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Poejo d’Algures: Os vinhos da garrafeira Néctar das Avenidas

By 6 de Dezembro, 2021 Sem comentários

Desta vez não descobrimos propriamente um produtor, mas novos vinhos de vários produtores bem conhecidos espalhados por mais do que uma região. São vinhos produzidos exclusivamente para a loja Néctar das Avenidas.

Texto: Nuno de Oliveira Garcia

Fotos: Néctar das Avenidas

A garrafeira lisboeta Néctar das Avenidas já mereceu atenção da nossa revista anteriormente, tendo mesmo sido destacada com o prémio Garrafeira do Ano. O projeto, sempre sito no bairro das Avenidas Novas (daí o nome e a referência a “avenidas”) em Lisboa, foi inaugurado em 2011, tendo mudado uma vez de lugar, apenas para poucas dezenas de metros de distância, agora na Rua Pinheiro Chagas 50.  Fica numa esquina com o troço final da Avenida Luís Bívar (quase antes de se tornar Marquês de Tomar) e basta entrar na loja para, repentinamente, nos apercebemos de que estamos numa garrafeira ligeiramente diferente de tantas outras. Mais do que Douro e Alentejo, são as estantes com vinhos dedicados à Bairrada e ao Dão que se impõem ao olhar. Dir-se-ia que é uma preferência dos sócios (eles não confirmam, todavia sabemos ser verdade), mas somos informados que o público fiel da casa opta mesmo por aquelas duas regiões do Centro do país. As outras regiões estão, obviamente, presentes, e nota-se uma seleção criteriosa dos produtores e vinhos à venda. Ora, a par de uma especial atenção a vinhos mais velhos, e a alguns produtos originais dos Açores (que não apenas vinhos), há algo mais que nos capta a visão… Uma marca que desconhecíamos, de nome Poejo.

Trata-se, afinal, de uma marca criada pelos sócios Pedro Garcia e João Quintela, sendo que a palavra “poejo”, para além de retratar a conhecida cespitosa, funciona como um falso acrónimo formado pela junção de algumas das primeiras letras dos fundadores. O impulso de começar a desafiar alguns produtores a fazerem lotes especialmente para serem vendidos na loja começou em 2012 e, segundo nos dizem, todos os produtores que foram abordados para o efeito aceitaram de imediato. Ambos os sócios do projeto têm como lema principal “se não vendermos os vinhos, bebemo-los nós”, o que, bem vistas as coisas e perante a qualidade dos vinhos, é uma ótima ideia! Para evitar problemas de marcas e de propriedade intelectual, dada a utilização comum da erva poejo na gastronomia e em produtos alimentares, a versão final do nome/marca ficou Poejo d’Algures embora, quer a imagem dos rótulos, quer a gíria de quem o pede, privilegie apenas a referência a Poejo. A ideia fecundadora terá surgido pelo desejo de Pedro Garcia, que nos diz gostar “de fazer marcas”, em ter uma marca própria, sendo que o proprietário acumula ainda as tarefas burocráticas e de design gráfico. João Quintela – enófilo conhecedor e colecionista – concordou com a ideia, e ajuda na seleção dos produtores e na escolha dos lotes finais. Conhecendo os dotes de prova do João, imagino que o faça sem grande dificuldade e com muita alegria. De alguma forma, o projeto Poejo nasceu de forma independente da loja, mas está a ela inevitavelmente ligado por ser o seu único posto de venda. A imagem da marca (se é que assim se pode dizer de uma marca com tantas variáveis) é, efetivamente, a excelência dos produtores e enólogos escolhidos, o que se deve, estamos certos, à experiência de ambos os sócios no mundo do vinho. Aliás, em vários casos o produtor ou o enólogo escolhidos foram já premiados pela nossa revista como Melhores do Ano, sendo que a maioria dos preços dos vinhos que foram lançados se encontra no intervalo entre 9 e 19 euros, valores acessíveis perante a qualidade geral. Tivemos a oportunidade de provar todos os vinhos, e fazemos de seguida um périplo cuja ordem assenta na cronologia dos lançamentos.

