FLADGATE FAMILY WINES: Finalmente, 2024 trouxe tudo de bom
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28 de Setembro, 2026
Texto: João Paulo Martins
Fotos: DR
Desde 2017 que o grupo Fladgate esperava um ano assim. Foram sete anos de seca, de 2015 a 2022, mas, dizem-nos, já nos anos 40 do século passado tinha havido um longo ciclo caracterizado pelo mesmo factor. Finalmente, 2024 trouxe tudo de bom.
“Foi uma vindima de paciência”, diz-nos David Guimaraens, chefe de enologia da Fladgate Family Wines, agora a completar 40 vindimas no Douro. O porquê da paciência vem de seguida: muita água disponível no solo derivado ao inverno chuvoso de 2023/24; depois, de 2 de Junho até à vindima não voltou a chover e, apesar dos calores de Junho e Julho, as vinhas estavam viçosas.
Neste jogo, pode dizer-se que o Ás de Espadas saiu a partir de 18 de Agosto: noites muito frescas permitiram que a maturação se desenrolasse com toda a calma. Assim foi possível decidir o momento exacto da vindima de cada parcela, sem stress, sem o sufoco da perspectiva de chuva ou outros acidentes muito vulgares nesta época do ano. Poder escolher o dia certo da vindima é o sonho de qualquer enólogo e estender a vindima quanto se quiser é o sonho 2.0. A principal consequência deste “estender de vindima” é a qualidade da fruta e dos taninos, que resultam com grande finura. Tudo isso aconteceu em 2024.
Quinta da Roêda
Há um método especial para vintages?
A resposta não é óbvia. Todavia, David Guimaraens tem os seus pontos-chave e as suas irritações crónicas, quando o assunto são os vintages. Começando pelo princípio, a defesa da pisa a pé, sobretudo no início do corte do lagar é determinante, ainda que na segunda parte do trabalho de lagar já se usem muitos pisadores mecânicos. Nas quatro adegas onde decorrem os trabalhos, há lagares para pisa a pé e em três delas há pisadores para a segunda fase da pisa, complementada com o trabalho dos “macacos de madeira”, para envolver e baixar a manta. Cerca de 70% do Vinho do Porto da empresa é feito em lagar e o restante em inox.
David Guimaraens considera que o uso de 100% do engaço continua a ser fundamental, embora alguns outros produtores apontem para a diminuição da percentagem do mesmo. O engaço é elemento equilibrador na doçura natural do Vinho do Porto. Na prensagem, tem uma influência física que se transforma, no envelhecimento, numa influência organoléptica. Das irritações, David Guimaraens também não as esconde: o uso “exagerado” de Touriga Nacional, que veio introduzir um estilo novo (muito aromático), mas que, como sempre acontece com o Vintage. Portanto, convém ter algum cuidado com as mudanças, pois os resultados só serão visíveis dentro de 20 ou 30 anos.
Outro factor a que torce o nariz é ao uso crescente da casta Alicante Bouschet (e também Sousão) para fazer Vinho do Porto, principalmente porque têm muita cor. Ora, opina, a cor não é necessariamente uma condição exclusiva e não é por ter cor a mais que o Vintage é melhor. Estão, agora, a fazer-se vintages com mais cor do que nunca, mas “só cor não é o que me interessa”, afirma.
Aqui não se confunde qualidade com identidade e, ao gerir parcelas em propriedades muito diferentes, David Guimaraens procura que cada quinta transmita ao Vintage a identidade do lugar. E, afirma, “o que faz um grande Vintage é o binómio qualidade e longevidade.” Nos anos mais quentes este tipo de vinho tende a “abrir” muito tarde, precisa de muito anos para se revelar. Porém, nos anos frescos, os vintages dão sempre boa prova em qualquer momento.
Um dos elementos que muito tem contribuído para a qualidade actual dos vintages é a aguardente, hoje muito melhor quando comparada com a dos anos 80 e 90, do século passado, por exemplo. Com a inovação introduzida por Charles Symington, aplaudida por David Guimaraens, a aguardente é, agora, adicionada a baixa temperatura ao mosto, preservando assim muitos aromas outrora perdidos.
