Comecemos pelo princípio. O que temos na mesa de prova é um whisky escocês com origem em Speyside, uma das cinco zonas distintas do whisky de malte. As outras são Highlands, Islay, Lowlands e Campbeltown. Speyside é, no entanto, a mais importante, uma vez que ali se localizam cerca de 1/3 de todas as destilarias da Escócia (150), mas muitas delas executam essa tarefa para clientes (e marcas) diferentes. Após a destilação, o spirit é estagiado em madeira de carvalho. Por norma, o que conhecemos melhor são os whiskies que já tiveram o seu estágio em carvalho, mas, sempre que é possível e havendo a oportunidade, é uma grande experiência provar um whisky antes de ir para o casco. É aí que se percebe que o destilado e a madeira são indissociáveis e que o spirit sem a madeira fica totalmente descasado, e, diga-se, sem grande graça.
Muitas das marcas que conhecemos estão conotadas com uma destilaria. Contudo, convém recordar que há marcas de whisky de empresas sem destilaria e que funcionam como loteadores: compram whiskies em variados locais, depois loteiam e envelhecem. Podem tornar-se marcas muito procuradas por coleccionadores e apreciadores, como Gordon & MacPhail, empresa cuja fundação remonta ao século XIX e que também se localiza em Speyside. São verdadeiros arqueólogos do whisky, disponibilizando produtos raros, antigos e muito procurados por coleccionadores.
Um pouco à semelhança do que acontece no sector vinícola, também o whisky conhece actualmente um movimento de criação ou renascimento de pequenas destilarias, apontando para produtos de boutique, originais e editados em quantidades muito limitadas. O coleccionismo atinge, neste universo, o nível de quase doença, com a busca incessante “daquela garrafa” que ainda não consta na colecção. Mesmo para apreciadores normais, categoria em que me coloco, um passeio na rua principal de Edimburgo é desconcertante: são lojas umas a seguir às outras e as montras estão recheadas de marcas e nomes que não conhecemos. Percebemos de imediato que é um outro mundo que nos escapa.
A Glenrothes foi fundada em 1878 por James Stuart, que já trabalhava na vizinha Macallan. Com história conturbada e várias catástrofes pelo meio, interessa-nos a mais recente. Desde 2018, pertence ao grupo que detém a Macallan e a Highland Park. No caso da Macallan, estamos a falar de uma marca verdadeiramente icónica, que pode atingir preços de ourivesaria, qualquer coisa como dezenas de milhar de euros por edições datadas, sobretudo dos anos 50.
As maturações do whisky da Glenrothes são feitas em cascos de Jerez. Há empresas que preferem outro tipo de cascos, nomeadamente de Vinho do Porto, para a fase final do estágio. Neste caso, surge no rótulo a indicação “Port Finish”, como acontece com algumas marcas conhecidas, como Balvenie ou Glenmorangie. Existe também um intercâmbio entre Moscatel de Setúbal e whisky: há cascos a irem para lá e outros a virem de lá para cá, com o propósito de serem utilizados no envelhecimento do moscatel, como acontece na Bacalhôa, em Azeitão.
Este The Glenrothes 15 Anos é um Single Malt, ou seja, resulta de maltes destilados numa única destilaria. Em tempos, encontrava-se no mercado garrafas com a indicação Pure Malt (lote de destilados de várias origens). Porém, o termo está fora de uso, tendo sido substituído por Blended Malt.
(Artigo publicado na edição de Maio de 2026)






