Luís Lopes | Editor

Onde tudo começa

By 23 de Abril, 2021 Sem comentários

Editorial da revista nº48, Abril 2021

Terra, pedra, textura. Vale, encosta, planalto. Vento, chuva, escaldão, geada. Podar, empar, vigiar, tratar. Enfrentar o frio e o calor, provar os bagos para avaliar sabor, açúcar, acidez, taninos. Regressar triste ou contente, desalentado ou entusiasmado. Será que o tempo aguenta até à vindima? É ali, na vinha, que tudo tem início. Quem não sente a videira, não pode verdadeiramente sentir o vinho.

Em mais de três décadas a escrever sobre vinhas e vinhos já assisti a muitos ciclos de produção e comercialização. Quando comecei, em 1989, a esmagadora maioria das marcas existentes no mercado correspondiam a vinhos que não tinham sido feitos pela empresa que os engarrafou. Em muitos casos, o proprietário da marca, sobretudo as de maior volume, não tinha sequer ideia da origem do vinho que comprou e que depois vendeu com o seu rótulo. Salvo honrosas excepções, vinha, vinho e marca eram três mundos separados que só se relacionavam através de transações comerciais. Algumas casas entre as grandes possuíam adegas e vinhas próprias, é certo. Mas estas representavam uma parte irrisória das suas necessidades de uvas e vinho. E, mesmo dentro de casa, a vinha era algo longínquo para quem estava na adega e na sala de provas. Em muitas empresas, o enólogo chefe raramente sujava as botas na vinha e, quando o fazia, não era com prazer.

Entretanto, o consumidor foi-se tornando mais conhecedor e exigente. E, a dada altura, deu-se um momento de viragem, quando encontrou valor acrescentado nos chamados “vinhos de quinta”. As empresas maiores sentiram então a necessidade de ter mais controlo sobre a matéria-prima que recebiam. Começaram a aumentar a sua área de vinha, a profissionalizar a vertente agrícola, a valorizar os conhecimentos dos técnicos de viticultura.

No início no século XXI, cresceu entre o apreciador a vontade de saber mais, de chegar até à origem do vinho, de visitar a vinha onde este nasceu. Ao mesmo tempo, já não lhe bastava aceder a um bom produto, o vinho tinha também de ser diferenciador, de ter uma história para contar. Aliada esta vontade do mercado à necessidade de manter a consistência das marcas, as grandes casas reforçaram o seu investimento em terra, em vinha e nos recursos humanos que lhe estão associados. Hoje em dia, é quase impensável para as empresas de maior dimensão, e com marcas em diversos segmentos de preço, não controlar a maioria das uvas, seja nas vinhas próprias, seja nas dos fornecedores.

Curiosamente, porém, nos últimos dois ou três anos, tenho vindo a assistir a algo que, até há pouco, julgaria impensável: o nascimento de marcas de nicho alicerçadas num nome “cool” e num rótulo atractivo, e potenciadas pelas redes sociais. Marcas sem vinha, sem adega, sem vinho (!), protagonizadas por pessoas oriundas de outras áreas de actividade que se insinuam junto de um produtor e que, perante dez ou doze amostras que lhe colocam à frente, escolhem uma para vender com o seu nome. E depois, apesar de nunca terem pegado numa tesoura de poda, enchido uma cuba, colocado uma rolha, contam no Facebook uma história sobre uma vinha que não conhecem e sobre um vinho que “ajudaram a fazer”. Alguns, não têm vergonha de acentuar que até “ensinaram” o enólogo a melhorar o lote. E vendem essas garrafas como vinho “de autor”, cinco vezes mais caro. Só cai quem quer, é verdade, e gente com talento para tomar como seu o trabalho dos outros sempre houve em todas as áreas de negócio. O que me espanta, no entanto, é que são precisamente os apreciadores que valorizam a genuinidade e a diferença que vão no logro, e compram esta falsa exclusividade a um preço muito acima do seu valor qualitativo.

Tenho para mim que, quanto mais ambicioso e oneroso for um vinho, mais fácil deverá ser para o consumidor seguir as suas pegadas até à origem. E a origem de um grande vinho é terra, é vinha, é gente. É verdadeiramente ali que tudo começa. Sem essa rastreabilidade, o vinho é apenas uma marca, mais uma.

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