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Quinta da Alorna, Tejo moderno com muita história

Já foi um dos maiores produtores de vinho, chegando a fazer mais de 20 milhões de litros num ano. Hoje, a Quinta da Alorna faz um décimo disso, mas a qualidade, estamos seguros, está muito acima. Fruto de investimentos em conhecimento, vinha e adega…

TEXTO António Falcão
FOTOS Ricardo Palma Veiga

Imagine 2.800 hectares de terra. É muita, mas mesmo muita terra. É assim na Quinta da Alorna. De facto, é a família Lopo de Carvalho que detém, há cerca de 5 gerações, esta enorme quinta no Ribatejo (no Alentejo chamar-lhe-iam herdade). A grande parte está ocupada por floresta (montado de sobro, eucalipto, pinheiro bravo e manso), mas a Alorna tem ainda uma generosa área de regadio com culturas arvenses. A parte mais pequena é ocupada com vinha, mas estamos a falar de cerca de 220 hectares, uma das maiores áreas de vinha do país num só produtor e região.
A produção vínica terá muitas décadas, mas esta quinta tem raízes históricas bem mais longas. A sua mais famosa proprietária terá sido a Marquesa de Alorna (finais do século XVIII, início do século XIX), mulher notável na época pela invulgar amplitude de conhecimentos e pelos seus trabalhos artísticos e literários. E ainda por ter desafiado o Marquês de Pombal, o que lhe valeu (e a parte da família) uns bons anos em reclusão. A figura da marquesa não só ‘empresta’ ainda hoje o seu título aos vinhos topos de gama da casa, como foi objecto de obra escrita por Maria João Lopo de Carvalho, um dos elementos da família proprietária.
A jóia da coroa é a magnífica casa apalaçada, cujo portão principal, curiosamente, dá para o que poderíamos considerar as traseiras, para o lado do rio. Mas há uma razão para isso: nos tempos da marquesa, os proprietários, residentes em Lisboa, subiam o Tejo de barco quando vinham à quinta. E este era o caminho que tomavam para entrar em casa…
Para além de ser uma marca muito conhecida no mundo vínico português, a Quinta da Alorna mantém-se um projecto familiar com um vincado cunho empresarial, uma combinação pouco comum em Portugal. De facto, toda a gestão do dia-a-dia é efectuada por profissionais exteriores à família. A direcção-geral está a cargo de Pedro Lufinha. A gestão da vinha (e do resto da agricultura) está a cargo de Pedro Mascarenhas, há pouco tempo na função, mas visivelmente já ambientado no terroir. Martta Simões é o elemento que está há mais tempo na equipa, na adega da casa desde há mais de uma década.

Saber tratar a vinha
A maior parte da vinha foi transferida dos solos mais férteis para os chamados solos de charneca (os mais pobres) em meados/finais dos anos 80, altura em que as instituições estatais deram bons subsídios para a mudança. Muitos agricultores seguiram estas indicações, tendentes a uma melhor qualidade.
Toda a vinha tem arrelvamento natural, que tem aqui não só a função de restringir o vigor das videiras, que têm de competir com as outras plantas, mas também manter maior teor de matéria orgânica, aumentando a fertilidade. Mas as vantagens não acabam aqui: o solo arrelvado é menos compacto e “a diferença é enorme”, informa Pedro. E há ainda uma outra razão: “Neste ano húmido, quem andou a mexer na terra para arrancar as plantas, tem as vinhas cheias de oídio; nós não temos nada.” O clima húmido de Primavera tem obrigado a equipa a fazer tratamentos contra as doenças fúngicas. A contagem vai em nove! (em 2017 foram apenas seis).
Os restantes 45 hectares, plantados há alguns anos (2009 e 2012), estão junto ao “palácio”. Este solo não é ainda o “campo”, o solo mais fértil da região, sendo antes uma zona de transição, com solos predominantemente arenosos, a fazer pensar na Península de Setúbal (“mas sem água a pouca profundidade”, lamenta Pedro Mascarenhas). São os “terraços do Tejo” e esta zona foi sobretudo reservada para outras castas brancas. Entraram assim Alvarinho, Viognier e Sauvignon Blanc. Numa zona mais elevada entraram ainda Syrah, Alicante Bouschet e Touriga Franca (todas a estrear na casa). Ou seja, uma certa revolução no encepamento…

