Para Maria d’Assunção Osório de Vasconcelos, da Távora-Varosa, e Jorge Jardim Gonçalves, da Madeira, o cultivo da vinha fazia parte da tradição familiar. Por influência destas memórias, na propriedade que adquiriram em Galamares, a Quinta da Azenha, plantaram também vinha, em 2000. As castas foram escolhidas ao gosto pessoal da família: Pinot Noir e Merlot. Inicialmente pensada como elemento do jardim, e não com o propósito de produzir vinho para comercialização, a vinha acabou, como tantas vezes acontece, por dar origem a um negócio e a uma marca: Infinitude.
Mas vamos por partes. Os primeiros vinhos foram produzidos a partir de 2010, ainda exclusivamente para consumo da família. Em 2017, a Infinitude apresentou as suas primeiras referências no mercado. Dos cinco filhos do casal, o mais novo, Rodrigo Jardim, acompanha o projecto desde o início.
Com o tempo, o projecto foi amadurecendo e tornou-se evidente a necessidade de integrar uma pessoa com experiência nas áreas da enologia e da viticultura, a tempo inteiro, que assumisse responsabilidades e contribuísse para a definição da sua estratégia e posicionamento. Em 2024, João Lino assumiu as funções de director-geral e enólogo, dando um novo impulso à profissionalização do projecto.
No ano seguinte, a produção passou de cerca de 5000 para 16 000 garrafas. “Sempre houve mais uva, mas nunca se engarrafou tudo o que se produzia”, explica João Lino, adiantando que, este ano, poderão chegar às 40 000 garrafas. O aumento da escala é, para o director-geral, também uma forma de ganhar visibilidade: “tem que haver alguma massa crítica para as pessoas começarem a conhecer a marca.” O objectivo é que essa notoriedade chegue ao consumidor, para que passe a procurar os vinhos da Infinitude: “eventualmente, o momento-chave é quando o consumidor final começar a pedir o nosso vinho, não só a restauração.”

Devoção a castas francesas
As cinco vinhas representam pouco mais de cinco hectares, a maior parte dos quais ocupados por castas estrangeiras. E é aqui que se impõe uma breve digressão histórica, pois existe a pressuposição de a presença de variedades francesas na zona de Sintra e Colares ser mais antiga do que se pensa.
O historiador Visconde de Juromenha, na sua obra Cintra pinturesca, ou Memória descritiva das villas de Cintra, Colares e seus arredores, de 1838, refere a intenção de D. Afonso III de promover a cultura da vinha, em 1255, na região de Sintra e Colares, numa altura em que o rei administrava e reorganizava activamente o património régio desta zona. Juromenha conjectura que, nessa ocasião, o monarca poderá ter introduzido cepas originárias de França.
Embora não possa ser dada como comprovada, a hipótese encontra algum fundamento indirecto no contexto histórico. Antes de subir ao trono, D. Afonso III viveu vários anos na corte francesa e a sua primeira mulher, D. Matilde II, era uma aristocrata pertencente à linhagem dos reis de França. O seu reinado assim ficou marcado pela influência francesa, o que torna plausível a possibilidade de castas oriundas daquele país terem chegado à região ainda no século XIII.
Voltando às vinhas, tudo começou na Quinta da Azenha. São cerca de dois hectares, plantados em chão rijo, onde predominam Pinot Noir e Merlot. Seguiu-se a Quinta do Torrado, não muito longe dali, com cerca de 2,5 hectares plantados em 2019. Para além de Pinot Noir e Merlot, a parcela inclui ainda Riesling, Sémillon e Chardonnay. Com apenas meio hectare, a vinha do Casalinho, plantada em 2000 apenas com Merlot, está rodeada por pinheiros, sobreiros, cedros e eucaliptos. A uva daqui, com um perfil mais fresco, é destinada à produção de rosé.
Na encosta da Serra de Sintra fica a pequena vinha da Boca da Mata, na aldeia do Penedo, a cerca de 100 metros de altitude. É a mais elevada de todas, está em agricultura biológica e é exclusivamente plantada com a casta Sémillon.
Praia seca de Ramisco e Malvasia
E, por fim, há um hectare de chão de areia, com Malvasia e Ramisco, a menos de um quilómetro do mar. O terreno foi adquirido precisamente com a finalidade de plantar estas castas e incluir, no portefólio, uma referência que represente a cultura vitivinícola da região.
