Editorial: Os amigos do vinho

Editorial da edição nrº 114 (Outubro de 2026)

 

Imaginem um restaurante com todas as mesas cheias. Com grupos de amigos, com casais, com pessoas de idades diferentes, de nacionalidades diferentes. E em todas as mesas bebem vinho. Mesmo naquelas com duas pessoas, vê-se uma garrafa, ou um frapé ao lado, e dois copos. You may say I’m a dreamer. E, no entanto, já vi isto acontecer.

Estive com uns amigos em Vila Nova de Milfontes, onde fomos jantar a um restaurante típico e bem conhecido desde 1990. Estou a falar da Tasca do Celso. Éramos seis. Comemos várias entradas e partilhámos pratos. A casa tem uma grande garrafeira, mas o que mais me impressionou foi a forma como, organicamente, o vinho é envolvido no serviço.

O escanção, que julgo ser também o chefe de sala, era antes de tudo um verdadeiro anfitrião: conversava com os clientes em cada mesa de maneira descontraída e afável, mostrava-se disponível para ajudar na escolha de vinhos, com convicção, mas sem superioridade. Conseguia criar uma relação de confiança, quase de cumplicidade, com quem estava à mesa. Recebeu-nos logo com um Cava, depois sugeriu alguns brancos e tintos, praticamente um vinho para cada prato, e um Madeira no final. Percebendo que gostávamos de vinho, trouxe duas garrafas às cegas. Tudo servido em bons copos, adequados para cada vinho.

Observei as mesas à minha volta, umas com estrangeiros, outras com portugueses. Todos tinham vinho nos copos. A certa altura fui ver a outra sala. A mesma coisa: cheia de gente e todos com vinho. Por momentos, pensei que a crise não tinha chegado até aqui. Lembrei-me de alguns restaurantes em Lisboa e noutras localidades do país, até em zonas vitivinícolas, onde se via gente a acompanhar a refeição com água ou imperiais.

 

Uma casa amiga do vinho é onde existe curadoria humana. Vai para além de uma extensa carta de vinhos e preços adequados. Tem a ver com a forma como o vinho chega à mesa e pela relação de confiança que se cria à sua volta

 

No final, esperava uma conta bem alta. Pagámos apenas 50 euros por pessoa. Um preço mais do que razoável por tudo o que comemos e bebemos, pela qualidade da comida e dos vinhos e, sobretudo, pelo que sentimos à mesa e pelo serviço.

O tema dos preços dos vinhos na restauração é polarizante. Não pretendo entrar por esta via, porque o exercício dos preços tem de ser feito com uma calculadora na mão, contemplando todas as variáveis, caso a caso. Não me cabe dizer aos proprietários de restaurantes como devem gerir o seu negócio. O mercado encarrega-se de corrigir os erros: ou os vinhos não vão rodar, ou o restaurante não consegue cobrir os custos e criar lucro. Por isso, uns duram décadas e outros fecham as portas quando a moda passa. E também por isso que admiro quem consegue encontrar um equilíbrio nos preços, para que o restaurante seja sustentável e o cliente não se sinta roubado.

Ora, se este restaurante se considera um amigo do vinho, quais não o são? Novamente, a questão não se resume apenas ao preço. Diria que são os que não se interessam pelo vinho como componente gastronómica, por preguiça ou falta de critério. Aqueles que trabalham sempre com quatro ou cinco marcas e nem sequer experimentam algo novo, porque “em equipa que ganha não se mexe”. Ou, pelo contrário, os que estão prontos a tirar um vinho da carta, só porque alguém ofereceu outro cinco cêntimos mais barato.

Oxalá haja mais restaurantes onde exista curadoria humana. Pois o segredo vai muito para além de uma extensa carta de vinhos e preços adequados. É preciso conhecer a casa, conhecer a comida, conhecer os clientes, ou rapidamente perceber o que procuram e ter vontade genuína de arranjar o vinho certo para esta ou aquela mesa. É mais do que serviço, é verdadeira hospitalidade vínica. V.Z.

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