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Choo choo!… Lá vai o comboio Vintage

By 4 Dezembro, 2018 Sem comentários

A apresentação dos oito Porto Vintage 2016 da Symington teve lugar na Quinta do Bomfim, no Pinhão. À ida e à volta, apanhámos o Comboio Presidencial. Uma experiência Vintage, a dobrar…

TEXTO Mariana Lopes e Valéria Zeferino
NOTAS DE PROVA Valéria Zeferino e Luís Lopes
FOTOS Adriano Ferreira Borges – cortesia Symington

The Presidential. O comboio português que transportou Presidentes, Reis e Papas desde a sua construção, em 1890, até ser retirado de circulação, em 1970. D. Luís I e sua corte serviram-se do, outrora, Comboio Real, bem como, mais tarde, a rainha britânica Isabel II ou Sua Santidade Paulo VI. A composição, após a República apelidada de Comboio Presidencial, foi restaurada em 2010 e faz cerca de vinte viagens gastronómicas de luxo por ano, com chefs reputados a servir menus de degustação.
Com os oito Vintage 2016 da Symington Family Estates à nossa espera na Quinta do Bomfim, a viagem a bordo deste comboio, que nos levou até eles, foi inesquecível. Chegados à estação de São Bento, num Porto soalheiro, ali estava a bela máquina azul, de pintura imaculada e pose quase superior, de fazer inveja à frota moderna parada nas outras linhas. No interior esperava-nos o mesmo cenário de há cinquenta anos, as mesmas cabinas com seis largas poltronas vermelhas listadas e espaços de lazer e refeição com a classe de um século que já não é o nosso. Já em andamento (pouca-terra, pouca-terra…), o chef Pedro Lemos e a sua equipa serviram um pequeno-almoço sem modéstias (à volta, um almoço à medida dos vinhos Symington que com ele harmonizaram, novos e velhos).

Durante a viagem, a conversa entre convidados e anfitriões foi impulsionada pela expectativa de conhecer os novos Vintage e pelo ar morno que entrava pelas janelas. Johnny Symington, Joe Álvares Ribeiro e Miguel Potes acompanhavam-nos e lá, no Bomfim, aguardavam-nos Paul, Charles, Dominic e Rupert Symington.
Paul, que começou em 1979, está prestes a retirar-se, segundo a tradição da família (por via do seu 65º aniversário), e esta foi a sua última declaração de Vintage. Ao lado do enólogo e primo Charles, apresentou os vinhos com certeza nas palavras: “Trabalho há 40 anos nesta empresa e só 10 vezes declarámos vintage. Uma declaração não é ‘fabricada’ quando convém: é feita somente quando o vinho é realmente bom.”
Apesar disso, hoje em dia faz-se menos quantidade de Vintage do que há alguns anos, pois há mais vindimas de qualidade, mas a exigência para um vinho destes é cada vez maior. “Hoje estes momentos são ainda mais importantes, porque estamos a competir com os melhores do mundo, na Borgonha ou em Bordéus”, confessou Paul. As palavras de quem esteve 39 anos à frente de uma empresa de Vinho do Porto foram sérias, mas logo veio o tom brincalhão, quando atirou: “Eu e os meus primos somos completamente doidos. Qualquer contabilista o diria!” Sem papas na língua, referiu-se aos avolumados investimentos que a família tem feito no Douro, e esclareceu: “Todo o nosso dinheiro, nos últimos trinta anos, foi para uma coisa só, o investimento na vinha. Nesse aspecto, ninguém levou esta terra tão longe como nós.” E esta prática vai continuar, em tecnologia avançada para as suas nove adegas, nos vinhedos e em dois novos restaurantes, no Bomfim e nas caves Cockburn’s, em Gaia. “Queremos maximizar o prestígio do Douro e do Vinho do Porto”, adiantou.
Paul, que entrou num momento em que a procura por Porto Vintage era muito forte, reconhece que, a partir do final dos anos 80, esse desejo por Vintage abrandou consideravelmente. Com os Vintage de 2011, pela primeira vez num quarto de século, houve uma grande valorização: o Dow’s desse ano hoje vale bem mais do dobro, com cada caixa a custar para cima de 1500 euros. É esta a magia dos Vintage, esperar para descobrir o que está para vir.

