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Encruzado, a ilustre joia do Dão

A casta Encruzado é certamente uma das mais promissoras variedades brancas portuguesas, originando vinhos elegantes, equilibrados, complexos e longevos. E pode vir a ser uma das bandeiras de Portugal nos mercados de todo o mundo.

TEXTO Dirceu Vianna Junior MW
FOTOS Ricardo Palma Veiga

Eu estava participando numa degustação em Londres, há uns meses. O final da tarde se aproximava e após o dia todo degustando vinhos de várias partes do mundo estava quase na hora de ir embora quando um amigo chegou, aproximou-se para cumprimentar e aproveitou para pedir algumas dicas do que ele deveria degustar, visto que a sessão estava prestes a encerrar, portanto o tempo era curto. Sem hesitar disse que eu mesmo o levaria até a mesa do meu vinho favorito daquele dia. Ele aceitou e lá fomos nós. Ele estava com um ar curioso, provavelmente pensando no que eu lhe iria apresentar e eu estava interessado em surpreendê-lo e observar a sua reação. Passamos pelas mesas de alguns ícones italianos, produtores de Borgonha, excelentes Champagnes, vários vinhos de bons produtores do Novo Mundo e chegamos ao destino.
O vinho que lhe dei a provar era branco. Na minha opinião, exibia extrema elegância, equilíbrio e complexidade. Era encorpado, denso, com textura cremosa, e possuía uma combinação de frutas cítricas, frutas de caroço, avelã e apontamentos florais e minerais. A madeira estava muito bem casada e o final de boca era persistente, com uma frescura incrível. O meu amigo degustou em silêncio, fechou os olhos e após alguns segundos soltou entusiásticos elogios a um grande vinho. Concordou que realmente era um vinho fabuloso e ainda brincou… “Depois desse vinho, acho melhor ir para casa.”
Confesso que fiquei contente por tê-lo deixado devidamente impressionado. O meu amigo era o carismático e conhecido jornalista Oz Clarke; o vinho era da região do Dão; a casta, Encruzado.
O meu entusiasmo por essa casta já havia sido instituído alguns anos antes, quando tive a responsabilidade e honra de selecionar 50 Grandes Vinhos Portugueses para o mercado brasileiro a convite da ViniPortugal, com o objetivo de ajudar a educar e promover os vinhos de Portugal no Brasil. Foi a primeira vez que tive a oportunidade de degustar múltiplos exemplos dessa casta de uma só vez. Confesso que fiquei tão impressionado com a qualidade quanto pela escassa área de superfície plantada que essa casta ocupava naquela época. Desde então as plantações não evoluíram muito. De acordo com a Comissão Vitivinícola da Região do Dão, existem somente 226,47 hectares de vinhedos plantados na região. Estes números podem estar desactualizados, mas é um facto que a disponibilidade de uva Encruzado é hoje muito inferior à procura.

