QUINTA DOS FRADES: Postal ilustrado do Douro

A história da Quinta dos Frades funde-se com a própria história do Douro, tendo sido, desde logo, incluída nas Demarcações do Douro, realizadas entre 1757 e 1761, e levadas a cabo pela então Companhia da Agricultura dos Vinhos do Alto Douro. A quinta possui, inclusive, um marco Pombalino classificado como IIP (Imóvel de Interesse Público) muito bem conservado. Está associada, ainda, com a afirmação da própria freguesia da Folgosa do Douro. Por isso, lhe chamaram, em tempos, a Quinta da Folgosa e, ainda hoje, os populares a designam de “universidade dos grandes homens da Folgosa”.

A propriedade está a caminho dos oito séculos de história. As origens remontam ao século XIII, aquando da sua doação aos monges do Mosteiro de Santa Maria de Salzedas, em 1256. Administrada durante séculos pelos monges, Jerónimo de Almeida Brandão e Souza, 1.º barão da Folgosa, arrematou-a em hasta pública em 1841. A Quinta dos Frades é, sem sombra de dúvida, uma das maiores e mais belas propriedades do Douro Vinhateiro. “A beleza é a única coisa preciosa na vida. É difícil encontrá-la, mas quem consegue descobre tudo”, disse um dia Charles Chaplin.

Em 1941, o Comendador Delfim Ferreira descobriu-a e logo não tardou em adquirir esta propriedade duriense. Foi um homem notável, um importante industrial e impulsionador da economia portuguesa no século XX, que investiu em fábricas têxteis e na produção de energia eléctrica, tendo fundado, inclusive, em 1953, a Hidro Eléctrica do Douro. Homem de visão, criou e deixou um imenso património, que incluía a icónica Casa de Serralves, no Porto, onde, aliás, vivia, e ordenou a construção do emblemático hotel Infante Sagres situado na cidade ‘Invicta’. Os descendentes continuaram a investir em várias áreas de negócio, sendo a mais notória a dos sabonetes de luxo, bem conhecida em todo o mundo, a Ach. Brito.

 

 

Quinta dos Frades
Diogo Lopes e Aquiles de Brito

 

20 hectares de vinha centenária

“Sempre que passava naquele troço da EN 222 o mais normal era virar-me para o pendura do dia e repetir-me: ‘Olha para esta propriedade incrível, a Quinta dos Frades. Um património de vinhas velhas brutal, quilómetros junto ao rio, exposições diversas, uma história incrível. Uma das grandes quintas do Douro. E um dia fazer vinhos aqui? Um sonho!’, confessa o enólogo Diogo Lopes. Em 2023, o sonho tornou-se realidade. “Conheço bem a Quinta dos Frades, onde o mestre Anselmo Mendes está há muitos anos. Acompanhei-o lá muitas vezes, nas suas incursões de trabalho e ficava deliciado com os vinhos que provávamos”, continua.

Diogo Lopes afirma que se trata “de uma das mais importantes e imponentes propriedades do Douro” e é conhecida “pelo seu potencial para fazer vinhos grandiosos. A fórmula vencedora é simples e única: detém um dos mais extensos patrimónios de vinha velha do Douro, com 20 hectares e mais de 100 anos”. Esta mancha específica é constituída por mais de 20 variedades tradicionais, originando field blends, expressão muito associada à viticultura duriense.

A presença da Touriga Francesa destaca-se nas vinhas velhas como a grande casta do Douro, adaptada tanto a vinhos de mesa, como a fortificados. Algumas das dezenas de variedades dominantes são Touriga Nacional, Tinta Roriz, Touriga Francesa, Tinta Branca, Tinta Amarela, Tinta Carvalha, Donzelinho e Rabigato. Já a exposição das vinhas, a nascente e a poente, é determinante para a obtenção de equilíbrio nos diferentes anos agrícolas, conferindo aos vinhos uma variedade de aromas, sabores e estrutura que garantem a singularidade da produção da Quinta dos Frades. Diogo Lopes acrescenta a relevância da “exposição Norte, os lagares tradicionais de granito, a frente de rio. Enfim, uma incrível classificação 100% vinhas de Letra A”.

