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Rita Rivotti: A marca que cria marcas

A arte é uma forma de comunicação e comunicar o vinho é hoje uma arte. Rita Rivotti é já um nome bem conhecido neste mundo, tendo dado imagem a mais marcas do que se imagina.

TEXTO Mariana Lopes
FOTOS Ricardo Palma Veiga e cortesia Rita Rivotti

“We love what we do”, lê-se na instalação artística pendurada no tecto, palavras distribuídas por garrafas verdes penduradas em cascata. Num estúdio aconchegante e bem decorado, com mezzanine, todo em madeira, trabalha a dream team de quatro criadores artísticos sob o comando de Rita Rivotti. São estas cinco pessoas que criam e recriam muitas das marcas que tão bem conhecemos, e outras que deveríamos conhecer.
Grandes ou pequenas, não são poucas as empresas que recorrem a Rita, que já se tornou numa espécie de salvadora de negócio. Há quem lhe chame Sherlock Holmes do vinho, pela investigação em campo que faz, mas eu chamo-lhe Professor X, a fonte das ideias e gestora dos seus pequenos génios, cada um com a sua especialidade mas todos a convergir para o mesmo objectivo: a criação de um nome, de um rótulo, de um conceito.
O caminho de Rita foi tudo menos linear. Estudou Engenharia Agronómica na UTAD, em Vila Real, e sempre esteve ligada à produção agrícola e ao campo. No entanto, o fascínio pelas artes esteve sempre lá, mas… “Naquela altura não se ia para artes, era muito raro, e nem o meu pai considerava isso como curso.” O pai, figura mais importante da sua vida, era economista de profissão e entusiasta das artes e da cultura por paixão. Também era pintor, mas via-o como um hobby.
Quando terminou o curso, Rivotti teve nota máxima a uma disciplina chamada Planeamento, que era matemática financeira. Em virtude disso, a professora convidou-a a estagiar com ela no BPI, convite que aceitou, tendo mais tarde integrado o CAC, Centro de Análise de Crédito. “Foi muito interessante, mas não era a minha paixão”, confessou. Após nascer a sua filha mais velha, despediu-se e resolveu ser mãe a tempo inteiro. E assim fez durante sete anos, até a terceira e última ir para a escola.
Entretanto, Paul Myhre, que hoje em dia também faz o mesmo tipo de trabalho, desafiou-a a iniciar com ele um negócio do género, de imagem de vinhos. “Eu já gostava muito de vinhos, principalmente pelo meu pai, que sempre me ensinou tudo e que além de economista era historiador e um homem que se interessava por tudo, e por vinho também”, disse Rita, que ia com o progenitor visitar adegas e que sempre o acompanhou em tudo na vida. O seu trabalho reflecte, hoje, tudo isso e essas memórias são uma grande fonte de inspiração.
Foi assim que, há cerca de 14 anos, Rita e Paul foram pioneiros de uma revolução de imagem dos vinhos portugueses, numa altura em que Portugal começou a aparecer no panorama internacional e quando começaram as exportações em peso. “Os mercados internacionais não aceitavam as imagens que a maioria dos nossos produtores tinha para os vinhos, que eram altamente desactualizadas”, explicou. Depois foi fazer um mestrado em marketing e gestão de marcas e também o WSET. Três anos depois, Paul mudou de cidade e Rita assumiu a liderança de uma equipa, hoje totalmente renovada.

Equipa de sonho
Rita visita os clientes e faz muito trabalho de campo. João Saul, Sandra Costa, Sara Correia e Pedro Roque são os designers que ilustram os conceitos, mas que também fazem parte da concepção. Cada um acrescenta riqueza aos projectos, à sua maneira, e as competências são divididas conforme as especialidades e consoante o tipo de imagem de que cada um mais gosta, um mais cartoon, outros mais minimalista, outros mais complexo. “Há conceitos que pedem algo mais estridente, outros algo mais clássico”, revelou Sara.

Vê-se bem a assinatura de cada um nas peças, Rita percebe e eles próprios também, porque comunicam todos através do trabalho artístico que fazem. “Wine branding e design” é o nome que dão ao ofício, porque foi com o vinho que o negócio cresceu. “O que nós fazemos é embalagens premium para produtos alimentares variados, mas 90% disso é vinho. Temos agora, por exemplo, um projecto nos Estados Unidos de mead, uma bebida de mel fermentado, geralmente aromatizada com bagos silvestres. É surpreendentemente bom”, esclareceu Rita.
Até hoje, já trataram de milhares de referências, quer sejam criações do zero, ou reformulações/rebranding. Quando se olha para as prateleiras com centenas de garrafas, no estúdio, parece tudo fácil, mas é quando se pega numa que nos apercebemos de toda a labuta que carrega aquele rótulo. É um trabalho complexo e ter a ideia certa não é, de todo, algo imediato. Rita alertou: “Não é tudo fácil, há aqui projectos que foram bem difíceis de concluir. Há ilustrações que são aceites à primeira, mas são poucas, e outras que andam para cá e para lá.”