Uma casta recente
É importante levar em consideração que historicamente essa casta aparecia somente em vinhedos mistos. Foi apenas na década dos anos 1950 que o eng. Alberto Cardoso de Vilhena, pesquisador do Centro de Estudos Vitivinícolas de Nelas, iniciou um projeto que incluia plantações desta variedade em parcelas únicas e instituiu micro-vinificações para explorar essa casta separadamente.
Manuel Vieira, carismático e habilidoso enólogo que por muitos anos foi responsável pelo projeto da empresa Sogrape na região do Dão (hoje apoia a vinícola Caminhos Cruzados), lembra-se das suas impressões durante uma prova feita no início da década de 90, quando teve a oportunidade de degustar alguns ensaios do engenheiro Vilhena, incluindo amostras das colheitas da década de 60. Recorda-se muito bem dos vinhos, que, apesar de já estarem em garrafa por décadas, apresentavam um perfil elegante, complexo e ainda bastante vivo. A longevidade desses brancos impressionou não somente Manuel Vieira como também o responsável da Sogrape, Fernando Guedes, e o enólogo José Maria Soares Franco, que estavam presentes. Esse admirável e excepcional trabalho feito por Alberto Vilhena ajudou a moldar os vinhos do Dão e sua influência perdura até aos dias de hoje.
Pouco sabemos sobre a origem e história do Encruzado. Até hoje não foi possível encontrar qualquer menção na literatura do século XIX, mas Manuel Vieira ainda não desistiu e recentemente decidiu formar um grupo para investigar em maiores detalhes o passado dessa ilustre casta. Os indícios mais antigos que temos conhecimento até o momento vêm de um período próximo da II Guerra Mundial, quando a casta aparece mencionada em conexão com a região de Viseu. Nesse contexto, podemos considerar que o Encruzado foi um descobrimento extremamente recente em comparação com castas como, por exemplo, Khikhvi, Rkatsiteli ou Mtsvane Kakhuri, plantadas na Geórgia e com relatos históricos que se estendem desde o ano 5 AC.
Apesar de as variedades portuguesas frequentemente co-existirem em regiões distintas, essa casta raramente aparece fora da região do Dão. Além de aparecer nos vinhos de classificação Dão DOC, é teoricamente possível encontrar Encruzado de plantações recentes nos vinhos regionais de Beiras, Terras do Sado e Alentejo, mas isso raramente ocorre.

Boa na vinha, óptima na adega
De acordo com Nuno Cancela de Abreu, enólogo da empresa Boas Quintas (marca Fonte do Ouro), o Encruzado é uma casta fácil do ponto de vista da viticultura. É fácil de conduzir, tem produções regulares capazes de atingir facilmente sete toneladas por hectare e resiste bem às doenças. Maria Castro, da Quinta da Pellada, concorda que a casta seja resistente às doenças, mas revela que na sua propriedade a planta apresenta vigor moderado e um nível de produção ligeiramente mais baixo. Ambos concordam que a principal desvantagem é o facto de os rebentos novos partirem com facilidade com o vento, por vezes causando grandes prejuízos.
De acordo com Peter Eckert, proprietário da Quinta das Marias, a maturação em clima temperado é regular e lenta. O clima da região do Dão, com os dias quentes e as noites frias, ajuda a proporcionar condições ideais para uma boa síntese de precursores aromáticos e manutenção da acidez. De acordo com Maria Castro, em solos graníticos, que não retêm muito bem a água, é necessária alguma chuva durante o período do desenvolvimento vegetativo para evitar que a planta sofra stress hídrico. Os cachos são tipicamente pequenos, mas aparecem em grande número. O bago é médio, ligeiramente achatado, envolvido por uma película firme, apresenta cor verde com tons amarelos e no seu interior uma polpa mole.