“Com o convite da família proprietária para assumir a enologia, em parceria com Anselmo Mendes, concretiza-se, então, um sonho antigo, de acompanhar o meu grande mestre e integrar uma equipa e propriedade tão especial. E agora, mãos à obra, porque numa quinta com este percurso a responsabilidade é grande. É para continuar a fazer história”, afirma Diogo Lopes.

A aquisição da Quinta dos Frades resultou num processo de reabilitação, modernização de infraestruturas de produção e de lazer. A começar pela vinha, cujo método de plantação em declive livre substituiu as tradicionais vinhas em socalcos murados.

 

A Quinta do Castelo

Em 1941, o Comendador Delfim Ferreira adquiriu não só a Quinta dos Frades, mas também a Quinta do Castelo. Com uma forte reputação centenária, marcada pela actividade agrícola, em particular pela produção de vinhos e azeites, esta propriedade localizada em Santa Marta de Penaguião, na sub-região do Cima Corgo, tem 43 hectares, dos quais 35 estão ocupados por vinha, com um património de castas tradicionais durienses, brancas e tintas.

Evidencia um terroir de altitude e proporciona condições de maturação mais lenta, derivadas da amplitude térmica e da diversidade de exposições. Estes dois factores potenciam a expressão de vinhos marcados por elegância, frescura, precisão e grande equilíbrio. Conhecendo nós Anselmo Mendes e Diogo Lopes, óbvio se torna que, desde logo, a Quinta do Castelo foi, e tem vindo a ser, afinada, sobretudo para a produção de vinhos brancos, e alguns tintos, é certo, marcados pela pureza aromática e pela acidez natural.

No fundo, pretende-se um complemento aos vinhos da Quinta dos Frades, que se diferenciam pela estrutura, profundidade e complexidade, em expressão de um terroir marcado por field blends durienses de vinhas velhas e parcelas centenárias.

Quinta dos Frades

 

A Quinta dos Frades “detém um dos mais extensos patrimónios de vinha velha do Douro, com 20 hectares e mais de 100 anos”, afirma o enólogo Diogo Lopes

 

As granjas monásticas e o solar

E foram precisamente esse terroir, essas parcelas centenárias, essas vinhas velhas, esses declives acentuados, capazes de causar vertigem às gentes mais urbanas, que Aquiles de Brito, bisneto do fundador da Quinta dos Frades e responsável da família pelo negócio do vinho, e Diogo Lopes nos deram a conhecer num passeio pela propriedade.

Subimos até ao Marco Pombalino do século XVIII, a partir do qual pudemos desfrutar da vista deslumbrante sobre as vinhas e o Douro; subimos mais um pouco até ao mirante em forma de castelo, mandado construir pelo Barão de Folgosa. Passámos pelas matas plantadas pelos monges do Mosteiro de Salzedas – as granjas monásticas, como é o caso da Quinta dos Frades, possuíam todos os recursos para serem autossuficientes. Parámos na lindíssima Casa de Chá desenvolvida entre 1943 e 1945, de acordo com o projeto da autoria do arquitecto Rogério de Azevedo, e localizada num ponto estratégico da propriedade, proporcionando uma vista panorâmica sobre a paisagem e o rio em especial.

Seguimos caminho até ao jardim do solar projetado por Jacinto de Mattos, um dos maiores jardineiros paisagistas portugueses da primeira metade do século XX. Trata-se de um jardim ao estilo romântico italiano, que se apresenta a partir da escadaria de granito de acesso ao solar, com canteiros forrados a azulejos, bancos em granito, sebes de buxo e esculturas de Soares dos Reis de finais do século XIX.

A referida escadaria em granito permite o acesso ao solar da Quinta dos Frades, o qual data de meados do século XIX e onde outrora esteve implantado o edifício habitacional destinado aos Monges de Salzedas.

