A história tem demonstrado que bons negócios no sector de vinho acontecem, quando um grupo com capacidade de investimento e visão de longo prazo, e não de lucros imediatos (que, na realidade, é pouco provável nesta área), adquire uma propriedade com história e reputação, entretanto mal gerida, mas com potencial de recuperar a fama pretérita. Nestes casos, ganham todos, incluindo os enófilos, porque podem voltar a beber os vinhos que outrora lhes encheram as medidas. É o caso da Quinta de Pancas, localizada no concelho de Alenquer, que, agora, integra o universo da WineStone.
O projecto organiza-se em dois níveis: a liderança cabe a Vasco Rosa Santos, director de operações, e a David Baverstock, director de enologia. No terreno, a Quinta de Pancas é acompanhada por Vasco Costa, enólogo e responsável de viticultura, cujo percurso passou por casas como Val d’Algares, Casa Santos Lima e Segur Estates, e por Francisco Garcia, enólogo residente, que traz experiência da Quinta do Rol e da Adega de Redondo.
A boa casa à família torna
Fundada em 1495, a Quinta de Pancas conheceu vários proprietários ao longo da sua história. Em tempos pertenceu à família Guimarães, um ramo da família Mello, que hoje detém o grupo WineStone. A partir de 2006 integrou a Companhia das Quintas, enquanto o Solar de Pancas foi vendido separadamente à família Philimore, em 2008. Antes de ser adquirida pelo grupo, a propriedade esteve sob gestão da sociedade de Miguel Pais do Amaral (AHS Investimentos).
A WineStone já “namorava” esta quinta desde 2020. A aquisição concretizou-se em 2023 e incluiu as vinhas e a produção, mas tornou-se pública só em janeiro de 2024. O negócio foi motivado por três razões: uma histórica sentimental, ligada ao passado familiar da quinta; outra baseada nos valores intangíveis da marca e no potencial do terroir; e uma terceira, meramente prática, relacionada com o acesso a uma região produtiva, capaz de sustentar o negócio, sobretudo na exportação.
Na vinha, encontraram uma disparidade evidente: “o que era bom, era muito bom, e o que era mau, era péssimo”, explica Vasco Rosa Santos. Neste contexto, a reabilitação da vinha tornou-se uma prioridade. A vindima de 2023 foi assegurada pelos enólogos da WineStone. As uvas brancas já haviam sido vendidas pelo anterior proprietário, o que obrigou a recorrer à uva comprada, enquanto as uvas tintas foram colhidas e vinificadas pela equipa do grupo.
A propriedade precisa de investimentos elevados. A antiga adega, em estado de degradação, deixou de ser funcional e não oferece segurança. Por conseguinte, a vinificação realiza-se numa adega alugada e o engarrafamento e armazenamento do produto acabado são feitos no centro logístico do grupo, em Vendas Novas. Um conjunto de pequenos armazéns, onde antigamente se produzia vinho particular, será recuperado e destinado ao enoturismo. Além disso, pretende-se realizar uma investigação histórica mais pormenorizada sobre a Quinta de Pancas, uma vez que, com mudanças de proprietários ao longo dos anos, muita informação se perdeu.
Serra, vinhas e castas
Situada no concelho de Alenquer, junto à aldeia de Pancas, a quinta fica quase na fronteira entre as regiões de Lisboa e do Tejo, beneficiando de dias quentes moderados e noites frescas. A Serra de Montejunto protege as vinhas dos ventos e das massas de ar atlântico que chegam do Noroeste. As nuvens acumulam-se “agarradas” à crista da serra e o ar, que desce para o lado sul, tende a ser mais quente e seco, reduzindo a precipitação, um efeito clássico de sombra pluviométrica. No dia da nossa visita à propriedade, pudemos observar este fenómeno, quando fomos às vinhas.
Mesmo assim, a proximidade do Atlântico (situado a 30 quilómetros em linha recta) faz-se sentir através de nevoeiros e neblinas, que deixam as folhas molhadas durante horas. Com temperaturas amenas, isto torna-se um resort para fungos. Segundo Vasco Costa, a precipitação anual é elevada, nunca inferior a 600 milímetros, podendo atingir os 800 milímetros. Com esta pluviosidade, as vinhas não necessitam de rega.
As vinhas estendem-se num grande anfiteatro ondulado, virado a Norte e Nordeste, com fileiras que descem pelas encostas entre os 250 e os 120 metros de altitude. A inclinação é bastante acentuada, chegando aos 40%. Por um lado, proporciona uma melhor exposição solar, maior circulação de ar e escoamento de água, mas, por outro, dificulta o trabalho na vinha e limita o uso de máquinas, sobretudo em períodos chuvosos.
“Tirando a Bairrada, os solos em Portugal são, maioritariamente, ácidos, e aqui são argilo-calcários, com pH alto”, refere Vasco Costa. Com bastante pedregosidade por baixo, oferecem boa drenagem, mas também apresentam desafios: alguns nutrientes ficam indisponíveis para a planta, acumulando-se no solo, o que se foi agravando com uso desmedido de fertilizantes. Após a aquisição, encontraram o terreno em mísero estado, motivo pelo qual uma das primeiras preocupações da equipa da WineStone foi a implementação de práticas que melhorassem o solo. Estas medidas passam por evitar adubos minerais, aumentar a matéria orgânica e corrigir a falta de nutrientes a nível foliar, doseando-os através de análises de seiva nas alturas críticas do ciclo vegetativo: antes da floração, depois do vingamento e no início do pintor.
