Em meia dúzia de anos o vinho de talha virou moda e são muitos os produtores, no Alentejo e não só, que já colocaram no mercado brancos e tintos feitos integralmente em potes de barro. Curiosamente, ou talvez não, a maior adega de talhas de Portugal foi dos últimos a fazê-lo. Valeu a pena esperar.

 

TEXTO Luís Lopes FOTOS Ricardo Palma Veiga

A casa José de Sousa, em Reguengos de Monsaraz, é não apenas a maior e mais imponente adega de talhas existente em Portugal, como também a de maior presença histórica, remontando a 1878, pelo menos, a produção continuada de vinho com objectivos comerciais. Na magnífica adega de tectos abobadados encontram-se, alinhadas, nada menos do que 114 talhas de barro, algumas bicentenárias, com capacidades entre os 1200 e os 2000 litros, mais algumas “tarefas” (potes mais pequenos, de 300 litros, tradicionalmente utilizados para atestos).

Em 1986, quando a empresa José Maria da Fonseca adquiriu aos descendentes de José de Sousa Rosado Fernandes a emblemática adega de Reguengos, produtora do clássico Tinto Velho José de Sousa, restavam pouco mais de 30 ânforas de barro na chamada “Adega dos Potes”. Domingos Soares Franco e o seu adegueiro da época pesquisaram, avaliaram e compraram, na vizinhança de Reguengos e por todo o Alentejo, a pouco e pouco, as largas dezenas de talhas necessárias para devolver à adega de José de Sousa o esplendor de outrora.

Vale a pena contextualizar na época este processo de recuperação da adega tradicional de José de Sousa, feito pela família Soares Franco. É verdade que a tradição de fazer vinho em talhas se manteve desde sempre e até hoje no Alentejo, nomeadamente nas casas particulares e nas tabernas. Mas a talha, como processo de vinificação integrado numa empresa vinícola, tinha pura e simplesmente deixado de existir. E gastar tempo e dinheiro a comprar e recuperar talhas, no final dos anos 80, era encarado pelo sector do vinho como, no mínimo, capricho inconsequente, quando não mesmo disparate completo. A história vive de ciclos, é bem verdade, e hoje assiste-se a uma intensa procura de talhas por parte de antigos e modernos produtores alentejanos, com os raros potes em boas condições ainda disponíveis (já não se fabricam…) a atingirem valores astronómicos. Acredito que os Soares Franco olhem para todo este frenesim em torno das talhas com um sorriso nos lábios…

Clássicos e modernos
É evidente que uma adega de talhas, por maior e mais imponente que seja, não pode satisfazer as necessidades em vinhos do Alentejo de uma empresa com a ambição e dimensão de José Maria da Fonseca. Após a aquisição de José de Sousa, foi construída, ao lado da Adega dos Potes, uma instalação de vinificação moderna para receber as uvas da empresa e as adquiridas a lavradores locais. A vinha original necessitava de cuidados especiais (a parcela mais antiga que ainda mantém belos esteios de granito foi plantada em 1952) e passou por um longo processo de restruturação e plantação, existindo hoje 72 hectares em plena produção. A castas plantadas nas vinhas de José de Sousa são as tintas tradicionais: Trincadeira, Aragonez e, sobretudo, Grand Noir, uma tintureira que era no passado e continua a ser hoje a base dos melhores vinhos da casa. É na conjugação das duas adegas, a antiga e a moderna, que se produz o portefólio alentejano da empresa, nomeadamente os vinhos Montado, Ripanço, José de Sousa, José de Sousa Mayor e J de José de Sousa. As talhas intervêm apenas nos três últimos vinhos citados. O José de Sousa
é maioritariamente fermentado em depósitos inox, com uma pequena parte de talha e lagar. Já as versões Mayor e J, utilizam uvas desengaçadas à mão em mesas tradicionais de ripas de madeira (“ripanço”), e metade do mosto, das películas e cerca de 30% do engaço (depende dos anos) vão para as talhas. O resto é fermentado em lagar.

Sabia que…
As talhas alentejanas eram fabricadas sobretudo em São Pedro do Corval, Beringel e Campo Maior.

No portefólio comercial de José de Sousa faltava, porém, um vinho integralmente feito em talha. Surgiu agora, e em dose dupla, branco e tinto, de 2015, com a marca Puro Talha. O tinto utilizou as clássicas Grand Noir, Aragonês, Trincadeira e um pouco de Moreto. Para o branco foram usadas as não menos tradicionais Manteúdo, Diagalves e Antão Vaz. Num e noutro caso, as uvas utilizadas foram fermentadas em conjunto nas talhas. No branco, a fermentação decorreu sem engaço. Após a fermentação, o vinho ficou sobre as massas até Novembro, sendo depois passado para outra talha onde esperou alguns meses, protegido da oxidação por uma película de 2 cm de azeite, como era usual na vinificação antiga. Já o tinto foi fermentado com 30% de engaço em talhas de 1600 litros, permaneceu igualmente sobre as massas até Novembro e, após a prensagem, uma parte voltou às talhas e outra foi para barricas de 500 litros feitas em madeira de castanho.

Em conjunto com as novas colheitas das referências José de Sousa, Mayor e J, também agora lançadas no mercado, os Puro Talha vêm dar mais exclusividade a um portefólio de vinhos alentejanos de grande nível, que leva bem alto o nome de uma casa que soube conciliar, como poucas, a tradição e a modernidade, mantendo o toque de diferenciação hoje em dia tão valorizado por apreciadores de todo o mundo.

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