Um terroir muito especial
Pedro Mascarenhas aponta o seu todo-o-terreno ao campo e vamos visitar as vinhas, instaladas em planície ou em encostas muito suaves. Nada de surpreendente, considerando que estamos nas vizinhanças de Almeirim, perto do rio Tejo. Para qualquer enófilo mais avançado, que gosta de saber onde nasce o vinho que está a beber, o terroir de boa parte da Quinta da Alorna é especial. Aqui predomina o calhau rolado, um tipo de solo, falemos verdade, pouco comum nas vinhas portuguesas. Em certa medida poderemos estabelecer o paralelo com algumas das mais famosas vinhas de Bordéus e parece-nos, isso sim, um bom começo. “É o que toda a gente diz”, remata Martta. Pedro Mascarenhas diz-nos que este solo é bom para as videiras: “Dá umas uvas óptimas.”
O calhau rolado não existe apenas à superfície. Um corte no terreno mostra que mergulha a vários metros de profundidade. Imagina-se que aqui correu um gigantesco rio, há muitos milénios. A pedra ajuda à estrutura do terreno: “Sem elas, o solo ficaria muito compactado”, garante Pedro. A textura arejada do solo permite ainda que as raízes da videira mergulhem fundo e se alimentem melhor.

Esta vinha não tem rega e, pelos vistos, aguentou-se muito bem na seca extrema do ano passado, muito melhor mesmo do que a outra vinha que é… regada.
No total, as áreas maiores vão para Touriga e Castelão, nas tintas, e para o Arinto, nas brancas. Mas existe muito mais…

Saber tratar a vinha
A maior parte da vinha foi transferida dos solos mais férteis para os chamados solos de charneca (os mais pobres) em meados/finais dos anos 80, altura em que as instituições estatais deram bons subsídios para a mudança. Muitos agricultores seguiram estas indicações, tendentes a uma melhor qualidade.
Toda a vinha tem arrelvamento natural, que tem aqui não só a função de restringir o vigor das videiras, que têm de competir com as outras plantas, mas também manter maior teor de matéria orgânica, aumentando a fertilidade. Mas as vantagens não acabam aqui: o solo arrelvado é menos compacto e “a diferença é enorme”, informa Pedro. E há ainda uma outra razão: “Neste ano húmido, quem andou a mexer na terra para arrancar as plantas, tem as vinhas cheias de oídio; nós não temos nada.” O clima húmido de Primavera tem obrigado a equipa a fazer tratamentos contra as doenças fúngicas. A contagem vai em nove! (em 2017 foram apenas seis).
Os restantes 45 hectares, plantados há alguns anos (2009 e 2012), estão junto ao “palácio”. Este solo não é ainda o “campo”, o solo mais fértil da região, sendo antes uma zona de transição, com solos predominantemente arenosos, a fazer pensar na Península de Setúbal (“mas sem água a pouca profundidade”, lamenta Pedro Mascarenhas). São os “terraços do Tejo” e esta zona foi sobretudo reservada para outras castas brancas. Entraram assim Alvarinho, Viognier e Sauvignon Blanc. Numa zona mais elevada entraram ainda Syrah, Alicante Bouschet e Touriga Franca (todas a estrear na casa). Ou seja, uma certa revolução no encepamento…

É tempo de reestruturar
Os velhos troncos da vinha velha, grossos e retorcidos, não mentem. Com mais de 30 anos de idade, e um ‘mix’ de castas tintas e brancas, estas vinhas pouco mais dão do que 3 a 3,5 toneladas por hectare. Algumas bem menos. A qualidade das uvas é geralmente muito boa e os topos de gama da casa vêm daqui. No entanto, as videiras começam a mostrar indícios claros de velhice, incluindo várias falhas nas linhas, devido a doenças do lenho. Por isso, a equipa está a pensar em reestruturações, a começar já para o ano, mas mantendo a percentagem brancas/tintas nos 50/50.
A passagem para o modo de produção biológico já foi discutida, mas não estará para breve. “As colinas de calhau rolado são arejadas e não temos grandes problemas sanitários. Lá em baixo [mais junto ao Tejo] seria mais complicado” diz Pedro Mascarenhas.
A vindima é feita sobretudo à máquina (a casa tem duas), mas várias parcelas são vindimadas à mão, para os vinhos mais caros. E a adega é logo ali…

Investir na adega
Os enormes edifícios da adega mantêm-se desde há muitas décadas e têm espaço de sobra. Afinal, chegou a vinificar mais de 20 milhões de litros de vinho, armazenados em enormes depósitos de cimento. Uma parte subterrânea, outra logo acima, ao nível do chão.

