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Dão Capital: Descobrir vinhos e pessoas

Durante dois dias, o Dão mostrou-se em Lisboa. Tempo de descoberta para muitos portugueses e estrangeiros, de confirmação para outros. E de bons vinhos para todos. A quinta edição da mostra Dão Capital foi um sucesso a toda a linha.

TEXTO Luís Francisco
FOTOS Ricardo Palma Veiga

O repórter não define à partida o resultado do seu trabalho. Mas só lhe fica bem partir para o terreno com um mínimo de preparação e uma ideia bem definida do que vai encontrar. Neste caso, na quinta edição da Dão Capital, Mostra de Vinhos e Iguarias, organizada pela Comissão Vitivinícola Regional do Dão e com produção da Grandes Escolhas, parecia consensual que esta era uma excelente oportunidade para divulgar os vinhos da região junto de lisboetas e turistas menos ligados a estas coisas do copo. O raciocínio estava certo, mas esta Lisboa do século XXI troca as voltas a muito boa gente…
A 23 e 24 de Novembro, o espaço Estúdio Time Out, no Mercado da Ribeira, albergou 33 stands de vinhos (com 34 produtores) e três de sabores, números que dão bem a noção da pujança crescente do sector, numa região que continua a recuperar o prestígio de outrora. O público aderiu em grande número, de tal forma que na tarde de sábado, dia 24, se tornou mesmo necessário restringir as entradas. E entre esse público, havia, como a localização do evento fazia prever, muitos turistas estrangeiros.
O repórter ia preparado. Tinha escolhido um ângulo para abordar a história e avançou sem medos por entre a multidão de gentes, copos e conversas. Justin está por ali, com alguns amigos. É australiano. Os vinhos do Dão são, portanto, uma surpresa… “Não, não são, porque conheço bem a região, gosto muito da elegância e da complexidade dos seus vinhos. Não é uma região tão famosa como o Douro ou o Alentejo, mas eu gosto muito do Dão. Do Dão e da Bairrada, com os seus vinhos poderosos.”
O repórter, surpreendido pelo discurso seguro e conhecedor, faz uma pausa, mas, como qualquer australiano que se preze, Justin continua a conversa. “Os vinhos que estamos a provar são excelentes, 9 em 10 são óptimos.” Por esta altura faz a comparação com outra feira realizada recentemente em Lisboa e não tem dúvidas: “Tinha mais vinhos, mas era preciso provar muitos para encontrar um realmente bom. Aqui são quase todos!”

Mas como é que um australiano domina desta forma o universo dos vinhos portugueses? “Estou a viver em Lisboa vai para um ano.” Pois…
Na outra ponta da sala apinhada, um casal parece mais surpreendido com o que lhes vai surgindo nos copos e a oportunidade é boa de mais para o repórter a deixar fugir. Lars e a sua mulher, suecos, têm todo o ar de turistas maravilhados com a descoberta de produtos locais. E, no entanto… “Vivemos no Seixal há um ano e meio.”
Estará por terra a teoria de que o Dão pode marcar pontos nestes eventos divulgando os seus vinhos junto de potenciais consumidores até aqui alheios ao que por lá se produz? Misericordiosamente para o pobre repórter, nada disso. “Estamos a descobrir o Dão”, assume desde logo Lars – e daqui segue um grande bem-haja para a margem sul do Tejo. O casal já conhece bem os vinhos do Alentejo (Lars é fã dos D. Maria), mas o Dão não estava no seu radar. Agora, provando brancos “bons” e tintos “elegantes”, Lars e a esposa (cujo nome, miseravelmente, se perdeu na confusão das notas escritas pelo meio de cotoveladas e encostos mais ou menos enérgicos de quem vai passando) estão muito felizes. “Os portugueses são muito boa gente e os vinhos portugueses são os melhores do mundo. Pode escrever isso!” Ai não…
Para além dos vinhos e petiscos à prova, o programa da Dão Capital incluiu ainda oito provas comentadas de acesso livre, conduzidas pelos especialistas da Grandes Escolhas João Paulo Martins, Luís Lopes e Valéria Zeferino e realizadas no auditório instalado no recinto da feira. Falou-se de castas emblemáticas da região, de vinhas velhas, da arte do lote e da magia do tempo de estágio. De copo na mão, como convém.

Edição Nº 21, Janeiro 2019

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