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AVELEDA: Uma aventura em terras do Lima

A maior empresa de Vinho Verde, produtora da marca mais importante – Casal Garcia – é também, a partir de agora, a detentora da maior mancha de vinha de toda a região demarcada. Um projecto enorme, um desafio e tanto, que visitámos recentemente.

TEXTO João Paulo Martins
FOTOS Cortesia do produtor

Estamos em Cabração, aldeia do concelho de Ponte de Lima, com a serra de Agra por perto e em terrenos até há pouco tempo baldios e, como tal, geridos pelas comunidades locais. É aqui que a Aveleda está a implementar um projecto de grandes dimensões que irá alargar substancialmente a sua área de vinha própria. Ao todo estamos a falar de uma nova plantação de 200 hectares (ha), com 70 já plantados este ano e os restantes até 2020. Na edição de Julho da Grandes Escolhas já demos notícia deste novo investimento, que irá rondar os 7 milhões de euros. Mas só visitando Cabração se consegue perceber a dimensão (gigantesca para a região) do projecto. O grande cuidado na plantação da vinha fez com que já seja perceptível o crescimento acelerado das novas plantas e a ausência de falhas, excelente sintoma da qualidade dos enxertos prontos.
O terreno agora arrendado à Aveleda era terra bravia e inculta que não resistiu aos incêndios dos últimos anos, mas “é um terreno medianamente rico, com pH baixo e bons teores de argila”, descreve Pedro Barbosa, director de viticultura da Aveleda. “Se fosse agora, se calhar não conseguíamos este acordo, face à nova lei dos baldios”, diz-nos, aliviado, o administrador António Guedes. Dos 900ha de baldio (não contínuo) “irão permanecer grandes manchas destinadas à biodiversidade e vegetação local, onde iremos plantar árvores mais resistentes ao fogo; é triste, mas parece que a vida aqui também ardeu, não se ouve um pássaro, não se vê um coelho ou javali”, lamenta-se Pedro Barbosa. Mas tal como a flora tem vindo a recuperar, também a fauna se espera que volte a este local nos próximos meses.

Uvas de qualidade
A vinha de Cabração está assente em terrenos de xisto com granito nos pontos mais altos. Foram feitos estudos cuidados dos solos e tipologia, com deslocação de terras, sondas e preparação minuciosa para que as castas escolhidas tenham aqui a melhor adaptação. A Trajadura, por exemplo, está fora dos planos, em virtude de o terreno ser muito pobre, mas haverá grandes manchas de Loureiro (25ha já plantados) e Arinto, aqui para já com 8ha e sobre os quais há alguma curiosidade, uma vez que a empresa não tinha esta casta plantada em terrenos xistosos; a ideia que nos transmitiram é que vai ser plantado “um bocadinho de tudo”, tirando assim partido da enorme área disponível. Fernão Pires e Alvarinho também marcarão presença. Com uma densidade de plantação bastante superior ao habitual, é expectável que se chegue às 15 toneladas/ha, mas com menor rendimento por planta, o que ajuda a qualidade. Em 2019 já será feita a primeira colheita.
Projectos desta dimensão têm grande impacto na zona, ajudando de forma inequívoca ao desenvolvimento regional. A mesmo tempo, este investimento em Ponte de Lima vai garantir matéria-prima de qualidade necessária não apenas para as marcas já existentes, mas também para um potencial alargamento do portefólio a vinhos de topo, onde provavelmente haverá também um envolvimento de Cristiano van Zeller, que passou a integrar a equipa da Aveleda após a aquisição da Quinta do Vale D. Maria, no Douro.
Aliás, por curiosidade, e comparando com as vinhas durienses, tradicionalmente com custos de plantação elevados, esta plantação em Cabração, com as precauções que se exigem para a prevenção de doenças do lenho, como a esca, vai obrigar a surribas mais onerosas do que as realizadas no Douro.

Uma prova didáctica
A visita não ficava completa sem algumas provas de vinhos. O que aqui foi interessante é que a prova incidiu sobre vinhos de parcela, o que nos permitiu perceber a diversidade que se consegue alcançar a partir da mesma casta.
Vejamos, como exemplo, o Alvarinho da Aveleda que resulta de um lote de quatro vinhos com origens diversas: uma vinha em Melgaço /vinha do Salvador) plantada em finais dos anos 80; uma parcela em Celorico de Basto, que tem neste momento 11 anos de idade; uma parcela já com 16 anos (vinha da Estufa), que fica mesmo atrás da casa da Aveleda; e a vinha da Aperrela, também em Penafiel e com 11 anos. Provadas as bases que deram origem ao lote final, percebe-se que a vinha de Melgaço origina vinhos fechados aromaticamente enquanto jovens, e com um lado mais mineral; da vinha da Estufa, em Penafiel, temos um branco de perfil mais tropical, mais gordo e com boa acidez; de Celorico chega-nos um Alvarinho algo fechado aromaticamente mas que se mostra muito expressivo na boca, provavelmente em consequência do solo xistoso onde está implantada a parcela de 15ha; e da vinha da Aperrela, em Penafiel, provámos um branco de grande harmonia, expressividade e qualidade aromática, como que a dizer que um dia poderá ambicionar ter direito a ser engarrafado separadamente.
Provámos também algumas colheitas mais antigas da marca Quinta da Aveleda. São vinhos de lote onde se combina a Alvarinho com Loureiro e Trajadura em proporções que variam conforme o ano. Não foram colheitas “muito” antigas porque só a partir de 2004 se começou a guardar, de forma sistemática, amostras para memória futura. Ainda assim provámos vinhos de 2010 e 2012 e nota-se perfeitamente que com a nova viticultura, que tende a gerar vindimas mais precoces, é possível conseguir vinhos com belo equilíbrio de acidez e boa capacidade de evolução em garrafa. Há que contrariar a ideia feita de que os Vinhos Verdes são para consumir cedo. E vale a pena conservar algumas garrafas em cave porque as boas surpresas (como as que tivemos) estão asseguradas.

À frente de um enorme projecto
António Guedes pertence à nova geração que está a assumir, com o primo Martim, os comandos da empresa. Já era até aqui uma enorme empresa do sector, com aquisições maciças de uvas a lavradores. E vai passar a ser também detentora da maior área de vinha própria em toda a região. Mas António assume o desafio: “Este novo projecto coloca-nos várias questões que estamos a procurar resolver e as novas tecnologias de implantação de vinha têm-nos ajudado. Por exemplo, percebemos melhor a qualidade da terra de cada parcela – que obriga também à deslocação de terra de um lado para outro – e sentimos que o clima local, o vento e a exposição poderão permitir vir a fazer aqui uma agricultura biológica, o que, como se sabe, não é nada fácil na região. Apostamos forte na casta Fernão Pires, algo pouco comum na região. É uma variedade precoce e produz bem, sendo por isso uma boa fonte de rendimento para o viticultor. Mas temos (como acontece noutras regiões) um problema grande de mão-de-obra. Falta gente, embora acredite que este novo projecto possa contribuir para minimizar o despovoamento. Com esta dimensão torna-se inevitável a construção de uma adega em Cabração, já que a adega de Penafiel fica a 50km. E vamos recrutar no mercado local, o que vai ajudar a região.”

Edição Nº16, Agosto 2018

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