Sabores

Pode uma padaria ajudar a rejuvenescer um bairro?

By 1 Fevereiro, 2019 Sem comentários

O bairro de Alvalade tem a população mais envelhecida de Lisboa, mas foi aí que nasceu a padaria mais cool do país. Bem-vindos ao Isco.

TEXTO Ricardo Dias Felner
FOTOS Ricardo Palma Veiga

São 10h30 de uma quarta-feira e as pessoas não param de chegar. A fila vai até à porta da rua e é heterogénea. Há de tudo: a lojista da boutique, uma vizinha anciã, um rapaz com rastas e um cão rafeiro pela trela, dois hipsters e um rockabilly, um chef de um restaurante da moda. O Isco apareceu como um ovni no bairro de Alvalade e toda a gente lá quer ir.
“É muito gratificante ver que as pessoas daqui estão a gostar, mas também que vem gente de fora. Os vizinhos dizem-me que vêem pessoas por aqui que nunca viram”, conta Paulo Sebastião, sócio e padeiro chefe, o habitual boné de pala na cabeça, o avental cheio de farinha. “Está a ser um desafio, porque não esperávamos tanta gente. Sábado, durante todo o dia, a fila estendeu-se pela rua.”
E podia não ter sido assim. A oferta do Isco, inaugurado em Setembro, é bem diferente da que se encontra nas padarias de supermercado ou mesmo nas padarias de rua. Boa parte do pão, amassado e cozido à vista dos clientes, usa massa-mãe como fermento natural, aposta em côdeas mais tostadas e nalguns ingredientes invulgares, como a alcaravia ou o cardamomo.

O cardamomo está na base, aliás, da grande surpresa até agora. “O nosso bestseller são os kardemummabullar.” Perdão?! “São uns bolos de cardamomo suecos, feitos com massa de trigo, ovo, açúcar e cardamomo.” E como é que se lembraram disto?
A história obriga a recuar no tempo. Há dez anos, Paulo teve um convite para ir trabalhar como consultor informático para Estocolmo. Um dia, sentiu saudades de comer pão “a sério” e aceitou um emprego em part-time, numa das melhores padarias da cidade. Nascia aí o bichinho pelo pão e foi também aí que aprendeu a fazer os kardemummabullar, espécie de bolo nacional na Suécia.
À partida, julgar-se-ia que a clientela mais conservadora do bairro fosse preferir os bolos de canela, mas a verdade é que o cardamomo tem ganho aos pontos, mesmo entre a comunidade do bairro, com a média de idades ao alto.
Não se pense, contudo, que a oferta é toda exótica, que só há pães com muita acidez, muita massa-mãe, farinhas integrais e especiarias. No Isco, tanto se encontram pães com trigo persa (conhecido como Kamut), integral e biológico, como se fazem baguetes clássicas, à francesa, com o miolo branco, ou pains au chocolat, bons para comer com um bom café de saco de arábica da Etiópia.
Por agora, o modelo tem funcionado. Ao bairro de Alvalade chega gente de todo o lado para experimentar a padaria. Alguma coisa está a mexer por ali. E sabe bem.

ISCO
Rua José D’Esaguy 10D (Alvalade), Lisboa.
Ter-sex 10h00-19h00, sáb 10h00-17h00.

Edição Nº18, Outubro 2018

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