A vinha passou a ser conhecida como ‘Praia Seca’, nome dado pelos filhos de Rodrigo Jardim, que viam a areia sem o mar. Foi plantada em 2020, de forma tradicional, em pé-franco, abrindo-se valas com cerca de cinco metros de profundidade. Um processo trabalhoso, que exige tempo até as videiras se estabelecerem e começarem a produzir.
Em 2024, aqui fizeram a primeira vindima, mas a produção foi ainda muito reduzida e as plantas apresentavam bastante heterogeneidade. “No ano passado, só fizemos cerca de uma tonelada por hectare. Mas sinto que este será um ano de maior produção”, afirma João Lino.
A produção em modo biológico aqui não funciona. O director-geral refere-se à praga do pulgão que afecta as folhas da videira: “se fosse em biológico, não conseguíamos dar a volta, quase que tínhamos de estar aqui dia sim, dia não a tratar a vinha”. Outra dificuldade são os pinheiros à volta da parcela, cujas raízes prejudicam as videiras devido à competição por água e nutrientes. Nas vinhas novas, plantadas em solo de areia, esta disputa deixa as videiras em desvantagem. A solução passa pela poda regular das raízes dos pinheiros, de forma a proteger a vinha.
Para ser sustentável, a vinha tem de produzir o máximo possível, desde que não comprometa a qualidade dos valores da marca
Qualidade sustentável
Dada a dimensão e a topografia das vinhas, quase todos os trabalhos de viticultura na Infinitude são manuais, com excepção da mobilização do solo e do corte da erva. No que toca à produção de vinho, ambição e pragmatismo não são conceitos contraditórios; pelo contrário, complementam-se. É isso mesmo que ressalta da conversa com João Lino e da prova dos vinhos.
Na viticultura, não seguem uma abordagem fundamentalista, privilegiando antes uma visão pragmática da sustentabilidade, como explica o enólogo: “a qualidade tem de ser top. Mas a produção tem de ser sustentável. Tem de se pagar, tem de criar emprego. E tem de haver uva. Porque, se estamos a tratar a vinha, a gastar gasóleo, produtos fitossanitários, mão de obra e de repente não sai uva… Então nem é ambiental.”
Há vinhas que produzem 12 toneladas por hectare, outras produzem oito, e as do chão de areia ainda nem chegam a duas toneladas por hectare. A produtividade varia bastante em função das características de cada vinha, mas a lógica é a mesma em todas: “para ser sustentável, a vinha tem de produzir o máximo possível, desde que não comprometa a qualidade e os valores da marca.”
O momento-chave é quando o consumidor final começar a pedir o nosso vinho
Adega à medida
No início do projecto, os vinhos eram vinificados na Adega Regional de Colares, sob a orientação enológica de Francisco Figueiredo. Mais tarde, porém, tornou-se evidente a necessidade de dispor de uma adega própria, que permitisse maior controlo sobre todo o processo de vinificação.
Como não havia espaço na propriedade para construir uma nova adega, e a burocracia na região de Sintra não facilitaria o processo, aproveitaram duas garagens, que foram unidas e devidamente equipadas. Nasceu, assim, uma adega à medida do projecto, com capacidade para vinificar 50 000 litros por ano, número mais do que suficiente para a meta de 40 000 garrafas previstas para este ano. Privilegiou-se a funcionalidade em detrimento da beleza. Os depósitos foram dimensionados para o espaço e dispostos de forma a permitir “que uma pessoa sozinha, sem a ajuda de outra, consiga facilmente trabalhar aqui”.
No fundo, o Infinitude é um projecto garagista requintado, já com alguma dimensão que, agora, exige uma estratégia comercial à altura.
De Sintra, de Colares e os Indie
A estratégia assenta em três gamas de vinhos bem definidas. A primeira é a Infinitude, com um conjunto alargado de referências, todas provenientes de chão rijo. São vinhos de castas internacionais que “espelham muito bem a região de Sintra” apresentados em blends ou, nos topos de gama, em versões monovarietais. São bases da marca que abrangem diferentes perfis de consumidor.
A segunda, com raízes na tradição vitivinícola da região, é dedicada aos vinhos DOC Colares produzidos a partir de Ramisco e Malvasia em chão de areia. A terceira reúne referências ‘Indie’: vinhos independentes, de capricho e fora da caixa, que não têm de seguir as regras das linhas essenciais da marca, “mas são coisas que achamos que podem fazer sentido”, explica João Lino.
Entre chão rijo e chão de areia, tradição e experimentação, abre-se uma infinitude de perspectivas, não fosse este, afinal, o nome da marca.
(Artigo lançado na edição de Setembro de 2026)