A vindima e o ano 2016

Sim, saber esperar é uma virtude. Este ditado aplica-se plenamente à vindima de 2016 que projectou Vinhos do Porto Vintage de altíssima qualidade, declarados recentemente.
Esta é a quarta declaração deste século e a segunda desta década (desde o mítico 2011) que abrange todas as grandes casas da Symington Family Estates – Dow’s, Warre’s, Graham’s e Cockburn’s. De acordo com Paul Symington, “em 2016 foi absolutamente necessário conhecer a vinha” para tomar as decisões acertadas.
Ao falar da vindima de 2016 é preciso recuar a 2015, até porque o ano hidrológico não coincide com o ano civil e começa a 1 de Outubro. O Outono foi seco, mas o Inverno, embora ensolarado, trouxe bastante precipitação.
Com o Inverno relativamente quente, o abrolhamento começou no final de Fevereiro, duas semanas antes do normal. Entretanto, a Primavera veio fresca e chuvosa. Por um lado, deu para corrigir os solos secos, por outro perdeu-se o avanço e floresceu mais tarde. Em Abril e Maio choveu tanto que o rio Douro esteve fechado ao trânsito. Alguns produtores perderam quase a totalidade da vindima por causa do surto de míldio.
A humidade acumulada no solo durante este tempo foi essencial para equilibrar o Verão quente e seco. Em Agosto houve duas ondas de calor, com temperaturas acima dos 40˚C. Nestas condições as plantas fecham estomas, a fotossíntese pára e a maturação não avança. Por isto, a chuva no período de 24 a 26 de Agosto trouxe um efeito benéfico, veio retemperar o calor, sobretudo no Douro Superior, onde era mais precisa. A diferença entre rega e chuva é precisamente esta: a primeira apenas fornece a água, enquanto a segunda também refresca o ar.
O calor voltou com força no início de Setembro (na Quinta do Bomfim foi registada a temperatura mais elevada do mês, desde que há registos: 43˚C), o que, em combinação com a previsão de chuva para 12 e 13 de Setembro, motivou alguns viticultores a começar a vindima. Entretanto, em muitos sítios as uvas não estavam completamente maduras, o que deve ter tido impacto nas casas que têm pouca vinha própria e dependem de uva comprada.
Quem avaliou bem a sua vinha, teve a paciência de esperar e estava disposto a correr riscos, conseguiu colher as uvas no momento certo de maturação e em condições ideais porque depois da chuva refrescante a temperatura manteve-se mais amena e com noites frescas.
Paul Symington reconhece que o risco valeu a pena e que os melhores vinhos foram originados por uvas apanhadas no período de 20 de Setembro até meados de Outubro. Quando pararam de vindimar, começou a chover, mas tiveram uma janela de quatro semanas com condições perfeitas. Esta vindima deu origem a vinhos de grande concentração, equilíbrio e qualidade.
Paul Symington, quando da sua saída em Dezembro, dará lugar na gestão da empresa aos mais novos – os seus primos Johnny e Rupert. É, sem dúvida, uma saída em grande, assinalada pelo fabuloso ano Vintage.

