As visitas a quintas são a melhor forma de ficarmos a conhecer o ambiente e as caras que estão por trás dos vinhos que apreciamos, ajudando-nos a contextualizá-los quando os bebemos. E podem ser igualmente uma boa oportunidade para fazer compras…

 

TEXTO João Gonzalez Casa Nova FOTOS Ricardo Palma Veiga

TODOS os meses a Grandes Escolhas leva-nos a conhecer várias quintas numa espécie de enoturismo jornalístico. Mas o enoturismo é muito menos selectivo do que aparenta, especialmente pelo aspecto luxuoso de algumas quintas e herdades. Na verdade, qualquer pessoa pode visitar as quintas e será recebido sempre com a mesma atenção e dedicação, não sendo um pré-requisito reconhecer as castas só de olhar para as folhas, ou saber o nome dos processos de fermentação. Em alguns produtores cobram-se visitas, mas anda quase sempre abaixo dos 10 euros, já com provas incluídas e com um recital de enologia, história e estórias de cada propriedade específica.

A minha primeira visita a um produtor ocorreu no Alentejo, na região de Estremoz. Na verdade, a visita começou 60 km, quando comecei a ver vinhas e mais vinhas, umas atrás das outras, numa imensidão interminável de hectares com vinha que ia alternando com o típico prado e chaparral alentejano. Estremoz vai-se aproximando e as adegas sucedem-se, uma concentração de produtores que me fez invejar os amantes de vinho da região. Toneladas de uvas a começar a ganhar cor, a escassos meses da vindima e várias as oportunidades para parar e entrar num produtor, à portuguesa, sem aviso.

Mas eu tento ser pouco português, aparecendo apenas com marcação e com a certeza que serei recebido num bom momento. Assim, com a devida antecedência combinei com um produtor, explicando que seria o meu batismo. Entramos e a simpatia foi enorme, foi-nos explicado tudo o que questionamos e muito mais. Os diferentes passos, as escolhas tomadas ao longo do processo, a estratégia comercial para o futuro e os vinhos em geral. Falámos da minha garrafeira e fiquei convencido que este seria o local ideal para a “abastecer” com um vinho tinto de topo da vindima de 2011 que já tinha bebido em diferentes contextos. Surpreendeu-me a atenção do produtor, que me ofereceu a garrafa em questão como lembrança desta minha estreia num enoturismo, algo que me comoveu.

Um vinho deve dizer tanto sobre o produtor como sobre nós próprios

Passado uns tempos, visitei um micro-produtor duriense que conheci num evento organizado por um blogue e que me tinha cativado pelo seu conceito. Esta é uma das magias do mundo do vinho. Micro-produtores, com processos altamente artesanais, conseguem ser tão cativantes quanto produtores de média ou grande dimensão, produzindo com grande qualidade e, por vezes, com preços bem dentro da minha carteira.

Depois desta visita ao Douro fiquei mais esclarecido quanto ao que quero fazer relativamente à minha garrafeira particular. Não vou apenas procurar um bom vinho, com bom preço. Vou também procurar projectos que me cativem pela sua energia, pelo seu dinamismo ou pelo conceito. Um vinho guardado deve dizer tanto sobre o produtor como sobre nós próprios. Quando sirvo um vinho com 5, 8, 10 anos a um convidado quero poder contar a estória do vinho, valorizando assim a experiência. Vou, assim, dedicar mais tempo a descobrir pequenos projectos cativantes que façam do vinho da minha garrafeira o centro das atenções e que me permitam sorrir de cada vez que abro uma garrafa. Vou provavelmente ter menos produtores do que esperava inicialmente, ou menos vinhos mainstream, mas mais vinhos do mesmo produtor e potencial para provas verticais, dentro de uns anos.

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