A casta tipicamente amadurece muito bem e revela bom equilíbrio entre açúcar e acidez. A literatura indica que a maturação é precoce, ocorrendo simultaneamente com a casta Fernão Pires, mas Nuno Cancela de Abreu observa que nos seus vinhedos a maturação é mais tardia em comparação com as outras castas brancas do Dão.
Na adega a grande desvantagem, de acordo com Nuno Cancela de Abreu, é a facilidade com que se oxida, tanto ao nível do mosto como no vinho. No entanto, a evolução da tecnologia, com a utilização de gás inerte, melhores prensas e controlo de temperaturas, ajuda a proteger a qualidade e a fermentação acontece sem sobressaltos. Já para Maria Castro, a casta não é especialmente oxidativa, podendo às vezes até ser um pouco redutiva, e opta na Pellada por uma intervenção mínima, com o mosto mais inteiro possível e sem batonnage. Para Manuel Viera, a Encruzado, após a fermentação, mostra-se neutra, levemente vegetal, subtil e sem muito interesse. O segredo é ter paciência.
Paulo Nunes, enólogo responsável pelos vinhos da Casa da Passarella, adianta que a grande vantagem do Encruzado é a sua plasticidade, ou seja, a sua capacidade de responder de forma positiva a diferentes abordagens e métodos de vinificação. Para Peter Eckert, a Encruzado é uma casta bastante versátil, capaz de fazer bons vinhos em lote, mas prefere quando é 100% varietal. Desde 2006, produz um estilo mais fresco e linear fermentado em cubas de inox, e um estilo mais encorpado e denso fermentado e envelhecido em combinação de barricas novas e velhas de 225 litros. Peter Eckert opta por engarrafar ambos separadamente. Apesar de gostar de usar as borras e fazer batonnage em ambos os vinhos, a tendência que vem seguindo é diminuir a frequência dessas intervenções. Em relação à madeira, prefere vinhos que respeitem a sua origem, sem que a barrica se sobreponha. Em barrica ou inox, os dois estilos de Quinta das Marias Encruzado são igualmente bem aceites pelo mercado, mas Peter Eckert reconhece que o vinho com estágio em barrica tem mais sucesso em provas cegas e concursos.
Nuno Cancela de Abreu diz que a vinificação é fácil tanto em inox quanto em barrica, mas prefere a fermentação em madeira nova com batonnage para lhe dar volume, complexidade e assegurar potencial máximo, o que certamente possibilita evolução positiva e longeva na garrafa. Manuel Vieira assegura que tempo em garrafa é necessário para revelar as qualidades e personalidade da casta, mas é possível notar que o vinho às vezes se fecha após um tempo e renasce após quatro ou cinco anos. Uma coisa é certa: o Encruzado quando vinificado sem madeira e sem tempo de garrafa raramente é um vinho interessante. Para revelar o seu carácter e demonstrar o seu potencial é necessário o uso da madeira ou é preciso dar tempo para que o vinho se desenvolva. De preferência, ambos.

Personalidade e longevidade
Encruzado, bem como o Alvarinho e Arinto, cria vinhos com muita personalidade, harmonia e complexidade. Essas castas são capazes de produzir brancos longevos e que reflectem precisamente as suas origens. Desde o meu primeiro encontro com o Encruzado até hoje, continuo intrigado pelo facto dessa casta, que é capaz de fazer alguns dos melhores e mais longevos vinhos brancos de Portugal, não ser mais plantada na região do Dão. É que, apesar do entusiasmo dos produtores locais, a área de Encruzado é ainda diminuta quando comparada com Malvasia Fina, ou outras castas regionais.
Portugal é um país que a maioria dos consumidores internacionais associa a vinhos fortificados e vinhos tintos. Com a capacidade que Portugal tem de elaborar vinhos brancos de alta qualidade e surpreender os apreciadores com seu potencial de guarda, como aconteceu no caso do critico Oz Clarke, não deveria apostar mais em variedades como o Encruzado? Certamente seria divertido para quem educa, prazeroso para quem bebe e lucrativo para quem produz. O Encruzado é uma grande joia do património ampelográfico português e pode ser um importante trunfo para o reconhecimento internacional dos brancos deste país.

Em Prova

  • Soito
    Dão, Encruzado, Branco, 2017

    16.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Titular
    Dão, Encruzado, Branco, 2016

    18.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Cabriz
    Dão, Encruzado, Reserva, Branco, 2017

    17.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Casa da Passarella ‘O Enologo’
    Dão, Encruzado, Branco, 2016

    18.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta de Saes
    Dão, Encruzado, Branco, 2015

    18.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Ribeiro Santo
    Dão, Encruzado, Branco, 2017

    16.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta do Perdigão
    Dão, Encruzado, Branco, 2016

    17.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta dos Carvalhais
    Dão, Encruzado, Branco, 2017

    17.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Fonte do Ouro
    Dão, Encruzado, Reserva Especial, Branco, 2017

    17.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta dos Roques
    Dão, Encruzado, Branco, 2016

    17.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Ladeira da Santa
    Dão, Reserva, Branco, 2017

    16.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta das Marias
    Dão, Encruzado, Branco, 2017

    17.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor

Edição Nº 16, Agosto 2018

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