Os favoritos
O várias vezes galardoado trabalho feito para a gama de vinhos Lés-a-Lés foi, por sua vez, muito rápido. Este projecto do enólogo Jorge Rosa Santos assenta na recuperação de castas antigas de algumas regiões portuguesas, sendo “cada rótulo um bilhete para a descoberta dum património esquecido”. O concurso internacional Pentawards deu à equipa Rita Rivotti, em 2018, a Medalha de Ouro na Categoria Vinhos, pela imagem do Lés-a-Lés. “É o concurso de packaging mais importante, e nós fomos o rótulo de vinhos mais bonito do mundo. Competimos com as maiores agências do globo, que têm até orçamentos muito maiores do que os nossos. Ainda nem processámos bem a informação”, disse Rita. Quando questionados sobre a liberdade que os clientes lhes dão na criação, a resposta foi: “Em todos os projectos que ganharam prémios, tivemos liberdade total. Achamos que isso diz alguma coisa…”
Ravasqueira foi uma marca onde fizeram um grande rebranding: “Tirámos o brasão de armas do rótulo e incluímos o azulão, substituindo o dourado. Hoje em dia, entra-se numa loja ou num grande estabelecimento comercial e vê-se logo a Ravasqueira.”
Muito sui generis é o caso do vinho Tyto Alba, um caso que é muito querido à equipa de Rivotti. “A Companhia das Lezírias não era uma empresa com muito boa imagem, a juntar ao facto de ser do Estado, o que também não lhe dava muita piada…”, introduziu Rita. “Tem cerca de 20 mil hectares e é uma das poucas empresas públicas que dá lucro. Era preciso transmitir isso.” Assim, estudando todas as causas que a Companhia apoia, Rita deparou-se com uma que lhe chamou a atenção: a coruja-das-torres está em extinção em todo o mundo e a Companhia criou a maior comunidade do planeta através da distribuição de caixas de ninho por toda a herdade.
Assim nasceu o Tyto Alba, nome em latim que é dado à espécie no Velho Mundo. Escreveu, também, no rótulo “Vinhas Protegidas”, pois os biólogos da empresa explicaram que esta coruja se alimenta dos roedores que estragam a vinha. Além disso, esta coruja é indicadora de qualidade ambiental, porque não existe em locais poluídos. Quão cool é isso? Fiquei convencida. E os Pentawards também, tendo-lhe atribuído a Medalha de Prata em 2015.
Depois há o Vicentino, da Costa Alentejana. Sunrise, Sunset e Foggy não são nomes dos vinhos, mas sim referências internas dos rótulos, alusivas ao local das vinhas de Ole Martin Siem, um norueguês que se dedica, há mais tempo do que ao vinho, ao cultivo de produtos hortícolas. Também é um dos favoritos.
Da “conta” Casal Sta. Maria, destaca-se o Mar de Rosas, o mais recente rosé, inspirado no jardim de 5 mil rosas, junto ao mar, que o barão Bodo von Bruemmer plantou em homenagem à sua esposa.

No meio dos vários milhares de marcas, há pequenas especialidades e outras bem conhecidas, como Cartuxa, Duorum, Papa Figos, Quinta do Côtto ou Trinca Bolotas. “O mais importante é o que está dentro da garrafa e nós temos de arranjar uma história para contar a origem. Essa história não tem de ser só bonita, mas relevante, única e verdadeira”, dissertou Rivotti. Para a equipa, estas são as três premissas que devem estar por trás de cada projecto. “Relevante porque tem de ajudar o consumidor a entender o vinho. Único porque o mercado está cheio de vinhos e interessa estar sempre à frente do que já existe, ser diferente num universo de semelhanças. Verdadeiro porque temos de encontrar uma linguagem vínica credível, a comunicação do vinho não pode sair dessa linguagem, e porque a história contada tem de ter verdade. No caso do Crochet, por exemplo, não há uma vinha, são elas as duas, a Sandra Tavares da Silva e a Susana Esteban, que gostam de se juntar para ‘fazer crochet’. Esse é o conceito da marca.”
E assim vão fazendo pequenas revoluções pelo país, que têm impacto directo nas vendas. Agora, já se estão a preparar para a internacionalização e a ambição que Rita Rivotti emana mostra que tudo isto foi só o início. “Temos o know-how e a experiência para estar lá fora e competir com os grandes. Vamos fazer isso.”

Edição Nº21, Janeiro 2019

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