QUINTA DO NOVAL: Qualidade de um ano perfeito

A história mais recente da Quinta do Noval sob a gestão de Christian Seely, Director-Geral da AXA Millésimes, é, sem dúvida, a mais intensa e rica desde a fundação da propriedade, em 1715. Para além da tradição que sempre se fez questão em preservar, para Christian Seely e toda a equipa da Quinta do Noval, estes 33 anos foram “um período de descobertas e redescobertas”. Em 1994 só se fazia Vinho do Porto; mais tarde descobriram que os terroirs da propriedade também tinham grande potencial para vinhos não fortificados. O primeiro tinto surgiu com a colheita de 2004 e, alguns anos mais tarde, chegaram os brancos. Outra redescoberta foi o potencial qualitativo das vinhas velhas e dos field blends.

 

O grande 2024

O porquê de 2024 ser extraordinário explica Carlos Agrellos, Director Técnico da Quinta do Noval: “tivemos uma série de anos secos. Primeiro 2020, depois 2021, um ano razoável, 2022 novamente seco e 2023 com alguns problemas de chuva na vindima. Mas 2024, em traços gerais, foi um ano muito equilibrado do ponto de vista climático. Tivemos um inverno chuvoso, o que é sempre positivo, seguido de uma primavera amena, com alguma chuva. E convém dizer que, em 2024 choveu menos do que em 2023, e a precipitação foi muito bem distribuída ao longo do ano. Apenas o mês de Agosto não teve qualquer pluviosidade. Isto permitiu um ciclo vegetativo mais longo e, olhando para as declarações passadas, podemos afirmar que um ano em que toda a vindima decorre sem paragens, geralmente conduz a bons vinhos. Houve alguma chuva nocturna a 16 e 23 de Setembro, que não impediu a continuidade da vindima. E foi muito esticada, tendo começado no dia 22 de Agosto e terminado a 11 de Outubro, e as uvas acabaram por ter uma maturação fenólica e uma acidez muito equilibradas.”

Nada melhor confirma estas observações do que os próprios vinhos. Posto isto, a sequência da prova começou nos brancos (que embora já tenham sido provados anteriormente, serviram de bom exemplo neste contexto), continuou com os tintos e terminou em grande com os vinhos do Porto Vintage, incluindo o mítico Noval Nacional. Mas antes vamos ver os pontos em comum entre os vinhos não fortificados e os do Porto.

Quinta do Noval

Vale de Mendiz e do Roncão

A Quinta do Noval e a Quinta do Passadouro, adquirida em 2019, têm vinhas em dois vales – Vale de Mendiz e Vale do Roncão. Carlos Agrellos explica que há uma diferença marcante entre os vales de Mendiz e do Roncão. O primeiro, situado na margem esquerda do rio Pinhão, situa-se no fundo do vale, numa zona muito quente, mas com uma identidade muito própria e particularmente importante para o Douro, marcada pelo carácter típico do Vale de Mendiz. A zona do Roncão, também conhecida como Ribeira do Roncão, que conduz ao Douro, embora seja quente, beneficia de um fluxo de vento que entra pelo vale acima e ajuda a manter as vinhas bem arejadas. “Curiosamente, os vinhos do Vale de Mendiz apresentam sempre muita pureza de fruta silvestre e notas florais, uma assinatura do Vale de Mendiz, que não encontramos no Roncão onde os vinhos são mais frutados, nem tanto florais, e têm mais estrutura”, conclui o Director Técnico da Quinta do Noval.

O monovarietal de Touriga Nacional da Quinta do Passadouro é uma combinação de parcelas do vale de Mendiz, onde se concentram as vinhas velhas, e da vinha do Síbio, no vale do Roncão, onde as plantações são organizadas por casta. Por sua vez, o monovarietal de Touriga Nacional da Quinta do Noval resulta de quatro parcelas: três no Vale de Mendiz e uma no Roncão.

Mesmo no Vintage da Quinta do Noval, que tem maior proporção de uva do Vale de Mendiz, alguma parte provém sempre do Roncão, “para lhe dar músculo”.

 

“É este paradoxo do Douro: uma zona quente onde conseguimos fazer vinhos destes, com frescura e finesse”, resume Carlos Agrellos

“Não queremos abdicar da possibilidade de produzir um Porto Vintage que expressa não só os nossos terroirs, mas também o ano”, explica Christian Seely

 

Vinhas velhas, o componente essencial

Como referiu no início Christian Seely, as vinhas velhas foram uma grande descoberta na Quinta do Noval e também no Passadouro. Quando a propriedade foi adquirida, as parcelas plantadas na década de 1930 estavam muito bem preservadas, exigindo apenas algumas retanchas. Foi também feito, em colaboração com a PORVID, o levantamento de todas as castas presentes (mais de 30), que hoje se encontram catalogadas. O lote do Quinta do Passadouro Reserva é composto maioritariamente por vinhas velhas (74%), mais 16% de Touriga Nacional e 10% de Touriga Francesa.

