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Os vinhos do Engenheiro

By 24 de Outubro, 2018 Sem comentários

Edição nº11, Março 2018

Lançamento

Singellus. Singelo. Pureza. Uma maneira singela, mas assertiva, de fazer as coisas. Era assim Belmiro de Azevedo e agora assim são, em forma de legado, cinco novos vinhos produzidos na quinta da família.

TEXTO Mariana Lopes
FOTOS Anabela Trindade

“Por, em jovem, ainda me ter dedicado à agricultura, resolvi regressar para lançar um conceito de porte ambicioso, delegando no verdadeiro mestre a orientação hábil dos vinhos.”

Belmiro Mendes de Azevedo referia-se a Anselmo Mendes nesta declaração. De mestre para mestre. A amizade já existia e a consideração profissional também – por isso, uma parceria deste género nunca seria de estranhar.
“O Engenheiro”, como era conhecido, dentro da Soane, o empresário de Marco de Canavezes, passou os seus últimos anos entre ofícios agrícolas na Quinta de Ambrães, pequena propriedade da família Mendes de Azevedo, nas encostas do Vale do Tâmega. Juntamente com a sua esposa, uma farmacêutica aficionada pela botânica, transformou aquele sítio num jardim vivo, e isso serviu de inspiração para o logo e rótulos Singellus, que mostram uma árvore com cachos de uvas, outros frutos e também flores.
Com o nome da quinta já saíam os vinhos Vale de Ambrães, referências de perfil mais simples com destino às grandes superfícies do grupo Sonae. Belmiro disse, ao “Expresso”, em 1999: “Fiz obras na casa que era dos meus pais e adoro ir para lá com a família toda. A minha mulher fez lá um enorme jardim, metade da quinta são flores e a outra metade é com o meu vinho verde, o Vale de Ambrães (…) Em frente da minha casa há uma montanha verde chamada Montedeiras, eu sento-me ali a ler e a olhar e é tão bom como ouvir Mozart, Chopin ou Beethoven… ou apreciar um quadro naturalista.”
Tendo arrancado há dois anos, o projecto Singellus traz três monocastas com esse nome, Loureiro, Alvarinho e Avesso; dois Singellus Private, um Alvarinho e um Avesso; e ainda o Solto, um entrada de gama e o único cujas uvas provêm dos três hectares de vinha da Quinta de Ambrães (funcionando o resto em contratos de viticultura). A gestão, apesar da incontornável ligação à família, é puramente profissional e cabe à Realejo, uma das empresas da Efanor, a holding que representa a família Azevedo no mundo Sonae.

Anselmo Mendes é o enólogo dos Singellus

Pedro Castro, uma das caras do empreendimento, explicou: “Cientes do desafio que é introduzir uma nova marca de vinhos num mercado cada vez mais competitivo e recheado de boas referências, o projeto Singellus junta a mestria na estratégia e gestão de Belmiro de Azevedo com a perícia de Anselmo Mendes em expressar as melhores características de cada casta, harmonizando-as com habilidade.” A Realejo revelou, ainda, que “estar inserido num grupo agrícola com outras vertentes tem as suas vantagens”: “Na vindima, as uvas vão para as câmaras frias da nossa empresa de quivis, que as consegue baixar à temperatura ideal para a posterior fermentação.”
O Solto é um blend de Alvarinho, Arinto, Loureiro e Trajadura da vinha da Quinta de Ambrães. Essa vinha tem parcelas com quatro e cinco anos e, segundo Pedro e Anselmo, tem maturidade a ganhar antes que as suas uvas possam integrar os outros vinhos. Os três varietais Singellus são vinificados em inox e os dois Private em madeira nova de carvalho francês, tendo sido feitas apenas 1000 garrafas do Alvarinho e 2000 do Avesso. Sobre estas duas edições limitadas, Anselmo Mendes revelou que “o estágio sobre borras totais é essencial e o processo de vinificação é igual para os dois”, e sobre a madeira desvendou: “O meu objectivo é sempre que a madeira passe despercebida, mas no Private Alvarinho sente-se um toque dela; o Avesso portou-se ainda melhor nesse aspecto.” E é verdade: com todos os vinhos a mostrarem uma qualidade inerente à do seu artesão, o Singellus Private Avesso foi o ponto alto da prova.

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