Quinta dos Frades

 

São seis os novos vinhos que assinalam um dos momentos mais relevantes do percurso recente da propriedade

 

Sexteto de vinhos e de rótulos

Sob o tecto de madeira da sala, composta por mesa e cadeiras senhoriais, foi provado o que de novo foi feito, por dentro, e por fora da garrafa, que os olhos também bebem. O enfoque esteve na apresentação da nova imagem institucional e da nova gama de vinhos da Quinta dos Frades. Foram seis novos rótulos e seis novos vinhos já disponíveis no mercado, os quais assinalam um dos momentos mais relevantes do percurso recente da propriedade.

O lançamento marca a conclusão de um processo de renovação, que teve início em 2023, desencadeado pela família proprietária, com o objectivo de reforçar a identidade de uma das mais antigas quintas do Douro. Paralelamente, foi feito o reforço do posicionamento da marca através da reformulação da identidade visual, dos rótulos e da própria arquitectura da gama. Esta mudança coincidiu com a entrada de Diogo Lopes na liderança enológica da Quinta dos Frades. Ao mesmo tempo, a nova gama está desenhada para integrar e valorizar a Quinta do Castelo.

“A nova identidade surge como uma evolução em continuidade. O logótipo foi renovado, mantendo os símbolos históricos associados à propriedade – a cruz e a esfera armilar presentes no emblemático solar da Quinta dos Frades –, agora interpretados através de uma linguagem gráfica mais contemporânea, elegante e impactante. A nova tipografia serifada firma a ligação à história e ao património da propriedade. “No fundo, estamos a fazer o que sempre nos propusemos enquanto família: preservar o legado e preparar o futuro, honrando uma identidade e um património absolutamente únicos”, sublinha Aquiles de Brito.

A renovação da imagem estende-se igualmente à reorganização da gama, que abandona designações coexistentes com a marca principal, como Vinha dos Deuses e Vinha dos Santos, de modo a evidenciar o protagonismo da identidade Quinta dos Frades em todas as referências. A arquitectura da gama é alinhada, sobretudo, com a estratégia de valorização da marca-mãe e com o nome da propriedade, para criar maior consistência e afirmar notoriedade.

Além da marca principal, surge, agora, a linha Frades alinhada com a mesma identidade. Esta integra, por exemplo, o potencial de vinhos brancos provenientes da Quinta do Castelo, uma vez que na Quinta dos Frades a produção cinge-se exclusivamente nos vinhos tintos.

São seis os novos vinhos: Frades Colheita branco 2024, Frades Colheita tinto 2023, Frades Reserva branco 2024; Quinta dos Frades rosé 2024, Quinta dos Frades Reserva tinto 2021 e o Quinta dos Frades Vinhas Centenárias Grande Reserva tinto 2017.

“Com os vinhos Frades Colheita propomos uma abordagem a um Douro de maior frescura e elegância. Nesta referência, sem perder a identidade Frades, conseguimos potenciar, também, as melhores uvas brancas que produzimos na segunda propriedade da família, a Quinta do Castelo, no terroir de altitude de Santa Marta Penaguião. Todas as restantes referências potenciam as uvas tintas da Quinta dos Frades, em particular a expressão do património de vinhas velhas e vinhas centenárias, que se impõem com toda a autenticidade e todo o carácter. O nosso objectivo é conhecer e concretizar toda a riqueza destas vinhas, field blends de exposições diversas, com mais de 20 castas identificadas; um Douro genuíno, que construiu a reputação de vinhos de topo da Quinta dos Frades e que pode vir a dar-nos ainda mais referências de excelência”, resumiu Diogo Lopes.

Da minha parte, creio que a finalidade está mais do que conseguida. Falta agora iniciar ou, de certo modo, continuar melhor dizendo, todo aquele longo processo de consistência, ano após ano, colheita após colheita, junto do consumidor, para que este, toda e cada vez que abra uma garrafa de Quinta dos Frades, possa verdadeiramente sentir, desfrutar e saborear o terroir e identidade verdadeiramente únicos de que são feitos estes vinhos.

(Artigo publicado na edição de Setembro de 2026)

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