Cooperar é uma boa ideia. Mesmo os biólogos, seguindo as ideias de Darwin sobre a selecção natural e a competição, com o propósito de perpetuar os próprios genes, não deixam de enfatizar que muitas espécies passam 1% do seu tempo nessa competição, enquanto os outros 99% servem para assegurar colectivamente a segurança e o alimento do grupo. Cooperar significa que o grupo no seu conjunto é mais forte do que os seus indivíduos separados ou somados. Significa que em conjunto se podem assegurar recursos que podem ser usados pelo grupo, mas que cada um dos membros dificilmente conseguiria adquirir sozinho. Um exemplo simples: uma linha de engarrafamento privada só se justifica para um produtor que faça pelo menos 300 000 garrafas de vinho anualmente. Verifique na caixa abaixo a dimensão média dos viticultores, para perceber que esse é um número muito longínquo.
Desde sempre, os grupos cooperaram. Cooperar não é uma ideia de esquerda nem de direita. É apenas uma boa ideia. Uma ideia inevitável. No mundo do vinho, a primeira cooperativa registada é a Adega Regional de Colares, fundada em 1931. Em Colares, a ideia foi mais além do que unir forças, embora a especificidade do sítio bem o exigisse. Micro-terroirs e nano-produções tornavam imperativa a cooperação. Ninguém consegue fazer vinho de forma competente a partir de 15 quilos de uvas, e ainda hoje, passados quase 100 anos, é essa a quantidade que alguns produtores entregam. A adega teve, com base na lei, o direito a recolher toda a produção da DOC (antes de se designar DOC) e o dever de assegurar todas as obrigações ligadas à manutenção dos cânones ancestrais: Ramisco/Malvasia, pé-franco, chão de areia. Só assim os vinhos de Colares sobreviveram até ao presente, quando, a pouco e pouco, voltam a estar na moda, ao mesmo tempo que a sua qualidade, apoiada pela competência e sabedoria que a adega soube manter, vai melhorando a olhos vistos.
Porém, nem todas as cooperativas desempenharam este papel. Muitas outras, espalhadas por grande parte do país vitícola, foram fundadas na década de 1950. Eu mesmo, diga-se de passagem, nasci em frente a uma adega cooperativa, a das Cortes (Leiria), e lembro-me bem de ficar à janela a ver chegar as uvas, ou de acompanhar os trabalhos de recepção, há muitos, muitos anos. Entretanto, fechou e já foi demolida. Fechou, porque, à semelhança de outras cooperativas, entraram em crise. À medida que o mundo português do vinho se modernizava e melhorava em todos os capítulos, muitas adegas foram ficando para trás. Cada uma terá a sua história, no entanto acredito que a tentação dos proprietários de vinhas desenvolverem as suas próprias marcas tirou muitas uvas de qualidade das adegas. Alguns dos cooperantes passaram a guardar as melhores uvas, escoando o resto da produção para a cooperativa. Com as piores massas vínicas à disposição, e com maiores dificuldades de gestão e competição na contratação de pessoal qualificado, fazer bons vinhos tornou-se uma missão mais árdua.
Muitas vezes, são vinhos de excelente relação qualidade/preço, perfeitos para pedir num restaurante
Entrada em cena
A boa ideia continuou boa e algumas adegas mantiveram a chama acesa. Muitas cooperativas estão, agora, a festejar o 75º aniversário, uma idade bem bonita. Recordemos o Baron Philippe de Rothschild, o único que conseguiu promover um château da classificação de 1855 de deuxième cru para premier cru, com o seu Mouton-Rothschild, promovido em 1973 (aliás, péssima colheita, mas muito procurada, graças ao rótulo do Picasso); ele disse: “o mais difícil são os primeiros 100 anos.” As cooperativas estão a chegar lá. Portanto, está na altura de estar sob a ribalta.
Em palco, estiveram algumas das melhores. Quem segue os prémios anuais da Revista Grandes Escolhas sabe bem quais são. Participei muitas vezes nas reuniões onde esses prémios eram decididos e sei bem que a escolha rodeava, na maioria das vezes, as mesmas candidatas. Contudo, há alguns anos, o cenário mudou. Começaram a aparecer outras cooperativas a trabalhar muito bem e a entregar vinhos de grande qualidade, em todos os segmentos de preço. Os prémios começaram a diversificar. E ainda bem.
Exemplo das primeiras? A Adega Cooperativa de Borba, constantemente na vanguarda. Segundo Óscar Gato, administrador responsável pela enologia, poderiam ter enviado qualquer um de seis vinhos para esta prova de tintos topos de gama. Exemplo das segundas: Adega Cooperativa de São Mamede da Ventosa. Trata-se do maior produtor de vinho do país, com cerca de 20 milhões de litros anuais, e que continua a focar-se no granel. Todavia, desde 2022, sob a batuta da direcção de Nuno Silva, transformou-se. Já vende cinco milhões de litros embalados e tem planos para aumentar a quota. Além disso, a enologia de António Ventura assegura a qualidade de topo, com vinhos ambiciosos e bem definidos.
Esta prova que concebi e executei tem um pressuposto que pretendi demonstrar. Não vamos tapar o sol com a peneira, pois estas adegas mantêm o estigma: se é de cooperativa, o vinho não pode ser bom. Mas urge ultrapassá-lo. Ora, sempre vi qualidade em crescendo nos vinhos produzidos nestas cooperativas, em particular nos seus topos de gama, graças, também, ao facto de terem uma quantidade enorme de massas vínicas à disposição. Muitas vezes, são vinhos de excelente relação qualidade/preço, perfeitos para pedir num restaurante, onde o markup nos afasta dos rótulos da moda. Sejamos nós consumidores a definir o rumo do mercado.
Números
A dimensão das cooperativas em número de associados activos e total de hectares de vinha controlados:
Adega Regional de Colares:12 associados • 14 hectares
Adega Cooperativa de Borba: 220 associados • 2200 hectares
Adega Cooperativa de Cantanhede: 600 associados • 1000 hectares
Adega Cooperativa do Cartaxo: 160 associados • 820 hectares
Adega Cooperativa de Dois Portos: 100 associados • 420 hectares
Adega Cooperativa de Mangualde: 240 associados • 270 hectares
Adega Cooperativa de Penalva do Castelo: 1000 associados • 1200 hectares
Adega Cooperativa de Santo Isidro de Pegões: 100 associados • 1000 hectares
Adega Cooperativa de São Mamede da Ventosa: 400 associados • 1800 hectares
Adega Cooperativa de Silgueiros: 500 associados • 600 hectares
Adega Cooperativa da Vidigueira, Cuba e Alvito: 236 associados • 1200 hectares
CARMIM: 400 associados • 3000 hectares
(Artigo publicado na edição de Setembro de 2026)
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