Grande Prova

Tintos de Setúbal: Um sucesso sem segredos

By 25 Outubro, 2019 Sem comentários

A Península de Setúbal é uma região multifacetada, mas também um enorme sucesso comercial, assente num perfil de vinhos de que toda a gente gosta. Desde tintos com relação preço-qualidade absolutamente irresistível até ao que de melhor se produz em Portugal. Terra de Castelão, mas também das ubíquas Syrah e Touriga Nacional, e até do Alicante Bouschet cada vez mais utilizado. Uma região que é um festim para os sentidos.

TEXTO Nuno de Oliveira Garcia

FOTOS Ricardo Gomez

Entre Almada, a sul de Lisboa, e Santiago do Cacém na fronteira com o Alentejo, é tudo área geográfica do vinho Regional Península de Setúbal. É, portanto, uma extensão significativa, ainda que não seja uma das maiores regiões nacionais. Por outro lado, e apesar do cultivo da vinha ocorrer de forma dispersa por toda a região, existem dois núcleos principais com características orográficas distintas: um a Sul e Sudoeste, zona montanhosa e recortada por vales, formada por serras (a da Arrábida, a mais conhecida) e montes (o de Palmela, em destaque); a outra, prolonga-se em extensa planície junto ao rio Sado e não muito distante do rio Tejo. Com maior precisão encontramos dois terroirs clássicos, os calcários da Serra da Arrábida e as areias de Fernando Pó, com primazia para o segundo ao nível da superfície com vinhedo.
Na região, a vinha é abundantemente plantada, sendo um dos seus principais cultivos. Basta percorrer de carro a autoestrada A2, ou as estradas N4 e N10, para se ter a sensação clara da imersão numa zona vitivinícola. Não espanta, por isso, também que as tradições de vinho sejam profundamente enraizadas – terão sido os Fenícios e os Gregos os primeiros a introduzir a vinha nas encostas da Arrábida e na zona ribeirinha do Tejo, cultivo depois impulsionado pelos Romanos e os Árabes –, com centenas de propriedades a dispor de adega e de cave, ambas, tradicionalmente, afastadas da casa principal. De resto, são muitas as pequenas vinhas no meio de outras de maior dimensão. Mesmo a mais breve passagem por Palmela, Vila Fresca de Azeitão, Pegões ou Fernando Pó, confirma a tese de que o vinho nesta região tem uma importância popular enorme.
Um clima verdadeiramente mediterrânico – muito próximo do subtropical com fracas amplitudes térmicas e influenciado pela proximidade do mar e das bacias hidrográficas do Tejo e do Sado – solos com diferentes rendimentos (desde areias pouco produtivas a calcários compactos e férteis), e a utilização de castas que permitem elevadas produções mantendo qualidade (Syrah ou Alicante Bouschet), fazem da região um paradigma recente de sucesso. Atualmente, dos 9400 hectares em produção, mais de 6200 hectares encontram-se aptos à produção de vinho certificado. Igualmente determinante para o sucesso da região tem sido a reconversão de vinhas dos últimos anos, cada vez mais se recorrendo a material vegetativo selecionado (com potencial quantitativo e qualitativo), bem como a democratização da utilização de rega da vinha devido ao clima quente e seco de verão e à baixa retenção de água de grande parte dos solos, sobretudo das areias.

Um sucesso no mercado

Também ao nível da aceitação por parte dos consumidores, a Península de Setúbal dá cartas e, com quase 15 anos a escrever sobre vinhos (inaugurei o primeiro blog de vinhos em Portugal em 2005), nunca conheci um consumidor que não gostasse dos vinhos desta região. Actualmente, e apenas quanto a vinhos certificados, a região é a que mais vende em Portugal depois do Alentejo e Minho, ficando mesmo à frente do Douro. E, note-se, trata-se de uma tendência em progressão tendo sido, em 2018, a região que mais cresceu em relação a anos anteriores. De 2005 para cá a produção de vinho tem aumentado, sendo que, no que respeita a vinho certificado, a subida é mesmo estratosférica, tendo triplicado em pouco mais de 10 anos! Com tantos aspectos favoráveis, a este respeito, pode até afigurar-se surpreendente o número relativamente pequeno de produtores com vinhos certificados e engarrafados, mas isso explica-se pelo facto de existirem fortes players na região que, perante tanto sucesso, são obrigados a comprar muita uva, caso da Casa Ermelinda Freitas, José Maria da Fonseca e Bacalhôa, para além de importantes Adegas Cooperativas, como Pegões e Palmela. Apesar desta realidade poder diminuir a versatilidade da oferta de produtos da região, a verdade é que a tem tornado rentável para os pequenos viticultores, sem impedir que novos produtores apareçam. Tal é bem visível nesta prova que contou com vinhos de projectos relativamente recentes como seja Damasceno, Herdade da Arcebispa, e Herdade da Barrosinha. Igualmente importante é realçar a presença de vinhos de perfil mais atlântico, da margem sul do rio Sado, do qual são bons exemplos José Mota Capitão e Brejinho da Costa (Resigon), prova de vitalidade e do surgimento de novos caminhos na região.

