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Quinta do Crasto, com razão e muita paixão

By 30 de Janeiro, 2019 Sem comentários

Uma das mais excitantes empresas do Douro e de Portugal mistura as bases científicas com o saber empírico, equilibra a razão com a paixão, para solidificar um projecto vencedor. O Douro Superior trouxe quantidade com muita qualidade, enquanto as vinhas velhas da Quinta do Crasto asseguram vinhos sublimes.

TEXTO Mariana Lopes
NOTAS DE PROVA Luís Lopes
FOTOS Anabela Trindade

Desde 1615 que há registo de existência e produção de vinho na Quinta do Crasto, mas foi no início do século XX que a propriedade foi adquirida por Constantino de Almeida, bisavô da geração que está actualmente à frente da empresa e fundador da casa e marca Constantino, produtora e exportadora de Vinho do Porto com o famoso slogan “A fama do Constantino já vem de longe”. Quando da sua morte, o filho Fernando Moreira d’Almeida assumiu a gestão da Quinta do Crasto, que em 1981 viria a passar para a sua filha Leonor e o marido Jorge Roquette. Assumindo a maioria do capital, foi com a ajuda dos filhos Tomás e Miguel que encetaram uma “revolução” no Crasto, remodelando e alargando as vinhas e criando o projecto de produção de vinho com denominação de origem Douro. Foi aí que teve início um caminho marcadamente ascendente, culminando no Crasto que conhecemos hoje, posicionado entre os mais relevantes projectos vitivinícolas do Douro e de Portugal.
A Quinta do Crasto, situada no Cima Corgo, na margem direita do Douro, em Gouvinhas (entre a Régua e o Pinhão), é uma pequena península oblonga que entra pelo rio, para trás da qual se estendem os vinhedos, até aos 550 metros de altitude. São 82 hectares de vinha assente em solos de xisto, número que inclui os 40 de vinhas velhas com uma idade média de 70 anos, para a qual contribuem as icónicas Vinha Maria Teresa e Vinha da Ponte, ambas com 110 anos, e a Vinha dos Cardanhos de Cima.

Algumas parcelas estão em encostas íngremes que culminam no rio, as mais antigas em tradicionais socalcos do Douro, as mais recentes na vertical, em zonas com inclinação inferior a 35%. Onde a inclinação é superior instalaram-se patamares de um ou dois bardos.
O encepamento consiste, na sua maior parte, em variedades tintas tradicionais do Douro, representando as brancas apenas oito hectares nesta quinta, nas zonas mais altas. A exposição solar é, maioritariamente, Nascente e Sul. Com uma viticultura manual e tão orgânica quanto possível, com a preservação de várias espécies da flora e fauna protegidas, o Crasto demonstra uma profunda consciência ecológica. “Não procuramos apenas uma certificação nem plasmar isso num rótulo, fazemos assim porque acreditamos”, confessou Tomás Roquette.
A casa, também ela com mais de cem anos, tem um fantástico pátio de xisto, com vista para o rio, os vinhedos e depois do qual se encontra uma majestosa piscina com efeito de infinito, sobre toda essa paisagem, muito procurada pelos hóspedes da quinta.

O enoturismo, que abrange provas, visitas e dormidas é uma realidade que, segundo Tomás, “será alargada, com mais quartos, renovada sala de provas, nova loja e sala de jantar”, com o objectivo de “tornar a Quinta do Crasto ainda mais premium”.
Num vale, por trás da casa, encontra-se uma horta extensa com todos os produtos hortícolas com capacidade para vingar no Douro. Junto à entrada da propriedade, a adega, os lagares e a cave de barricas. Na primeira, é fácil perceber os exigentes protocolos de higiene que ali vigoram. “No blind spots, como dizem os ingleses”, indicou Tomás Roquette. Isso significa que não há nenhum recanto, grelha ou objecto que não estejam totalmente acessíveis à limpeza. A cave de barricas é uma beleza, com as cerca de 1400 barricas, grande parte novas, armazenadas num sistema Oxoline, em que cada uma está apoiada em rolamentos que permitem que sejam giradas a 360º, o que possibilita uma batonnage sem entrada de (mais) oxigénio no vinho. Todos os anos entram 400 novas barricas, o que representa um investimento de 300 mil euros anuais. É nessa cave que estagiam os vinhos Crasto Superior (do projecto do Douro Superior), Quinta do Crasto Vinhas Velhas Reserva, e ainda os monocasta Touriga Nacional e Tinta Roriz, e os tão especiais e raros Vinha da Ponte e Vinha Maria Teresa.

Vinhas centenárias, vinhas extraordinárias
Não há dúvida de que um dos pontos mais altos, quando se visita a Quinta do Crasto, é conhecer as vinhas mais velhas. A vinha Maria Teresa (nome da primeira neta de Constantino de Almeida) é um tesouro de 4,7 hectares, plantado em socalcos e com exposição nascente. Naturalmente, podem encontrar-se nela 49 variedades misturadas, como a Tinta Roriz, Tinta Barroca, Rufete, Tinta Amarela, Touriga Nacional, Grand Noir, Bastardo… the list goes on. Manuel Lobo, enólogo do Crasto, contou que, por vezes, “aparece um cacho ou outro de Barrete dos Frades”, uma variedade praticamente extinta com bagos listados que parecem pequenas melancias. O primeiro a encontrar um, nas vindimas, pendura-o para ser visto por todos, segundo o enólogo.
A baixa altitude e com raízes que atingem dezenas de metros de profundidade, a Vinha Maria Teresa tem uma média de produção, por videira, de 300g de uvas, uma baixíssima produtividade que gera um nível de concentração muito rico e uvas de grande qualidade. Na generalidade dos anos, essas uvas têm como destino o tinto Quinta do Crasto Vinhas Velhas Reserva (cerca de 90 mil garrafas), no entanto, “em anos excepcionais”, disse Manuel Lobo, surge o magnificente Vinha Maria Teresa (entre 2 mil e 8 mil garrafas, consoante a edição).
A atenção da equipa técnica sobre esta vinha é, também, um factor determinante para todos estes resultados.