O cimento tem problemas de higiene, é difícil de limpar e a Alorna optou por realizar, nos últimos anos, grandes transformações. Saíram depósitos ao nível do chão, por exemplo, e o espaço serviu para receber modernas cubas de inox com controlo de temperatura. Uma parte dos restantes depósitos é revestida a epoxy e ainda é usada para armazenar algum vinho, mas os outros só recebem sub-produtos.
Depois a atenção virou-se para o telhado, que foi substituído: não só deu melhor aspecto como permitiu manter mais fresca a temperatura no interior. Martta Simões quer colocar mais inox, especialmente para fermentar brancos, e cubas mais pequenas, destinada a vinhos especiais e/ou experiências. Não falta uma generosa cave de barricas, que até poderia ter mais quantidade. Mas aqui só se usam as barricas por três anos. Depois são vendidas e Martta informa que nem é difícil: “A procura é muita.” Existem algumas de produtores de whisky, que as ‘emprestam’ para serem usadas e devolvidas mais tarde.

Fazer bons vinhos… e vendê-los
Quando tomou as rédeas da enologia, há cerca de oito anos, Martta fez uma ligeira inflexão no perfil dos vinhos. E continua, anos mais tarde, a afinar. É uma apoiante dos vinhos mais elegantes, tirando partido do terroir: “A acidez dos tintos (e não só) aqui é diferente. Dá vinhos mais elegantes e frescos. Acho que a proximidade do Tejo faz toda a diferença”, remata a enóloga.
O histórico de vendas parece dar-lhe razão: a Quinta da Alorna tem tido bastante sucesso no mercado nacional e internacional, em todas as gamas. A loja da quinta, estrategicamente colocada na estrada que a atravessa (de trânsito intenso) dá uma belíssima ajuda. Com estacionamento à porta, esta loja será das que mais vende entre os produtores de vinho deste país. E não há mais enoturismo; em tempos pensou-se iniciar projectos com estadia, mas, apesar de existirem imóveis na exploração para o fazer, o projecto tem estado em banho-maria.
Fazer bons vinhos não é fácil, mas vendê-los é bem mais difícil. Essa á provavelmente a tarefa mais difícil para Pedro Lufinha, que corre mundo a promover a casa que dirige. Se as operações lá fora estão a correr muito bem, por cá Pedro quer “aumentar a notoriedade dos vinhos”: “Temos vinhos com excelente relação preço-qualidade e precisamos de comunicar melhor.”

Em velocidade de cruzeiro
Esta não foi a minha primeira visita à Alorna. É verdade que tenho provado os vinhos ao longo do tempo e é de senso comum que têm mantido uma notável consistência de qualidade. Os mais recentes lançamentos, baseados nas novas vinhas, estão a ser um sucesso. O que nos faz pensar que não será má ideia a reestruturação gradual da enorme vinha velha. As bases são sólidas, o conhecimento está lá, e por isso os próximos anos só podem trazer coisas boas.

  • Marquesa da Alorna
    Do Tejo, Grande Reserva, Tinto, 2013

    17.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta da Alorna
    Do Tejo, Arinto, Branco, 2017

    16.0
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta da Alorna
    Regional Tejo, Touriga Nacional,Cabernet Sauvignon, Reserva, Tinto, 2014

    16.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta da Alorna Colheita Tardia
    Do Tejo, Tinto, 2013

    16.0
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta da Alorna
    Do Tejo, Alvarinho, Branco, 2017

    16.0
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta da Alorna
    Do Tejo, Alvarinho,Viognier, Reserva, Branco, 2016

    16.0
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta da Alorna
    Do Tejo, Touriga Nacional, Tinto, 2015

    15.5
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta da Alorna
    Do Tejo, Sauvignon Blanc, Branco, 2017

    16.0
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta da Alorna
    Regional Tejo, Branco, 2017

    15.0
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor

Edição Nº16, Agosto 2018

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