Há muito que não parava ali, apesar de passar à porta de vez em quando nas minhas deambulações de carro pelos arredores de Lisboa, em escapadas de um dia da grande cidade, que fazem sempre bem ao corpo e à alma. A propriedade fica a meia encosta, numa das colinas do concelho de Arruda dos Vinhos, com vista sedutora pelos campos afora e com as suas quintas e quintinhas. Neste território, pertença da região vitivinícola de Lisboa, estão a grande casa do proprietário, António Parente, os estábulos e o picadeiro dos cavalos que tanto gosta e a antiga adega, hoje garrafeira, onde permanecem algumas das suas preciosidades. Foi lá que decorreu a apresentação dos primeiros dois vinhos da 1755, a nova gama da Quinta de São Sebastião.
Data histórica
Trata-se, como é do conhecimento de muitos portugueses, da data histórica do grande terramoto que assolou Lisboa, seguido de maremoto (ou tsunami, na versão japonesa, como os apresentadores das nossas televisões o gostam de apelidar) que ceifou muitos milhares de vidas da cidade e não só. Do lado positivo, deu impulso à reconstrução da urbe, de forma mais organizada, como se pode ver hoje na baixa pombalina, e ao uso de métodos de construção antissísmica padronizados e inovadores, usados durante os 100 anos seguintes e que, ainda hoje, existem em alguns dos edifícios mais antigos.
Paralelamente, o ano de 1755 data a criação da Quinta de São Sebastião, propriedade histórica do concelho de Arruda dos Vinhos. “Desde a sua fundação, tem estado associada a alguns momentos históricos da região e também ao poder local, à igreja e a serviços militares, pois estamos inseridos nas Linhas de Torres e o forte de S. Sebastião da Arruda, ou do Cego, que fica por cima da propriedade e defendia o vale de Arruda, prova isso”, apresenta Filipe Sevinate Pinto, enólogo na casa desde 2011.
A nova gama ostenta uma imagem alusiva ao terramoto de 1755 e engloba um produto fora da caixa da Quinta de São Sebastião
Uvas de exposições e altitudes diversas
Original de Viana do Castelo, o proprietário, António Parente, vive nela há cerca de 40 anos. Desde essa altura, “pretendeu contribuir para dinamizar a região em várias áreas, sobretudo uma que lhe era muito cara, a da vitivinicultura”, esclarece o enólogo. Por isso, o projecto que começou a desenvolver passou pela privatização da Adega Cooperativa de Arruda dos Vinhos, na altura a atravessar momentos difíceis, e foi evoluindo por um caminho que, através do alargamento da produção e da venda dos vinhos apenas da Quinta de São Sebastião, evoluiu para um negócio muito mais vasto. “Representava, há 15 anos, cerca de 80 mil garrafas de vinho e, hoje, é um projecto internacional, que vende para mais de 50 países e absorve, não só as uvas da propriedade, como as de outras parcelas que foram sendo adquiridas e incorporadas num negócio que tem, hoje, um total de 45 hectares de vinhas próprias”, informa Filipe Sevinate Pinto, acrescentando que “os 200 hectares de outros viticultores da região contribuem para enriquecer um projecto que tem uvas de diversas origens, com altitudes e exposições diferentes”.
Dois tintos sedutores
Os vinhos da nova gama 1755, lançados este ano, pretendem dar espaço ao que a empresa produz e não tem enquadramento nas suas outras referências, “que são muito definidas e apresentam alguma maturidade no mercado”, explica o enólogo. São 14 marcas, entre as quais destacam-se Quinta de S. Sebastião, S. Sebastião, Forte de S. Sebastião ou Fonte das Setas. Saliento a QSS Rare, que “inclui vinhos mais modernos, e tem tido grande sucesso nos Estados Unidos”, porque parte das receitas das vendas reverte para a Liga para a Protecção da Natureza, Organização Não Governamental de Ambiente (ONGA) de âmbito nacional, fundada em 1948. É hoje a associação mais antiga do género da Península Ibérica. Portanto, não é de estranhar que os vinhos desta gama tenham, no rótulo, imagens de espécies em perigo de extinção, como o Cavalo Marinho ou o Lobo e o Lince Ibéricos.
A empresa produz e comercializa também a marca internacional Angry Duck, “um Cabernet Sauvignon que vendemos para todo o mundo”, afirma Filipe Sevinate Pinto. Segundo o enólogo, “todas as gamas da empresa estão muito definidas e, por isso, fazia sentido dar este passo para coisas que não se enquadram nelas”. Foi assim que surgiu a nova marca, que tem uma imagem enigmática, do terramoto, para englobar um produto fora da caixa produzido pela Quinta de São Sebastião. Inclui “pequenas séries, que não têm uma sequência lógica, de vinhos para comida”, que poderão ser, ou não, repetidos
As primeiras referências lançadas, um vinho da casta Castelão, “mais aberto, com 12 graus, fresco, com tensão, e um Reserva, um vinho mais quente, por ser extraído, mais concentrado, opulento, com uma fruta fresca”, foram apreciados na antiga sala da adega, com a sua garrafeira empoeirada, na companhia de comida pensada e elaborada pelo Chef de cozinha do Hotel Eva, no Algarve, Alberto Carvalho depois da visita às propriedades e às suas instalações. Dois grandes vinhos e um bom momento com a comida.
(Artigo publicado na edição de Abril de 2026)











