QUINTA DO PINTO: O sonho comanda a vida

Legenda da foto: Rita Cardoso Pinto

Foi num dia cinzento, sentados no Defender, no ponto mais alto da mesma, de onde se visualiza a propriedade por inteiro, que Rita Cardoso Pinto desvendou os seus sonhos para a Quinta do Pinto, situada na Merceana, uma aldeia do coração de Alenquer, em plena Região Vitivinícola de Lisboa. Desde (re)colocar os vinhos no mapa de consumidores, enófilos e restauração, do projecto de enoturismo e de alojamento, já aprovado, dos ‘Jardins d’Hiver’ à Paris – para serem utilizados em eventos, em vez das tradicionais tendas; tudo de enorme bom gosto, diga-se – e da introdução no remanescente da propriedade do cultivo de olival e citrinos.

O sonho comanda a vida…

“Eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida. Que sempre que um homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança.”

E que avance é precisamente o que se pretende para a Quinta do Pinto.

A frase aparece no poema “Pedra Filosofal”, escrito por António Gedeão, pseudónimo de Rómulo de Carvalho (1906–1997), poeta, professor e divulgador científico português. O poema celebra a força criativa do sonho, afirmando que o mesmo é uma constante da vida, tão concreta quanto os elementos do quotidiano, como as pedras, os rios ou as árvores. O poema foi também musicalizado por Manuel Freire, tornando-se uma canção popular, que ajudou a imortalizar a frase e a difundir a sua mensagem de inspiração e liberdade criativa. “O sonho comanda a vida” rapidamente se tornou um lema motivacional e cultural em Portugal, lembrando que a imaginação e os ideais pessoais têm o poder de moldar a realidade e influenciar o mundo em redor.

A propriedade familiar da Quinta do Pinto estende-se por 120 hectares, circundando um solar do século XVIII geminado com uma adega de alvenaria de traça tradicional. Mais de metade da propriedade acolhe cerca de duas dezenas de castas tintas e brancas, nacionais e internacionais, que servem de base aos cartões-de-visita da casa, os vinhos, divididos pelas múltiplas referências Vinhas do Lasso, Terras do Anjo, Quinta do Pinto e Quinta do Pinto Grande Escolha.

Na verdade, o nome original da propriedade é Quinta do Anjo, mas, por questões de coincidência de marca com a homónima da região dos Queijos de Azeitão DOP, ficou Quinta do Pinto.

QUINTA DO PINTO

E porquê Pinto?

Reza a lenda que o vinho produzido, há três séculos, na propriedade, se destacava de tal forma na região que valia mais vinténs, isto é, mais Pintos, nome da moeda de ouro em circulação no reinado de D. João V. Acresce também a existência de um senhor Pinto, em tempos, um carismático feitor da propriedade, daí que, desde então, na região, a propriedade é referida como Quinta do Pinto. Feliz coincidência, ou destino mesmo, Pinto é igualmente o apelido dos actuais proprietários, os Cardoso Pinto, mais precisamente. Quinta do Pinto tornou-se, assim, o nome deste projecto vitivinícola.

Rita Cardoso Pinto é a front woman da quinta, mas uma palavra prévia será sempre devida ao seu pai, António Cardoso Pinto, o impulsionador do projecto. “É um homem muito intenso a nível familiar. Por ele estávamos todos juntos todos os dias – avós, pais, filhos e netos.” Provavelmente, terá sido essa pulsão que, juntamente com “a paixão de voltar a pôr na terra o que vinha da terra”, que o incitou, em 2003, a procurar um “tecto comum para a família num meio agrícola, mas que fosse próximo de Lisboa”. Encontrou-o precisamente em Alenquer, uma das nove denominações de origem da Região dos Vinhos de Lisboa. “Quando este tecto comum tem uma propriedade agrícola desta dimensão, há que a rentabilizar e dar resposta com o que de melhor esta terra tem para dar. E assim nasce o vinho na Quinta do Pinto”, continua Rita Cardoso Pinto.