O Quinta do Noval Reserva era tipicamente um blend de Touriga Nacional e Touriga Francesa, mas em 2020, no Douro em geral, esta última amadureceu muito mais cedo do que o normal e não estava na sua melhor forma na altura da vindima. E, pela primeira vez, as uvas da vinha velha entraram no lote. O resultado foi tão relevante, que passaram a representar uma grande parte desta referência. O Reserva de 2024 conta com 50% de vinhas velhas, 32% de Touriga Nacional e 18% de Touriga Francesa.

A título de exemplo, o Quinta do Passadouro Reserva tem acidez total de 6,10 gramas por litro e um pH 3,54 e o Quinta do Noval Reserva regista 6,40 gramas por litro de acidez e um pH de 3,47. Ambos evidenciam taninos muito finos, do mesmo tipo que, com mais trabalho e pisa em lagar, dão origem aos Porto Vintage. “É este paradoxo do Douro: uma zona quente onde conseguimos fazer vinhos destes, com frescura e finesse”, resume Carlos Agrellos.

 

Abordagem na adega

Na adega, os vinhos da Quinta do Passadouro são trabalhados de forma diferente dos da Quinta do Noval. Os primeiros fermentam em lagar, mas por pouco tempo, privilegiando a extracção pré-fermentativa em detrimento da maceração pós-fermentativa. Por isso, após uma breve pisa, o vinho é trasfegado.

O estágio decorre integralmente em barrica, com uma proporção de 15-20% de madeira nova, 5-10% de segundo ano e 70-80% de terceiro ano. Esta utilização de barricas de segundo e terceiro ano preserva o carácter frutado e floral, sem dominar o vinho.

 

O Noval Nacional representa apenas 0,65% do volume total do Vinho do Porto produzido na propriedade.

Quinta do Noval

Terroir Series

A filosofia por trás desta designação é bastante simples: sempre que nas múltiplas vinificações surge um vinho claramente distinto dos restantes (seja monovarietal, seja de vinhas velhas, como até agora), é engarrafado como Terroir Series. Para já, existem dois vinhos feitos a partir de uvas provenientes de parcelas praticamente centenárias, com castas misturadas.

O Vinha da Marka viu a sua primeira expressão em vinho em 2019 e, desde então, tem sido lançado todos os anos. É uma parcela situada ao lado da Quinta do Crasto. A sequência da Vinha da Ponte, da Maria Teresa e da Marka, sugere uma contemporaneidade na plantação, parecendo ser vinhas da mesma época.  A vinha da Marka com mais de 30 castas a 140-180 metros de altitude junto ao rio, apresenta um rendimento médio de 15 hectolitros por hectare. Vindimou-se numa manhã no dia 30 Setembro e resultou em 1024 garrafas.

Mais uma vez a título de exemplo: o Vinha da Marka com 14%, tem 6,60 gramas por litro de acidez total e um pH 3,44. Na opinião do enólogo, estes valores indicativos das vinhas velhas “nunca entram em sobrematuração”, produzindo um grande equilíbrio entre tanino e frescura, com finesse e um potencial de evolução como se fosse um grande Vintage.

No caso do Vinha do Passadouro, trata-se de uma parcela com 28 castas (numa combinação diferente da Vinha da Marka) situada a 320 metros de altitude e com uma elevada densidade de plantação para uma vinha velha do Douro: cerca de 5500 pés. Também plantada na década de 1930, apresenta um rendimento ainda mais baixo, de 12 hectolitros por hectare. Foi produzido 2020, 2021 e 2024, com 968 garrafas neste último. E novamente, temos 6,30 gramas por litro de acidez total e um pH de 3,54.

Porto Vintage

Com vinhas situadas entre os 100 e os 480 metros de altitude e com diferentes exposições, desde 2011 a Quinta do Noval conseguiu fazer declarações de Vintage todos os anos. “São declarações pouco convencionais, porque não seguimos a regra de só declarar em anos clássicos. Mas, às vezes, são apenas 1000 caixas (12 mil garrafas), o que representa menos de 3% da nossa produção total do vinho do Porto. Fazemos isto, não porque queremos ganhar muito dinheiro, mas porque não queremos abdicar da possibilidade de produzir um Porto Vintage que expressa não só os nossos terroirs, mas também o ano. Esta é a nossa política”, explica Christian Seely.

A qualidade dos Porto Vintage percebe-se logo na vindima. Há parcelas que, historicamente, dão origem a Vintage, sendo vinificadas separadamente e mantidas até à decisão final, momento em que algumas acabam por ser rejeitadas. Segundo Carlos Agrellos, o Quinta do Passadouro Vintage resulta de seis parcelas, de um total inicial de dez, tendo quatro ficado de fora do lote final. No caso do Quinta do Noval Vintage, o processo começou com 14 parcelas, das quais quatro foram eliminadas. Isto resultou em 555 caixas (6600 garrafas) do Vintage da Quinta do Passadouro e 2166 caixas (25 992 garrafas) da Quinta do Noval.

O Noval Nacional provém sempre da mesma parcela de vinha velha, com menos de um hectare, situada em frente à casa. Foi vindimado numa manhã a 30 de Setembro. Com 167 caixas (2004 garrafas) representa apenas 0,65% do volume total do Vinho do Porto produzido na propriedade. É um vinho com uma concentração de outro mundo e uma finesse típica que só aquela parcela cirurgicamente preservada, consegue expressar num grande Porto Vintage.

(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)

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