Grande Prova

Tintos do Douro, A perfeição cada vez mais perto

By 25 Fevereiro, 2019 Sem comentários

O Douro produz vinhos tintos de excelência, diferentes entre si, mas cada vez mais frescos e elegantes, com a barrica usada com precisão e o álcool mais contido. Sente-se uma procura pela expressão do terroir de cada vinha ou local, numa busca incessante do vinho perfeito.

TEXTO: Nuno de Oliveira Garcia
FOTOS: Ricardo Palma Veiga

O consumidor atento sabe bem que o Douro é uma das regiões com mais prestígio no mercado, sobretudo quando falamos de tintos. A fama (mais do que merecida) do Vinho do Porto ajuda a essa percepção e, desde a segunda metade dos anos 90, a região encetou um movimento de criação de valor aos vinhos DOC. Actualmente, e falando ainda de DOC, é uma região pujante, quer ao nível dos números de produtores, quer ao nível da qualidade dos vinhos.
Trata-se de uma região grande em dimensão, com uma área de vinha de mais de 42.000 hectares (metade só no Cima Corgo), mas a produção por hectare é muito baixa se comparada com outras regiões. Em 2017, e apenas quanto a vinhos certificados, depois do Alentejo, Minho e Península de Setúbal, a região do Douro é quem mais vende em Portugal, com uma quota de mercado de 4,8%. As projeções para 2018 são de crescimento, para uma quota de 5,5%. O nível de crescimento nos últimos anos é importante, sendo a região apenas suplantada em 2018 pela Península de Setúbal como aquela que mais cresceu em relação a anos anteriores.
Mas mais ainda do que o volume que produz e vende, o Douro é uma região com valor, com um número de vinhos premium e super-premium absolutamente avassalador (como as dezenas de tintos provados neste painel atestam). Aliás, no que respeita a vendas em euros, é a segunda região do país e aquela que regista a subida mais acentuada nos últimos anos. E no que respeita ao preço médio por litro, tirando os casos muito específicos do Algarve (devido ao consumo turístico local) e das Terras de Cister (centrado nos espumantes de Távora-Varosa), é o Douro que reina.

Buscar a diferença

Com tanto sucesso, o desafio do Douro é outro que não apenas a liderança dos números: é buscar diferenciação face a outras regiões e com estilos diferentes dentro da região. No primeiro caso, e dada a existência de significativa área de vinha velha com dezenas de castas autóctones misturadas, bem como a quase exclusão de castas estrangeiras (excepção de Syrah e Alicante Bouschet, esta última, todavia, presente em alguns vinhedos antigos), a diferenciação está relativamente assegurada.
Quanto ao segundo aspecto, os anos 1990 e início do novo milénio apontaram para um perfil quase generalizado da região, centrado em tintos com fruto muito maduro e de recorte encorpado. No que respeitava a topos de gama, a essas características caberia adicionar o uso de barrica (quase sempre maioritariamente) nova e alguma tendência para elevados teores alcoólicos.
Atualmente a situação é bem diferente, como demonstra a nossa prova, onde os vinhos das colheitas mais recentes de 2015 e 2016 confirmam que estamos a viver um momento pivot, uma verdadeira mudança de paradigma, aspeto para o qual João Paulo Martins já tinha salientado na prova de topos de gama do ano passado (edição de novembro de 2017). Para tal, foi crucial a verificação de dois movimentos convergentes: por um lado, vários foram os produtores que passaram a procurar um estilo mais aberto e vivo, menos centrado no fruto maduro e no álcool quase sempre por imposição do mercado (vindimando mais cedo e fugindo da obsessão pela maturação fenólica); por outro lado, novos produtores e enólogos (muitos deles jovens) apareceram na região, e sentiram a necessidade de desenvolver estilos de tintos menos padronizados, procurando distinguir-se dos restantes, ora evitando barrica nova, ora procurando uvas em altitude e/ou com exposição que garantisse menor risco de sobrematuração.

Rolhas de topo

Ao contrário do que sucedera na grande prova de vinhos topo de gama do Douro realizada em 2017, praticamente não tivemos problemas de rolha nesta prova. Apenas um caso de desclassificação foi taxativamente qualificado como tendo TCA, e em apenas duas outras situações foi necessário provar uma segunda garrafa para despistar problemas de rolha (não necessariamente de TCA). Tendo em consideração as várias dezenas de vinhos provados, e em comparação com outras provas menos recentes, é de notar este registo muito positivo. Os mais inovadores procedimentos de tratamento e/ou avaliação rolha a rolha poderão estar já a dar os seus frutos…

2016, ano de frescura e elegância

Acresce ainda um significativo investimento estrangeiro (vindo de países como Alemanha, Angola, Brasil ou França), que tem ajudado a uma renovação mais rápida ao nível do perfil dos vinhos. Tintos provenientes dos projetos Xisto e Chryseia, ou das propriedades Quinta da Romaneira, Quinta do Pessegueiro (sobretudo nas primeiras edições) ou ainda Quinta Maria Izabel, todos resultados de maior ou menor investimento transfronteiriço, mostram alguma apetência por registos mais em elegância do que em músculo.
Por fim, e no que respeita à colheita de 2016, tratou-se de um ano climatericamente mais moderado do que o habitual, com poucas oscilações e raros picos de calor. Tal significou um ciclo tardio na maturação das uvas e permitiu o raro fenómeno de a fruta ter atingido a maturação fenólica mantendo acidez elevada e um grau alcoólico relativamente baixo para a média habitual da região. Por isso, os vinhos de 2016 revelam um equilíbrio absolutamente ímpar e uma prova de boca mais fresca e menos larga do que o normal, conservando-se a potência e profundidade comuns nos grandes tintos da região.

