SOGRAPE: Ferreira, Sandeman e a “mão de Deus”

Sogrape

A apresentação dos vintages da Sogrape foi um momento de celebração e, claro, de regozijo. É que desde 2018 que a Ferreira não declarava um Vintage Clássico. O termo clássico, muito caro às empresas inglesas e muito negligenciado por muitas outras, é aqui empregue, porque foi nesses termos que Luís Sottomayor, chefe da equipa de enologia da Sogrape, se referiu à edição de 2024 dos vintages da empresa.

Recordemos que, para os ingleses, clássico significa que se trata de um ano excepcional em que são editados vinhos com o próprio nome da empresa, como Fonseca, Taylor’s, Graham, etc. A distinção faz-se em relação aos anos não clássicos, para os quais a comunidade inglesa criou a designação single quinta, vintages com nomes das quintas, bem mais baratos e, em princípio, sem a profundidade e longevidade dos clássicos.

O ano de 2014 é um ano clássico e todo o sector está a declarar com as principais marcas. Isso já não acontecia desde o último Clássico, o de 2017. Curiosamente, e teimosamente, a Ferreira, optou por não declarar o 2017, mas sim o 2018. E Luís Sottomayor não se arrepende, tal como deixou transparecer recentemente, reafirmando o seguinte: “no futuro, ainda me vão dar razão de ter declarado o 18 e não o 17!”

Em relação aos mais recentes anos realmente declarados por todos (2011), poderia haver a tentação de uma comparação com o 2024. No entanto, o 2011 foi um ano muito mais quente. Gerou vinhos poderosos, mas mais gordos e cheios, ao contrário do 2024 que, beneficiando de um clima favorável, originou vinhos muito mais elegantes e finos. Percebe-se, assim, melhor o comentário do enólogo: “o vintage [20]24 tem uma classe que o [20]11 não tinha!”

Duas casas, diferentes tempos e estilos

As uvas vêm da mesma região, por vezes de zonas bem próximas, e com elas podem fazer-se perfis de Vinho do Porto bem diferenciados. No caso da Ferreira e da Sandeman, esse aspecto é relevante. O facto de, em novos, os vinhos serem mais ou menos robustos não condiciona necessariamente a evolução em cave. Se no momento do nascimento forem feitos com equilíbrio e bom balanço, podem atingir o mesmo nível de qualidade. Na Ferreira fazem-se vinhos que nascem com elegância, no seguimento do estilo criado por Fernando Nicolau de Almeida, sempre bem distinto do estilo dos ingleses; já na Sandeman são vinhos mais rijos, com taninos bem presentes, feitos com muito engaço, para terem aromas um pouco mais herbáceos e vegetais.

A Sandeman só entrou para o universo Sogrape em 2002 e houve uma mudança de estilo uma vez que, segundo Luís Sottomayor, sobretudo nos anos 80 do século XX, os vinhos estavam em perda de definição. Em 1994 o vinho mostrou uma recuperação de perfil que se concretizou, depois, no de 1997, ora provado. Tradicionalmente, a Sandeman abastecia-se em pequenos produtores, em Celeirós, Pinhão e Rio Torto; a primeira propriedade que esta casa possuiu foi a Quinta do Vau. No fundo, todas as empresas ainda compravam (e compram) vinho feito, sobretudo em adegas cooperativas, para suprir as lacunas em vinho e, ao mesmo tempo, cumprir o benefício.

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Luís Sottomayor não tem dúvidas: “o vintage 2024 tem uma classe que o 2011 não tinha!”

Feitas as apresentações, importa falar acerca da prova de vintages, momento em que foram revisitadas algumas edições antigas das duas empresas. Da Ferreira, provámos o Vintage de 1952, nascido numa década muito parca em bons vintages. O grande ano Clássico dos anos 50 foi o Vintage de 1955; nos outros anos, aqui e ali, houve vintages interessantes. O de 1952, nascido provavelmente em vinhas de field blend, teria uvas da Quinta do Seixo, Eira Velha (propriedade que, hoje, pertence à Fladgate), Quinta de Roriz e, talvez, algum vinho da Quinta do Vesúvio. As uvas eram vinificadas nas propriedades do Douro. Os lotes eram feitos em Gaia. Este Vintage de 1952 mostrou-se acastanhado na cor, com uma delicadeza aromática estonteante, uma riqueza de pequenas nuances, onde já se revelavam alguns frutos secos ao lado de notas licoradas e fruta em calda, caramelo e leite-creme, com perfeito equilíbrio na boca (19,5). Este Vintage nasceu no mesmo ano do primeiro Barca Velha e Luís Sottomayor fez questão em salientar: “ainda está aqui com capacidade para viver, e bem, em garrafa!”

Provou-se também o Vintage Sandeman 1963, um ano verdadeiramente marcante na história do Vinho do Porto. Foi o primeiro fôlego positivo depois do ambiente depressivo do pós 2ª Guerra, em que o vinho não se vendia e as empresas estavam descapitalizadas. Foi também o último ano que, no Douro, todo o Vinho do Porto foi feito a lagar. A partir de 1964 começaram a usar-se os auto-vinificadores e o Douro não voltou a ser o mesmo. O Vintage de 1963 que, em conjunto com o de 1966, formam os dois anos clássicos da mesma década, mostrou ainda bons tons avermelhados (ao contrário do Ferreira de 1952), com muito boa presença aromática, muito fino, a notarem-se com evidência os tradicionais aromas de garrafa. Licorado na boca, ainda com atractiva austeridade (19).

Da Sandeman provámos também o 1997. Aqui também falamos de um ano Clássico. Mostrou-se com muita cor, aroma com leve oxidação, mas boa fruta vermelha em compota. Ainda com taninos firmes, combinando estrutura com suavidade. Nesta época seria seguramente a Quinta do Vau a base das uvas para este Vintage (18).

Para completar esta prova, que antecedeu a dos 2024, ainda provámos o Ferreira Vinhas Velhas 2018. O vinho mostrou-se extraordinário, com grande estrutura, vigoroso, doce, mas no ponto certo, a revelar uma saúde de ferro e um equilíbrio a que a acidez deu forma. Logo na altura da pisa a pé, nos lagares da Quinta do Seixo, Luís Sottomayor afirmou, ao provar o mosto do 2018 que não se lembrava de ter provado um vinho de vindima com aquela qualidade; a mesma sensação foi evidente em 2024. São vinhos com um açúcar que ronda os 100 gramas por litro, embora essa doçura não seja evidente, permanecendo escondida pela complexidade do vinho.

Nos Vintage Ferreira, encontramos sobretudo Touriga Nacional, Touriga Francesa e Sousão, tudo vinificado em conjunto. Nos Sandeman, temos uvas de vinha velha, Touriga Nacional, Touriga Francesa e mais Sousão, com mais peso do engaço.

O facto da Sogrape dispor de 600 hectares de vinha na região do Douro permite identificar as parcelas que poderão contribuir para o estilo de cada uma das casas. Podemos afirmar que o backbone da Sandeman é a Quinta do Seixo (margem esquerda) e o da Ferreira é a Quinta do Porto (margem direita). Também foi declarado o Vintage Offley que terá, sobretudo, expressão em alguns mercados externos, como a Dinamarca. Não foi objecto de prova.

Os vinhos novos são colocados em tonéis não atestados, com algum ar e é isso que permite verificar quais os que aguentam esse embate. Os que oxidarem rapidamente mostram que não têm garra para aguentar o futuro. É um teste fundamental. Estes, cremos, têm um longo futuro pela frente. Os preços são indicativos e não vinculativos.

(Artigo publicado na edição de Agosto de 2026)

 

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