 

“Quando este tecto comum tem uma propriedade agrícola desta dimensão, há que a rentabilizar e dar resposta com o que de melhor esta terra tem para dar. E assim nasce o vinho na Quinta do Pinto”, conta Rita Cardoso Pinto

 

A vinha e a Tinta Miúda

A vinha está plantada em suaves encostas de solos argilocalcários do período Jurássico, a ocupar metade da área da propriedade, com exposição a Sul e protegida pela Serra de Montejunto, que forma uma barreira face aos ventos proveniente do lado Norte. Beneficia da influência da costa atlântica, pois está a 25 quilómetros em linha recta em direcção ao mar, e usufrui de condições de excelência na região para as características diferenciadoras visadas pelo projecto. A folha contínua de vinha é palco de 27 variedades de castas, brancas e tintas, com primazia natural para as regionais de Lisboa e Alenquer, que se combinam com outras variedades nacionais e algumas internacionais – especialmente da região do Rhône, um gosto confesso e assumido por António Cardoso Pinto –, de forma singular e harmoniosa com o objectivo de dar origem a vinhos que espelham o projecto. Arinto, Fernão Pires, Viosinho, Alvarinho, Marsanne, Roussanne, Viognier, Chardonnay, Tinta Miúda, Touriga Nacional, Aragonez, Syrah, Petit Verdot, Cabernet Sauvignon e Merlot são algumas das muitas variedades plantadas.

“Os vinhos portugueses são muito ricos e são, tradicionalmente, muito feitos à base de lotes. É um bocadinho como a música. Temos um solista que tem de ser um Pavarotti nesta vida. Depois temos uma onda mais acústica. E depois temos uma orquestra. O lote é um bocadinho como uma orquestra, em que há vários instrumentos e todos tocam em harmonia”, exemplifica Rita Cardoso Pinto. E prossegue: “são vinhos feitos com muito amor e carinho. São ricos em aroma, estruturados e cheios de boca; têm uma frescura e uma acidez natural, que é expressão desta proximidade atlântica; e têm o cunho, um estilo muito típico da Quinta do Pinto. É um estilo muito próprio e que é elevado, sustentado, por estar nesta região. São vinhos com carácter, com alma. Este é o segredo.”

De todas as castas plantadas, a nossa anfitriã revela o carinho mantido “por um vinho monocasta feito de Tinta Miúda, que é uma casta antiga da região de Lisboa”. É vindimada numa vinha com cerca de 50 anos. “Fazia parte do ADN da casa quando comprámos esta propriedade e nunca a abandonámos.” Esta decisão comprova a preservação feita por parte da família Cardoso Pinto em relação ao que é local, “que é daqui”, daí que seja “um vinho que nos é muito querido. É um vinho com personalidade difícil. Precisa de tempo de garrafa”. Esta acção é, para Rita Cardoso Pinto, um exemplo de que “há coisas pelas quais nós temos de esperar. E a Tinta Miúda exige-nos essa espera. Portanto, é um vinho que nos desafia. Na sua acidez, na sua prova e depois no seu desenvolvimento. É um vinho que interage e que nos impacta”.

No dia que visitei a Quinta do Pinto tiveram a gentileza de abrir comigo um exemplar deste Tinta Miúda do ano de 2004 e, nem vos digo nem vos conto, o bom que estava. É esta magia do vinho, esta generosidade e autenticidade de quem produz vinho que nos move, a emoção visível entre os poucos que estávamos à mesa quando o vinho começou a abrir e desenrolar. Que maravilha! E que boas eram as favas cozinhadas pela avó Cardoso Pinto. E as duas coisas juntas? Divinais! Um verdadeiro momento de portugalidade.

A Quinta do Pinto estende-se por 120 hectares, que circundam um solar do século XVIII geminado com uma adega de alvenaria de traça tradicional

 

Viticultura sustentável e de precisão

Desde o início do projecto que a família tem seguido os princípios da intervenção mínima, por forma a obter o máximo do potencial das uvas vindimadas naquele terroir, minimizando qualquer outra intervenção e seguindo a filosofia de vinificação tradicional: “o vinho faz-se na vinha”. Com a consciência de uma agricultura sustentável, a Quinta do Pinto está certificada como Produção Integrada e há o espírito de partilha de conhecimento e experiências com entidades, como o Instituto Superior de Agronomia (ISA), de Lisboa, o Institut des Hautes Études de la Vigne et du Vin (IHEV), de Montpellier, com o INIAV (Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária) e com o CoLAB Vines & Wines. O objectivo consiste em garantir espaço para investigações científicas em prol do desenvolvimento vitivinícola.

No contexto da viticultura sustentável, é de evidenciar a relação com a viticultura de precisão, que consiste em analisar e actuar de forma diferenciada em cada parcela. Esta acção permite a redução de recursos gastos para o mesmo número de intervenções a efectuar. Com a passagem do tempo, e com base em campos de ensaio, optimizam-se ensaios de desfolha, aprimoram-se técnicas de poda, sistemas de monda, formas de fertilização orgânica, enrelvamentos e seleccionam-se clones e porta-enxertos mais resistentes às alterações climáticas.