Isso mesmo foi-nos confirmado pelo enólogo e produtor Jorge Serôdio Borges (Wine & Soul, Quinta do Passadouro e Maritávora), para quem o ano de 2016 foi muito específico, posto que “o ciclo muito longo e um ano muito ameno proporcionaram vinhos que não precisaram de ser vindimados cedo para se manterem frescos e com boa acidez; isso fez toda a diferença”. O enólogo e também produtor Jorge Moreira (Poeira, Real Companhia Velha e Passagem) concorda e confirma que 2016 foi muito diferente de 2015. “Em regra, os 2015 são mais encorpados e têm uma fruta muito bonita e profunda, resultante de um ano quente, enquanto os 2016 são mais frescos e elegantes”, diz-nos.
Curiosamente, confrontámos este último profissional com a circunstância de dois dos seus vinhos presentes no painel parecerem contradizer a matriz dos anos, pois o Poeira 2015 revela-se fresco e elegante e o Carvalhas Vinhas Velhas de 2016 mostra-se cheio e potente. “Nesse caso, a justificação é o terroir, pois enquanto a vinha da Quinta do Poeira tem muita sombra e é virada a norte, as vinhas velhas das Carvalhas tem bastante exposição solar todo o dia e proporcionam sempre vinhos de grande concentração”, confessa-nos. Ou seja, afinal o terroir ainda é o mais importante…
Por isso mesmo, reforçamos, nas várias dezenas de vinhos provados foram visíveis diferentes registos, resultantes da localização das propriedades (por exemplo o Baixo Corgo é, em regra, mais chuvoso e fresco do que o Cima Corgo e este mais fresco e chuvoso do que o Douro Superior,) ou mesmo resultantes do preciso posicionamento das vinhas dentro das próprias propriedades (cotas mais altas perante mais baixas, por exemplo, ou consoante a exposição a sul e poente, as mais quentes, ou a norte e a nascente, as mais frescas). Em suma, é um puzzle complexo que significa, no final do dia, a riqueza de uma região que se diversifica a cada ano que passa e que, mais importante ainda, tem na diversidade de estilos mais um caminho para um sucesso que, tendo já sido alcançado, teima em ser superado.

Em Prova

  • Quanta Terra
    Douro, Grande Reserva, Tinto, 2015

    17.5
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta das Brolhas
    Douro, Reserva, Tinto, 2013

    17.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Pintas
    Douro, Tinto, 2016

    19.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta dos Murças VV47
    Douro, Tinto, 2013

    18.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Casa Velha
    Douro, Reserva, Tinto, 2016

    17.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta do Bronze
    Douro, Tinto, 2015

    17.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Castello D’ Alba Limited Edition
    Douro, Tinto, 2015

    17.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Messias Vinha de Santa Bárbara
    Douro, Tinto, 2013

    17.0
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Pacheca Vale de Abraão
    Douro, Colheita Seleccionada, Tinto, 2015

    17.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Mapa Vinha Cristina
    Douro, Tinto, 2014

    17.5
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Foz Torto Vinhas Velhas
    Douro, Tinto, 2015

    17.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Poeira
    Douro, Tinto, 2015

    18.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Passadouro
    Douro, Reserva, Tinto, 2016

    18.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Laura
    Douro, Tinto, 2015

    17.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Zom Colecção
    Douro, Tinto, 2014

    17.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta do Valbom
    Douro, Tinto, 2013

    18.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Vale da Raposa
    Douro, Sousão, Tinto, 2015

    17.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta das Tecedeiras
    Douro, Reserva, Tinto, 2015

    17.0
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Duas Quintas
    Douro, Reserva, Tinto, 2016

    18.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Maritávora n.º 2
    Douro, Grande Reserva, Tinto, 2015

    17.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Poças
    Douro, Reserva, Tinto, 2016

    17.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Flor do Côa
    Douro, Reserva, Tinto, 2016

    17.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Kopke Vinhas Velhas Limited Edition
    Douro, Tinto, 2014

    18.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Vale de Pios
    Douro, Tinto, 2014

    17.5
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Dona Berta Vinha Centenária
    Douro, Reserva, Tinto, 2011

    17.0
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Vinha da Urze
    Douro, Grande Reserva, Tinto, 2014

    17.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta do Pessegueiro
    Douro, Tinto, 2016

    17.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Monte Cascas Vinha das Lameiras
    Douro, Tinto, 2013

    17.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta da Romaneira
    Douro, Reserva, Tinto, 2016

    17.5
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta da Touriga Chã
    Douro, Tinto, 2016

    18.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta de S. José
    Douro, Reserva, Tinto, 2016

    17.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta do Crasto Vinha da Ponte
    Douro, Tinto, 2015

    19.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Terras do Grifo
    Douro, Reserva, Tinto, 2015

    17.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Santos da Casa Fazem Milagres
    Douro, Grande Reserva, Tinto, 2015

    17.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta do Vallado Field Blend
    Douro, Reserva, Tinto, 2016

    18.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta do Vale Meão
    Douro, Tinto, 2016

    19.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta da Costa das Aguaneiras
    Douro, Tinto, 2015

    17.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Batuta
    Douro, Tinto, 2016

    18.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta de Ventozelo
    Douro, Tinto, 2015

    17.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Grandes Quintas Vinhas do Cerval
    Douro, Tinto, 2013

    17.0
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor

Edição Nº20, Dezembro 2018

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