A vinha também precisa de muita intervenção, pois, “passou por várias mãos e cada um fez o que quis”, explica o responsável de viticultura. De momento, toda a plantação está a ser convertida de cordão para vara, isto é, em vez de braços permanentes ao longo dos anos, a madeira produtiva passa a ser renovada anualmente. É uma viticultura mais exigente, mas que permite um maior controlo sobre a planta e evita cortes grandes na videira, que abrem o caminho a doenças de lenho. Dá mais trabalho na altura da poda. Vasco lamenta a dificuldade em arranjar pessoas na região que saibam podar em vara, acabando por trazê-las do Norte do país.
A Quinta de Pancas conta com 53 hectares de vinha, dos quais 15 são plantados com castas brancas. Entre as tintas, as castas privilegiadas são Cabernet Sauvignon (35%) e Touriga Nacional (25%), seguidas por Syrah (10%), Merlot (10%) e pequenas parcelas de Alicante Bouschet, Castelão, Touriga Franca e Petit Verdot. Quanto às brancas, predominam a Arinto (60%) e a Chardonnay (38%), com uma pequena presença de Vital. O Castelão será reenxertado com outras castas, pois os clones são antigos, altamente produtivos e pouco compatíveis com vinhos de maior ambição – dariam, eventualmente, para um rosé.
Actualmente, a vinha apresenta uma produtividade que ronda as oito toneladas por hectare, um valor relativamente baixo para a região. Depois da recuperação da vinha, o objectivo é elevá-la para as 12 toneladas por hectare nas castas que toleram este incremento sem comprometer a qualidade, como a Arinto, enquanto o Chardonnay, destinada a vinhos de topo de gama, será limitada a cerca de cinco toneladas por hectare.
Quatro gamas do portefólio
Em termos de lógica do portefólio, existem quatro gamas, em que os vinhos monovarietais de Cabernet Sauvignon e Chardonnay continuam a ter um grande destaque. O Reserva funciona como uma espécie de entrada de gama, mas num patamar superior, pois ainda há o Pica Bagos destinado ao retalho e feito com uva comprada. Embora 95% do Reserva seja produzido com uva própria, ambos os vinhos irão manter o nome “Pancas”, para uniformização da marca (hoje, o tinto ainda se chama “Quinta de Pancas”). Nas colheitas futuras, o nome “Quinta de Pancas” será reservado aos vinhos monovarietais e para o Grande Reserva.
Os Reserva, branco e tinto, estagiam durante seis meses em barrica. No tinto privilegia-se um perfil pouco extractivo. Recorre-se à micro-oxigenação para amaciar os taninos e o tornar mais apelativo em novo. No terceiro dia da fermentação, as grainhas normalmente caem no fundo da cuba e são retiradas, para não conferir amargor, nem adstringência. O processo termina também sem películas. Esta abordagem garante uma menor extracção no geral e uma textura mais macia. Volume de produção engloba 50.000 garrafas de branco e 50.000 de tinto.
Os monovarietais Quinta de Pancas Cabernet Sauvignon e Chardonnay procuram expressar o carácter varietal. “Quando falamos de castas internacionais, o importante é manter a sua identidade. A região de Lisboa consegue fazê-lo com algumas castas francesas”, explica Vasco Rosa Santos. O Chardonnay resulta de uvas de um lote de dois talhões com vinhas de idade já madura, com aproximadamente 30 anos, vinificadas separadamente. Parte do vinho fermentou em barricas de carvalho francês novas, mas de maior capacidade (500 litros), e usadas de 225 litros com mais de dez anos. Outra parte fermentou em cuba de inox, sendo depois transferida para o estágio em barricas usadas de 225 litros. O Cabernet Sauvignon 2022 estagiou oito meses em barricas usadas de carvalho francês. A produção ronda as 12.000 garrafas de Chardonnay e cerca de 35.000 garrafas de Cabernet Sauvignon.
Os Grande Reserva são vinhos bivarietais, combinando uma casta portuguesa e uma internacional. No branco, a Chardonnay fermentou em barrica nova e usada de carvalho francês e a Arinto em cuba de inox, terminando a fermentação em barricas usadas de 225 litros. Seguiu-se o estágio sobre borras por oito meses. No tinto, o Cabernet Sauvignon e a Touriga Nacional tiveram abordagens diferentes: mais extracção no primeiro, para assegurar uma boa evolução em garrafa, e temperatura de fermentação mais baixa, no caso da Touriga, privilegiando a definição aromática. Em termos de estágio, a Cabernet passou por barricas novas e de segundo ano, enquanto a Touriga estagiou em barricas mais antigas. Foram produzidas 6.500 garrafas de Grande Reserva branco e 6.600 garrafas do tinto.
Os Special Selection são pensados como a expressão máxima da Cabernet Sauvignon e da Chardonnay, sendo lançados apenas em anos de qualidade excepcional e implicando uma seleção particularmente rigorosa de barricas para a definição do lote final. A produção mais recente é limitada a cerca de 2.700 garrafas de Special Selection Chardonnay e 3.000 garrafas de Cabernet Sauvignon.
(Artigo publicado na edição de Fevereiro de 2026)















