BARBEITO: O luxo de sempre

O concerto de Ano Novo realizado pela Orquestra Filarmónica de Viena, todas as manhãs do dia 1 de Janeiro, tem lugar no cenário incomparável da Sala Dourada do Wiener Musikverein. Assistir pessoalmente deverá ser, certamente, uma experiência tão inesquecível, quanto difícil para lá poder chegar. Não é um processo simples, pois grande parte dos lugares estão reservados à realeza, à aristocracia e às elites europeias, passando de geração em geração, por sucessão dinástica e apenas uma parte está destinada ao público. O problema é que os bilhetes não se podem comprar na bilheteira ou na Internet ou, pelo menos, não directamente. É preciso ter sorte e ser um dos escolhidos pelo sorteio especialmente realizado para o efeito em Março, para o qual uma pessoa tem de se inscrever previamente, para poder assistir ao concerto ao vivo.

Perdoe-me o leitor a comparação ousada, mas assim é, também, salvas as devidas distâncias e proporções, com o Madeira Wine Experience, que já teve edições no Palácio de Seteais ou na histórica Casa dos Penedos, sempre na lindíssima Vila de Sintra.

Generosa exclusividade

O Madeira Wine Experience (MWE) é uma prova exclusivamente dedicada ao Vinho Madeira, criada por Paulo Cruz, também ele mentor do Porto Extravaganza – para muitos, a grande escola de Vinho do Porto em Portugal –, e pelo seu sócio e amigo, Paulo Henrique Bento. A ideia nasceu no Bar do Binho, localizado na Praça da República, em pleno Centro Histórico de Sintra, do qual Paulo Cruz é proprietário. Foi fundado pelo bisavô e tem permanecido na família desde 1927. Conta com uma colecção imensa de vinhos generosos, desde alguns do século XVIII até outros mais recentes. É lá que Mr. Cruz se dedica, diariamente, a educar, ensinar e dar a provar os melhores vinhos fortificados do mundo.

À semelhança do Extravaganza, o MWE é um evento muito exclusivo, intimista e dedicado. Os habitués são já uma espécie de família dos vinhos. Registam as datas no calendário de um ano para o outro, não falham uma edição e ficam sempre pasmados a cada nova revelação. Assim foi com a edição de 2025. O leitor sente-se, por favor.

Na primeira parte da prova tivemos Ricardo Diogo, da Vinhos Barbeito, e o precioso ajudante, Sérgio Marques, a ensinarem-nos a fazer o blend do estratosférico Vinho Madeira, com o rótulo Barbeito O Americano Malvasia 50 Anos. Ensinar como?! Perguntarão. Tínhamos seis provetas de vidro à nossa frente, cada uma com cada um dos vinhos utilizados para compor o lote final do Barbeito O Americano, a saber: Malvasia de 2005 (casco 58, meio doce, 25% do lote), Malvasia de 2009 (casco 303, meio seco, 12% do lote), Malvasia 40+ Anos (tanque 99ª MEF, 18% do lote), Malvasia 30+ Anos (garrafão 92 FV/RR, 22% do lote), Malvasia 100+ Anos (garrafão 6 LV/Reitor, 17% do lote – “o vinho-chave do lote”, segundo Ricardo Diogo), Malvasia 2012 (casco 158, 6% do lote).

À medida que fomos provando, fomos ouvindo a(s) história(s) de cada um dos vinhos, para sentirmos os diferentes níveis de aromas, as texturas, a acidez, os açúcares, a intensidade e a concentração, e colocando, na exacta medida, a percentagem indicada de cada um dentro duma nova proveta de vidro até completarmos os 100% do lote.

Feito o blend, provamos, lado a lado, com o verdadeiro Barbeito O Americano Malvasia 50 Anos. O momento traduziu-se numa experiência única e fascinante, onde pudemos verificar um vinho acabado de lotear, mas ainda por finalizar, e o mesmo vinho, devidamente finalizado, colado e filtrado, e já com um ano de afinamento em garrafa. As semelhanças eram evidentes, mas, como é óbvio, faltava a perfeição só atingida com o tempo em garrafa.

Barbeito
Ricardo Diogo e Sérgio Marques

Uma novidade e um desafio

Um dos momentos altos da tarde-noite, foi o lançamento mundial do Barbeito Pai António Verdelho 50 Anos, o vinho de homenagem de Ricardo Diogo a seu pai, um homem que não gostava de Vinho Madeira, mas, pasme-se, a quem a mulher, mãe de Ricardo, graciosamente, nunca parou de perguntar, ao longo do casamento, se a desejava acompanhar sempre que tomava um Vinho Madeira.

Após o ligeiro coffee break, para conversarmos e darmos algum lastro ao estômago, que neste tipo de provas as cuspideiras ficam sempre vazias, bem como tempo à equipa para substituir copos e preparar tudo para a segunda parte, Ricardo Diogo e o Sérgio Marques sentaram-se, como os demais de nós, para uma prova de 11 vinhos Madeira. Tudo às cegas. A prova foi conduzida por Paulo Henrique Bento, com Mr. Cruz na presidência. A saber: Barbeito Malvasia Lote Especial 30 Anos (engarrafado em 2006), Barbeito Vó Vera Malvasia 30 Anos (engarrafado em 2016), Companhia Vinícola da Madeira Verdelho 1934, Leacock Boal Solera 1851, Justino’s Boal 1934, Blandy´s Bual 1954, Quinta da Consolação Malvasia Roxa 1907, Padre Vale Malvasia Seca 1902, Borges Boal 1875, Barbeito Malvasia 1875 (engarrafado na década de 1970), e Barbeito Malvasia 1875 (engarrafado em 2020). Destaque para o Blandy’s Bual de 1954, um dos melhores anos de sempre na Madeira e destaque maior para o grandioso trio de 1875, monumentais, complexos, profundos, vivos, vibrantes e longos; são vinhos para a eternidade.

A ideia deste artigo não é irritar o leitor ou fazer-lhe pirraça ao falar de vinhos únicos e de uma prova tão exclusiva, mas a própria natureza dos vinhos assim o exige, pois muitas das garrafas provadas eram exemplares únicos e a generalidade dos vinhos provados não está sequer à venda. Aquilo que os leitores interessados podem fazer, se me é permitida a sugestão, é fixar o nome das marcas em prova, porque algumas das casas têm outras colheitas memoráveis, mais recentes. Quanto a poder fazer parte de uma destas edições, é apenas uma questão de fazer uma visita ao Bar do Binho, em Sintra, falar com Paulo Cruz e aguardar em lista de espera. É muito difícil, mas não há outra maneira.

Porém, o verdadeiro mote deste artigo, que tanto gosto me deu a escrever, é divulgar o trabalho único e incomparável que Paulo Cruz e Paulo Henrique Bento fazem há vários anos, no que toca à divulgação e promoção dos vinhos fortificados de Portugal, especialmente numa fase tão difícil como a que os vinhos generosos estão a atravessar, porque, como se diz à boca cheia, no final de cada edição de Extravaganza ou Madeira Wine Experience, “se estes dois gajos não fazem, mais ninguém faz!” Talvez não seja inteiramente assim, mas que anda lá muito perto, disso não tenhamos a menor dúvida.

(Artigo publicado na edição de Fevereiro de 2026)

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