Garrafeira Néctar Avenidas

Em julho de 2014 foi lançado o primeiro vinho: um branco da região do Alentejo, produzido em Estremoz por Margarida Cabaço (Monte dos Cabaços) com enologia de Susana Esteban. A colheita de 2012 rapidamente esgotou sendo lançada de seguida a colheita de 2013, com sucesso repetido. Motivados com o sucesso da estreia, uma segunda fase do projeto surgiu em outubro de 2014 e contou com dois tintos do Douro Superior, ambos produzidos pelo produtor Vinilourenço, com enologia de Virgílio Loureiro: um Reserva de 2011 feito com castas tradicionais da região – muito Douro, esteva, fruto negro, leve rusticidade (16,5) – e um Grande Reserva 2011 feito apenas com a casta Sousão – surpreende pela elegância, vivo e especiado (17,5).

Um ano volvido, é lançado um vinho tinto da colheita 2013 produzido também na região do Douro, mas agora pelas mãos de Sandra Tavares da Silva e de Jorge Serôdio, a dupla da Wine&Soul – fruto bonito e elegante com ótima frescura e evolução (17,5). No mesmo mês foi lançado outro tinto de 2013, desta vez da Região de Lisboa, produzido na Quinta de Chocapalha – fruto encarnado, tanino vivo, leve doçura frutada (16,5) e, em setembro de 2016, Pedro e João regressaram ao Alentejo e lançaram um novo tinto, da colheita de 2011, novamente com enologia de Susana Esteban, produzido no Monte dos Cabaços – fruto encarnado, vegetal seco, ameixa (16,5).

Pouco tempo volvido, chegou a vez de ambos os sócios viajarem até à Serra da Estrela, região do Dão, onde produziram dois novos vinhos brancos mais uma vez com enólogo e produtor premiados, Paulo Nunes da Casa da Passarella (Abrigo da Passarela); um de lote com as castas brancas tradicionais – mineral e ervas frescas no nariz, lácteo e potente em boca (16,5) – e outro só Encruzado, sem barrica – fresco e preciso (17).

Mais uma vez os vinhos esgotaram depressa e dois novos vinhos do Dão foram gizados, desta vez da casta tinta Jaen, um “rótulo branco” – fruto encarnado e especiaria, guloso e bonito (16,5) – e um “rótulo azul” – mais estágio, afinado e fresco (17) – ambos também de colheita de 2015, e ambos a mostrarem boa evolução (contrariando algum estigma que a casta a este respeito sofre).

Em outubro de 2017, chega uma nova edição duriense da dupla Jorge Serôdio e Sandra Tavares da Silva, da colheita de 2014, vinho que estabeleceu um novo recorde de vendas, tendo ficado esgotado ainda antes do Natal desse mesmo ano – Tourigas Nacional e Franca e Tinta Roriz, fruto silvestre e final explosivo (17). Em 2018 são lançados dois tintos de 2015 de Lisboa, produzidos pela Quinta de Chocapalha – ambos bons, mas a merecer destaque a segunda edição que junta duas barricas de Syrah e uma de Touriga Nacional, jovem e profundo (17,5).

No final de outubro de 2020, pela primeira vez, é lançado um Vinho Verde Alvarinho com lote de vários anos – colheitas de 2016, 2017 e 2018, metade com curtimenta completa, e barrica de 400 litros: perfil barroco, salino e floral doce, muito interessante – produzido pela Provam, com enologia de Abel Codesso, ainda à venda. Aproveitando a cada vez maior adesão a brancos por parte dos clientes da garrafeira, foi lançado, seguidamente, mais um vinho branco, agora da colheita de 2019 e produzido novamente na Quinta de Chocapalha – Viosinho e Arinto, com salinidade e acidez integrada (16,5).

O último vinho a ser lançado, e dos melhores (diga-se) marca um regresso ao Douro, mais concretamente à Wine&Soul, um tinto de vinhas velhas novamente de colheita de 2014, mas desta feita Reserva – fresco e elegante, com fantástica evolução, longo e saboroso em boca, e tudo isto com apenas 12% de álcool, também disponível para compra.

Garrafeira Néctar Avenidas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(Artigo publicado na edição de Outubro 2021)

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