Os Vintage de grandes marcas

Os Vintage das grandes marcas Symington, como é o caso de Cockburn’s, Warre’s, Graham’s e Dow’s, são resultado de combinação precisa de melhores componentes oriundas das múltiplas vinhas de várias quintas.
Para Cockburn’s, esta é a terceira declaração Vintage desde a aquisição pela família Symington em 2010. A principal estrutura é fornecida pelas uvas da Quinta dos Canais, no Douro Superior, que contribuiu com Touriga Nacional e Touriga Franca. Sousão (9%) e Alicante Bouschet (8%) serviram de complemento ao lote. Foram produzidas 2.450 caixas de 12 garrafas.
O último Vintage Warre’s foi declarado em 2011 e, até agora, só produziram um Vintage da Quinta da Cavadinha, de 2015. As vinhas velhas com predominância da Touriga Franca desta quinta, em conjunto com a Quinta do Retiro, constituíram cerca de metade do lote Warre’s 2016, garantindo a estrutura e complexidade. A Touriga Nacional e Franca oriundas da Quinta da Telhada contribuíram com os aromas florais. Foram produzidas 4.250 caixas de 12 garrafas.
A última declaração da Graham’s também foi em 2011, tendo sido em 2012 e 2015 produzido um Vintage da Quinta dos Malvedos. Estas uvas acabam por ser a espinha dorsal dos Vintage Graham’s. O volume é bastante reduzido e consiste em 6.325 caixas de 12 garrafas, incluindo 600 garrafas magnum e 352 Tappit Hen (um formato menos comum de 2,25 L).
Ao falar do Dow’s vem logo à memória o famoso Vintage de 2011 que obteve 99 pontos dos 100 possíveis, ficando em 1º lugar no Top 100 da “Wine Spectator”, a melhor classificação a seguir aos 100 pontos do 2007. Foi preciso esperar mais uns anos para se criarem condições que permitissem fazer um Vintage desta dimensão. O componente principal deste Vintage provém de uma pequena parcela na Quinta do Bomfim, chamada Vinha dos Ecos, onde a Touriga Franca, este ano, rendeu apenas 680g por videira. A Touriga Nacional de outra vinha da Quinta da Senhora da Ribeira, a 200-450m de altitude, compõe o lote com frescura e componente aromática. Sousão oferece cor e acidez para garantir o equilíbrio. Uma pequena parte de vinha muito velha que produz apenas 320g por videira e Alicante Bouschet de uma parcela da Quinta da Senhora da Ribeira acrescentaram complexidade e estrutura.

Os Vintage de terroir

Os Vinhos do Porto com grande sentido de lugar, com mais identidade geográfica, são aqueles que se produzem com uvas de apenas uma propriedade.
É o caso da Quinta de Roriz, resultado da parceria entre Bruno Prats e a família Symington. A quinta foi uma das primeiras a comercializar vinhos sob o seu próprio nome e com elevada procura desde os séculos XVIII e XIX. Nesta propriedade, as uvas amadureceram mais cedo, e a vindima não teve que aguardar até à segunda metade de Setembro.
A Quinta do Vesúvio é outra propriedade, situada no Douro Superior, que produz vinhos fantásticos apenas com as suas próprias uvas. Dois factores têm um papel determinante na sua qualidade: a altitude, que vai dos 100 aos quase 500 metros, e a exposição, que maioritariamente é de noroeste e oeste, permitindo resguardar as vinhas do calor do Verão. Em 2016 foram declarados dois portos Vintage – Quinta do Vesúvio (esta quase todos os anos apresenta qualidade que justifica a declaração do Vintage) e Capela da Quinta do Vesúvio, que só é produzido nos anos excepcionais, em quantidades mínimas, como foi em 2007 e 2011 e como é o caso deste ano, com apenas 3.000 garrafas.
Para além dos Single Quinta, existe um Porto Vintage que provém de uma área ainda mais pequena da Quinta dos Malvedos. Estamos a falar das duas parcelas muito particulares com cerca de 2.700 plantas assentes nos terraços com muros de pedra recuperados que deram origem ao nome “The Stone Terraces”. Ao contrário da maior parte das vinhas da quinta, viradas a sul, estes terraços estão orientados a nordeste e nascente, o que ajuda a preservar frescura e se traduz em vinhos com um perfil muito próprio e extraordinária qualidade.

Em prova

  • Quinta do Vesúvio Vintage
    Porto, Vintage, Licoroso, 2016

    18.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Graham’s The Stone Terraces Vintage
    Porto, Vintage, Licoroso, 2016

    20.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Cockburn’s Vintage
    Porto, Vintage, Licoroso, 2016

    18.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Graham’s Vintage
    Porto, Vintage, Licoroso, 2016

    19.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Capela da Quinta do Vesúvio Vintage
    Porto, Vintage, Licoroso, 2016

    19.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Warre’s Vintage
    Porto, Vintage, Licoroso, 2016

    18.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta de Roriz Vintage
    Porto, Vintage, Licoroso, 2016

    18.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Dow’s Vintage
    Porto, Vintage, Licoroso, 2016

    19.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor

Edição nº14, Junho 2018

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