Castelão domina, Syrah cresce

Ao nível do encepamento, o domínio das castas tintas – 78% do total – é manifesto, o que se explica, em parte, pela hegemonia do Castelão (ver Caixa) ocupando cerca de 60% do encepamento total da Península de Setúbal. A par do Castelão, a Aragonez e a Syrah são largamente plantadas (a área de Syrah tem mesmo crescido significativamente nos últimos anos), sendo a omnipresente Touriga Nacional a quarta casta mais plantada. Por outro lado, a casta branca mais representativa da região – o Moscatel de Alexandria –, plantado de preferência na serra, mas também cada vez mais nas areias, é sobretudo utilizado para a produção do famoso generoso. Isso significa que o papel dos vinhos brancos, por vezes, fica relegado para segundo plano, apesar de tanto a Fernão-Pires como a Arinto (e até a Verdelho, aposta mais recente) proporcionarem vinhos de qualidade e originalidade.
Na prova realizada foi possível discernir os vinhos mais tradicionais com a utilização exclusiva, ou quase, de Castelão proveniente de solos de areia, daqueles com pendor mais moderno e até experimentalista. Na primeira vertente, resultou muito claro uma linha clássica com a casta a lembrar alguns tintos de Montepulciano e de Maremma (Toscana, em ambos os casos), sobretudo no desenho dos taninos e no perfil gastronómico evidente, por vezes quase rústico. São tintos com óptima capacidade de envelhecimento e acidez firme, disso não temos dúvidas e a nossa experiência na prova de Castelão com muitos anos em garrafa demonstra-o. Nesta toada, para além do Primo (versão sofisticada de Castelão) e do Leo d’ Honor (perfil clássico muito concentrado), apreciámos muito o vigor e carácter do Reserva da Herdade da Espirra (bela surpresa). Igualmente em destaque estiveram alguns vinhos mais conceptuais, com a utilização de várias castas a privilegiar a elegância e a complexidade que só um lote pode, colheita após colheita, proporcionar. Caso notório do Hexagon (excelente edição), mas também do Herdade da Arcebispa Grande Reserva e do Damasceno Reserva.
O conjunto da prova, resultou na confirmação da capacidade da região para produzir não apenas “best sellers” mas também tintos de muito grande nível, expressando em terroirs e estilos distintos. O sucesso nunca acontece por acaso…

A CLÁSSICA CASTELÃO

É certamente a casta tinta mais cultivada no sul de Portugal, com boa capacidade de adaptação a diferentes condições climáticas. Na região da Península de Setúbal, ainda é conhecida por Periquita, nome que terá tido origem na propriedade chamada Cova da Periquita, localizada em Azeitão, onde José Maria da Fonseca a plantou por volta de 1830. Apesar de se dar bem tanto na serra como na planície, todos os enólogos que contatámos afirmaram que os melhores tintos provém dos terrenos arenosos e das vinhas velhas da região, podendo mesmo ser equacionada plantação em pé-franco. De tal forma está ligada à região que, para a produção dos vinhos tranquilos tintos DO Palmela, é obrigatória a inclusão de, pelo menos, dois terços de Castelão. São vinhos geralmente estruturados, com fruto, acidez e sabor em boca, com notas mais complexas de pinhão, bolota ou castanha. Regra geral, apresentam boa capacidade de envelhecimento num perfil clássico e tendencialmente seco (dependendo, obviamente, da enologia), originando uma curiosa nota citrina com o passar dos anos. Para mais detalhe, veja-se o artigo de MW Dirceu Vianna na edição de Abril.

  • Xavier Santana
    Palmela, Castelão, Tinto, 2015

    17.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Herdade da Barrosinha
    Regional Península de Setúbal, Grande Reserva, Tinto, 2012

    16.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Bacalhôa
    Regional Península de Setúbal, Alicante Bouchet, Tinto, 2016

    17.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Foral de Palmela
    Palmela, Castelão, Reserva, Tinto, 2015

    16.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Damasceno
    Regional Península de Setúbal, Reserva, Tinto, 2015

    17.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Malo Platinum Vinhas Velhas
    Regional Península de Setúbal, Grande Reserva, Tinto, 2015

    17.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Filipe Palhoça
    Regional Península de Setúbal, Merlot, Tinto, 2016

    16.5
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Casa da Atalaia
    Regional Península de Setúbal, Tinto, 2013

    16.5
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Sacrifício
    Regional Península de Setúbal, Grande Escolha, Tinto, 2017

    16.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta do Monte Alegre
    Regional Península de Setúbal, Reserva, Tinto, 2015

    17.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Primo
    Palmela, Tinto, 2015

    18.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Villa Palma
    Palmela, Reserva, Tinto, 2015

    16.0
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Adega de Pegões
    Regional Península de Setúbal, Grande Reserva, Tinto, 2016

    17.0
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Família Horácio Simões Segredos
    Regional Península de Setúbal, Tinto, 2015

    17.0
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Brejinho da Costa
    Regional Península de Setúbal, Reserva, Tinto, 2014

    17.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Leo d’Honor
    Palmela, Tinto, 2013

    17.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Serras de Grândola Edição Especial
    Regional Península de Setúbal, Tinto, 2015

    16.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Herdade da Gâmbia
    Regional Península de Setúbal, Reserva, Tinto, 2016

    16.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • ASF
    Palmela, Tinto, 2016

    16.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Herdade da Espirra
    Palmela, Reserva, Tinto, 2015

    17.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Vinhas da Marateca
    Palmela, Premium, Tinto, 2017

    16.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Cascalheira
    Regional Península de Setúbal, Syrah, Tinto, 2017

    16.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Lobo Mau
    Palmela, Castelão, Touriga Nacional, Tinto, 2013

    16.5
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Hexagon
    Regional Península de Setúbal, Tinto, 2014

    18.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Herdade da Arcebispa
    Regional Península de Setúbal, Grande Reserva, Tinto, 2016

    17.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Cavalo Maluco
    Regional Península de Setúbal, Tinto, 2013

    17.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor

Edição Nº26, Junho 2019

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