Os vintages de 2024 estão já todos alocados, continuando a ser o Reino Unido (40%) e os Estados Unidos (30%) os principais mercados, mas o consumo interno é cada vez mais importante
Os 2024 à lupa
Dos vintages de 2024, em que as três principais empresas do da Fladgate Family Wines fizeram em média metade da produção habitual em anos clássicos, registamos estes dados, sempre interessantes e úteis. Do vintage Croft fizeram-se 19 200 garrafas. Cerca de 85% do vinho tem origem na Quinta da Roêda, desde sempre a base destes vinhos, aqui acrescidos com alguns vinhos do vale do Pinhão. Maioritariamente vinhas velhas com muita Tinta Francisca, embora a base seja composta por Touriga Francesa, Tinta Roriz e Barroca e, curiosamente, alguma Alicante Bouschet, que já lá existia. Tem 92 gramas de açúcar.
A Fonseca, cuja base é a Quinta do Panascal, associada, aqui, a vinhos das propriedades no vale do Pinhão – Santo António e Cruzeiro –, além das uvas de uma vinha localizada ao lado do Panascal e recentemente adquirida, a Quinta Socalcos de Vale de Muros. A soma perfaz 48 000 garrafas e o vinho apresenta-se com cerca de 96 gramas de açúcar. A uvas vinificadas do Panascal dão a gordura, mas as outras confer
em a frescura e os taninos, vitais para o equilíbrio do conjunto.
Já a Taylor’s – desde sempre baseada na Quinta de Vargellas – totaliza 60 000 garrafas, também aqui cerca de metade da quantidade habitual. O que David Guimaraens mais salienta no Taylor’s é a precisão e, apesar de nunca brilhar nas provas, tem sempre um futuro radioso. Apresenta igualmente 92 gramas de açúcar.
O Vintage Taylor’s Sentinels (vai na 3ª edição) ganhou o nome inspirado nos marcos de Feitoria que existem em algumas propriedades do vale do Pinhão. É todo ele daquela zona, beneficiando não só das uvas que não foram incluídas nas outras marcas, como também das boas propriedades que a empresa dispõe na região, onde se destaca o Junco e Eira Velha, por exemplo. Fizeram-se 31 200 garrafas, aqui também com cerca de 92 gramas de açúcar.
Como aconteceu com outras declarações anteriores, para satisfazer todos os mercados onde a Fladgate Family Wines está presente, os vintages de 2024 estão já todos alocados, continuando a ser o Reino Unido (40%) e os Estados Unidos (30%) os principais mercados, com a procura interna a ser cada vez mais importante.
Cerca de 70% do Vinho do Porto da empresa é feito em lagar e o restante em inox
David Guimaraens
Revisitar o passado
Após a prova dos vintages de 2024, David Guimaraens fez-nos regressar a alguns vintages da Fonseca de anos anteriores, recuando até 1994. Assim começámos pelos mais novos e provámos o 2017, nascido num ano quente e seco. Mostra-se ainda muito concentrado e rico, um Vintage rijo, com muitos anos pela frente. O 2016, com algumas parecenças com o 2017, mas mais elegante e a mostrar uma grande harmonia de conjunto. Já no 2007 encontrámos algumas semelhanças de estilo com o de 2024, ambos nascidos em anos mais frescos, este já a mostrar alguns aromas de garrafa. Dá muito prazer a beber.
O ano de 2003 foi especialmente quente e gerou vinhos com muita concentração e cor. É um tipo de Vintage que precisa de muitos anos para começar a mostrar o seu melhor perfil. É este o caso. Com 23 anos de vida, começa agora a abrir e a mostrar muita elegância, com curiosas notas de eucalipto e leve mentol. Uma bela surpresa. Terminámos esta viagem ao passado com o 1994, este a mostrar uma (eventual?) evolução algo precoce, a dizer-nos que poderá estar já no seu melhor momento de prova. Mas bebe-se muito bem agora.
Globalmente, o negócio do Vinho do Porto vai mal, com o registo de quedas acentuadas nas vendas mas, a contrario sensu, “nunca se vendeu tanto Vinho do Porto de categorias especiais como agora”. E hoje há muito mais empresas a engarrafar Vinho do Porto do que havia há algumas décadas. No caso do Vintage, a tradição sempre o ligou às empresas de Vila Nova de Gaia, porque recebiam vinhos de vários produtores e, depois, faziam o lote e distinguiam os anos de maior e menor guarda (daí nasceu a ideia do Clássico e não Clássico, ou single quinta).
Os novos produtores do Douro não têm a tradição da declaração do Vintage, nem dispõem da mesma diversidade de lotes de zonas diferentes, como sempre aconteceu com as empresas. David Guimaraens não deixou nada para o fim e afirmou: “os Vintages não são vinhos democráticos, são vinhos para os apaixonados. Se queremos democracia, já temos os tawnies”. E os 2025? perguntámos em antecipação. É cedo para dizer, mas “têm muita cor”, concluiu o enólogo.