Editorial da revista nº44, Dezembro 2020

O ano que agora caminha para o final, claramente, não deixa saudades. Há doze meses, nesta mesma página, procurando antecipar as tendências vínicas para 2020, escrevia eu que “todos esperam ou desejam que o novo ano seja melhor do que o anterior”. Estávamos muito longe de imaginar o que aí vinha. 2020 termina, porém, com alguns sinais de esperança e alento. Vamos, pois, virar vigorosamente a página e, em conjunto, fazer de 2021 um ano (muito) melhor. 

Luís Lopes

Antecipar tendências em anos “normais” é sempre difícil e falível. Num quadro de tantas incertezas é-o muito mais. No caso concreto do sector do vinho, nunca ninguém pensou que o comportamento dos consumidores, das empresas ou dos mercados, pudesse estar dependente de uma coisa tão simples quanto uma vacina. Mas este é o novo normal, e é com ele que vamos viver em 2021. 

Algumas tendências assinaladas para 2020 vão manter-se no próximo ano. Acredito, por exemplo, que os espumantes vão continuar a crescer, depois da quebra acentuada que certamente ocorrerá na quadra festiva condicionada que se aproxima. Também estou certo de que vectores como a sustentabilidade ambiental (a noção do efémero leva-nos a olhar com mais atenção para o que realmente importa), os vinhos brancos de topo (de castas como Alvarinho ou Encruzado, terroirs especiais ou lotes com alguma idade), as transacções de propriedades (inevitáveis com a descapitalização das empresas menos “almofadadas”) vão acentuar-se em 2021.  

Por outro lado, as tremendas dificuldades que a HORECA enfrenta, em particular nos segmentos mais orientados para o “fine dining” e para o turismo, bem como a menor afluência presencial às lojas de vinho (parcialmente mitigada pelas vendas online), vieram desvalorizar o aconselhamento personalizado que encontramos naqueles pontos de venda e consumo e, ao mesmo tempo, reforçar desmesuradamente o peso da chamada distribuição moderna, super e hipermercados. A esmagadora maioria dos vinhos são ali vendidos em promoção, com descontos monumentais. E se nos habituámos, nos últimos anos, a ver algumas marcas de menor estatuto (mas que fazem números impressionantes) em “promoção permanente, agora deparamo-nos com marcas clássicas, algumas com várias décadas de idade, a entrar no mesmo modelo. Implanta-se a fidelização à promoção e não à marca. Ou seja, o cliente dos hipers compra apenas o vinho que estiver em promoção e não a marca que reconhece; e as marcas tradicionais promocionadas arriscam nunca mais poder voltar aos seus preços de referência.  

Mas há coisas boas que se vão manter. O consumidor de nicho vai, muito provavelmente, continuar a procurar a diferença. Os vinhos de talha estão em alta (quem diria…), quando há pouco mais de uma década, em muitas casas alentejanas reconstruídas para os novos proprietários citadinos, as talhas eram partidas para fazer entulho. Os brancos de curtimenta, brancos de tintas, vinhos de castas raras ou de vinhas centenárias, orgânicos, “naturais”, “pet nat” e outros que tais, vão manter a procura, alicerçada nas redes sociais e na venda online. 

Estes vinhos diferenciadores são importantes para assegurar a vitalidade e diversidade de um sector que provavelmente se vai bipolarizar, entre os “promocionados” dos hipermercados que ocupam quase todo o espaço e os “alternativos” que ficam com as especialidades. Dificuldades acrescidas para muitos dos melhores e mais consistentes vinhos portugueses, que não são nem “promocionados” nem “alternativos”, e que correm o risco de ficar encalhados em terra de ninguém. Deixo dois conselhos aos seus produtores: resistam o mais que puderem, mantenham-se firmes no projecto que criaram, nas vinhas e nos vinhos que amam como se filhos fossem; e aprendam a construir e a contar uma boa história, utilizando para a comunicar todas as plataformas que estão ao vosso dispor. Pela nossa parte, continuaremos a apoiá-los e a ajudar a estreitar os laços entre quem produz e quem consome. 

Termino com um prognóstico que não deve falhar: 2021 será melhor do que 2020. Que chegue depressa o novo ano. Saúde para todos, fiquem bem. 

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