O propósito de todo este trabalho incide na finalidade de potenciar a qualidade das uvas, adoptando uma postura de minimização da pegada ecológica, somada a uma viticultura livre de herbicidas, ou seja, feita com base numa fertilização 100% orgânica, o que tem vindo a contribuir para a implementação do conceito de “vinha viva”, no âmbito do qual existe o respeito máximo pelo ecossistema. A produção de uvas também não inclui rega. Já a enologia tem como regra a preservação total das caraterísticas das uvas, de modo a que cada vinho espelhe todo o terroir.

As cubas de cimento

António Cardoso Pinto confidencia-nos que, algures no início do projecto, chegou a ter um negócio praticamente fechado para instalação de modernas cubas de inox, mas a visita do famoso enólogo do Rhône, Michel Chapoutier, aquando de uma das suas vindas à Quinta do Monte d’Oiro (produtor localizado no concelho de Alenquer) tudo fez abortar essa ideia. Ao invés disso, recuperaram-se as dezenas de cubas de cimento centenárias, que, ainda hoje, existem e estão a funcionar.

Na verdade, em 2001, o enólogo Michel Chapoutier, projectou com a ajuda da empresa francesa Nomblot, um tanque de cimento inovador em forma de ovo – no fundo, o ovo não é mais do que uma evolução da ânfora romana e outros recipientes antigos, sendo o seu formato oblongo e curvo, com uma superfície interna lisa e sem cantos – dentro dos princípios da termodinâmica, a responsável pela criação de um vórtice dentro do fermentador, permitindo que o vinho se mova livremente e as borras fiquem suspensas, promovendo uma bâtonnage natural. Mas mais importante do que isso, até porque não há ovos de cimento na Quinta do Pinto, o principal ajuste feito pelo enólogo francês no tanque foi a troca de argila por cimento, um material neutro que não confere sabores extra. Nombolt usa cimento feito de areia do Rio Loire, enquanto o produtor argentino Zuccardi, por exemplo, usa pedras e argila de rios próximos, pretendendo com isso acrescentar um elemento extra de lugar e terroir aos seus vinhos.

Embora seja composta por cubas de cimento centenárias, a Quinta do Pinto também está equipada com a mais moderna tecnologia enológica, para garantir que as uvas seleccionadas sejam vinificadas com o objectivo de potenciar ao máximo a qualidade com que entram na adega. Na base, constam fermentações com leveduras indígenas, ajustes de acidez por loteamento e práticas o menos intrusivas possíveis, dando origem a vinhos de carácter o mais autêntico possível e com sentido de lugar.

Por conseguinte, as cubas de cimento são a peça-chave no processo; são porosas e, consequentemente, possibilitam a entrada de mais oxigénio, que permanece em contacto com o mosto durante o processo de fermentação. Esta característica facilita uma fermentação mais gradual e, por consequência, uma expressão mais autêntica do vinho, preservando os sabores e os aromas originais. As paredes grossas destas cubas centenárias também viabilizam o controlo e a mitigação das variações de temperatura.

Podemos afirmar que o cuidado com a vinha, as castas e as cubas de cimento constituem o ADN da Quinta do Pinto, sendo certo que também são utilizados recipientes de inox e barricas de madeira, mas sempre como complemento – nunca essencial e identitário. E, na minha opinião, os vinhos reflectem isso claramente.

Na etapa final do processo de produção, a preservação do meio ambiente não é esquecida. A prova está na alteração gradual de hábitos na adega, com a crescente aposta em garrafas mais leves e rolhas de cortiça natural e biodegradável, bem como na redução de lavagens com produtos químicos. A substituição das cápsulas de estanho por lacre, nos vinhos topo de gama, e a utilização de caixas de cartão reciclado, mais leves e com menos tinta, são outros dos requisitos postos em prática na Quinta do Pinto. Por fim, é de sublinhar a preocupação face à responsabilidade social, assumida como uma forma inequívoca de viabilizar economicamente quem ali vive, permitindo assegurar a sustentabilidade actual e garantir a das gerações futuras.

Quanto à concretização dos sonhos, o alojamento, o olival e os citrinos estão a ser pensados e planeados de forma sustentada, através da criação de parcerias com operadores de reconhecida experiência nas respectivas áreas. No entanto, sabemos que estas coisas também demoram o seu tempo. O importante é, entretanto, consolidar e fidelizar os consumidores através do vinho, e, quanto a isso, creio que estão no bom caminho. A prova está nos vinhos que provámos – muitos e bons.

 

A vinha está plantada em suaves encostas de solos argilocalcários do período Jurássico e é palco de 27 variedades de castas

 

(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)

 

SIGA-NOS NO INSTAGRAM
SIGA-NOS NO FACEBOOK
SIGA-NOS NO LINKEDIN
APP GRANDES ESCOLHAS
SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER
Fique a par de todas as novidades sobre vinhos, eventos, promoções e muito mais.