Como explicou o enólogo, “para escolher o ponto momento de colheita na Vinha Maria Teresa e na Vinha da Ponte, não é só necessário ter em conta o equilíbrio, a acidez e outros factores analíticos; é preciso ter presente um histórico de como aconteceu nos anos anteriores”. Para que esta vinha-legado prevaleça no futuro, a Quinta do Crasto iniciou, em 2013, um mapeamento genético da vinha, por geo-referenciação, para que se possam repor as videiras mortas com variedades geneticamente idênticas. Foram criados, também, “berçários” de videiras para esse fim.
A Vinha da Ponte, que recebeu este nome por se encontrar junto a uma antiga ponte romana, tem uma dimensão menor, 1,96 hectares, mas igual encanto. Em socalcos e a uma altitude ligeiramente maior do que a Maria Teresa, está exposta a Nascente/Sul, mas o seu solo, também xistoso, é bem mais austero, com muito mais pedra. As suas variedades são mais de 30, em field blend. Também esta vinha gera produções diminutas, de 240g por pé, e oferece as suas uvas ao tinto Vinhas Velhas Reserva e pontualmente ao poderoso Quinta do Crasto Vinha da Ponte (2800 garrafas, na última colheita). “O Quinta do Crasto Vinhas Velhas é o nosso grande desafio, pois quase não mexemos na vinha [dos Cardanhos, Maria Teresa e da Ponte], para preservar o seu carácter, mas fazemos 90 mil garrafas”, reconheceu Manuel Lobo.

O projecto do “Novo Douro”
Jorge Roquette costumava ir caçar a uma propriedade em Castelo Melhor, Vila Nova de Foz Côa, no Douro Superior, mas gostou tanto da zona que decidiu, em 2000, começar a comprar terreno. O objectivo da Quinta da Cabreira era claro e consistente com a vontade da empresa em crescer para esta sub-região, e produzir vinhos “com um carácter mais internacional” e não só, como disse Tomás Roquette: “A Cabreira tem sido muito importante para nós no que toca a consistência de qualidade, que não oscila, o que no Douro não é fácil de conseguir.”
Em 2004 já lá tinham a primeira vinha e em 2007 o primeiro vinho. “É o nosso campo de ensaios”, revelou Manuel Lobo, “e é também a origem dos vinhos Crasto Superior tinto, branco e Syrah.” São 150 hectares no total, com 114 de vinha útil, dos 115 aos 430 metros de altitude, maioritariamente expostos a Norte. As variedades tintas presentes, em maior quantidade, são Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Sousão, Syrah, Tinta Francisca e outras, sendo que o Rabigato é a única branca, plantada em quatro hectares.
Daí saem, actualmente, 500 toneladas de uvas, tendo a produção começado com 27 mil garrafas, em 2007, número que já está em 250 mil de tinto, 30 mil de branco e 20 mil de Syrah. “Este ano, apesar do forte ataque de míldio, contamos ter mais produção do que no ano passado” disse Tomás Roquette. As vinhas da Quinta da Cabreira são regadas na totalidade, 138 parcelas com dotações de rega diferentes. “Sempre com sustentabilidade e consoante as necessidades”, advertiu Manuel Lobo, “este ano quase não regámos.” A investigação, sobre a rega e os seus efeitos, é também uma parte importante da actividade na Quinta da Cabreira, levada a cabo por uma equipa da Universidade do Porto, em permanência no terreno.

A produção desta propriedade também complementa a da Quinta do Crasto, no entanto, o perfil dos vinhos com o “carimbo” Superior é diferente, com o terroir bem vincado na fruta madura e nos taninos sumarentos. Esta quinta tem, também, 6 mil oliveiras (na Quinta do Crasto são 2500), que originam 50 mil garrafas de azeite Quinta do Crasto Selection.
Do portefólio do Crasto fazem também parte Vinhos do Porto de categorias especiais, cujo principal mercado é Inglaterra, sendo que, para o vinho do Douro, é o Brasil. Na verdade, da produção total de mais de 1,4 milhões de garrafas, a empresa exporta 75% para 50 mercados, tornando-a na quarta maior exportadora, em valor, de vinhos com denominação de origem Douro. Em 1994, eram apenas 30 mil garrafas. Este crescimento só foi possível com muito profissionalismo, consistência de qualidade e um constante esforço para se ser melhor, em todos os detalhes. E o Crasto tem tudo isso.

Em prova
  • Quinta do Crasto Vinha da Ponte
    Douro, Tinto, 2015

    19.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta do Crasto
    Douro, Touriga Nacional, Tinto, 2015

    18.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta do Crasto Vintage
    Porto, Vintage, , 2016

    17.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Crasto
    Douro, Tinto, 2016

    16.0
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta do Crasto Vinha Maria Teresa
    Douro, Tinto, 2015

    19.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta do Crasto Vinhas Velhas
    Douro, Reserva, Tinto, 2015

    17.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Crasto Superior
    Regional Duriense, Syrah, Tinto, 2015

    17.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Crasto Superior
    Douro, Tinto, 2015

    17.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor

Edição Nº18, Outubro 2018

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