, nomeado para a Palma de Ouro, abalou as fundações da indústria. Mas sejamos claros, a película tratou-se de um manifesto cinematográfico e de um panfleto ideológico quase visceral contra a globalização cultural, usando o vinho como metáfora.

A lente cirúrgica do realizador transformou o consultor no “Darth Vader” da enologia. Rolland raramente pisa a terra no filme e é cinematografado, quase em exclusivo, no banco de trás de um carro com motorista, rindo e fumando charutos enquanto salta de propriedade em propriedade, consolidando a imagem do burocrata mercenário. A sua ordem repetida por telemóvel para “micro-oxigenar” os vinhos tornou-se o símbolo da manipulação laboratorial. A sua arrogância imperial ficou selada quando desvalorizou os críticos com sorrisos condescendentes.

Nossiter teve o mérito de iniciar um debate sobre a perda de tipicidade, mas a sua obra pecou por omissão. A realidade que o filme escondeu é que o vinho tradicional europeu estava frequentemente minado por defeitos bacterianos e outros praticamente intoleráveis nos dias de hoje: a acidez agressiva, os taninos verdes e a temível brettanomyces (que se traduz num odor a estábulo). Na altura eram romanticamente indulgenciados como produtos do “caráter local”. Rolland não inventou uma “fórmula do mal”, mas erradicou estes defeitos, trazendo higiene e ciência às adegas que viviam ancoradas no romantismo de vinhos difíceis. Técnicas diabolizadas, como a micro-oxigenação, salvaram muitos produtores da falência em anos desastrosos.

O A-B-C de Peynaud

Para compreender Michel Rolland, temos de ler a cartilha do seu professor, Émile Peynaud, o verdadeiro “pai” da enologia moderna. Se Peynaud foi o profeta que separou a idade média da idade moderna no vinho, provando que as uvas precisavam de estar fenolicamente maduras e desmistificando a fermentação malolática, Rolland foi o seu mensageiro global. Este assimilou a lição de Peynaud e transformou-a no princípio basilar dos vinhos redondos e agradáveis tornando-a na sua inconfundível assinatura enológica e estilística.

Na Argentina, Rolland encontrou a sua tela em branco. Livre das leis europeias e de adegas infetadas, construiu uma verdadeira utopia enológica, em Mendoza com o projeto “Clos de los Siete”, iniciado no final da década de 1990. Dispondo de 850 hectares a grande altitude, que garantiam uma maturação fenólica perfeita, construiu adegas quase à imagem de blocos operatórios, com higiene imaculada e controlo térmico milimétrico.

Misturou a rústica casta Malbec argentina com a Merlot, Cabernet Sauvignon, Syrah e Petit Verdot. O resultado foi um verdadeiro fenómeno global de vendas ao apresentar um vinho polido e sem arestas, que os detratores acusaram de ter “sotaque argentino, mas que falava francês”.

A “Parkerização” e a guerra em Portugal

Seria ingénuo aplaudir Rolland sem escrutinar a sua hegemonia. No livro de 2012, “Le Gourou du Vin”, Rolland descarta a acusação de padronização, ignorando o seu vínculo estilístico e enológico com o crítico Robert Parker.

Este ditava os preços globais através do seu sistema de pontuação, premiando vinhos opulentos e fortemente amadeirados. Rolland desenhou exatamente esse perfil para os produtores que precisavam dessas notas. Ao forçar a sobrematuração e ao usar proporções massivas de barricas de carvalho novo francês mascarou a tipicidade sob camadas de baunilha, café e tosta.

O resultado foi a “Parkerização”, na qual os vinhos, de vindimas tardias e baixa acidez do Novo Mundo, sabiam exatamente ao mesmo das de um produtor europeu. A sua obstinação dogmática revelou-se ainda no ataque feroz ao movimento dos vinhos naturais, rotulando-os de instáveis resultado de pura incompetência mascarada de marketing.

Em Portugal, a sua intervenção também se manifestou em várias regiões, mas foi no Alentejo, no final da década de 1990 e início de 2000, que ela foi mais cirúrgica.

Rolland prestou consultoria à Fundação Eugénio de Almeida e em especial na referência Pêra Manca. A sua chegada gerou uma verdadeira guerra civil entre críticos “Rollandistas” fascinados pela modernidade e puristas aterrorizados com a descaracterização de um símbolo pátrio.

O legado de um enólogo mitológico

Michel Rolland foi um técnico dotado com uma fé cega de que a ciência corrigiria a natureza. A sua influência saturou o mercado com vinhos pesados e exaustivos. No entanto, temos de reconhecer que ele limpou o mundo vitivinícola, retirando as adegas do quase obscurantismo medieval. O nosso copo, hoje, é indiscutivelmente mais limpo e sedoso por causa das suas premissas enológicas. No entanto, à custa das suas extrações e excessos de madeira, aprendemos que o verdadeiro fascínio do vinho reside muitas vezes na sua imperfeição regional, no bater de coração irregular de um “terroir” que recusa submeter-se à ditadura da perfeição globalizada.

Michel Rolland partiu, mas as suas lições, os seus gloriosos acertos e os seus dolorosos erros, continuarão a definir as vindimas das próximas gerações.

P.P.

 

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