Não é para qualquer um lançar um topo de gama tinto de 2007 e um branco de 2010, e ainda um tinto entrada de gama também de 2010. Vinhos diferentes de quase tudo o resto, vinhos que nasceram tão sólidos que o seu autor esperou muitos anos antes de os apresentar. Os brancos são imperdíveis para os enófilos que não dispensam conhecer mais uma casta em estreme, e os tintos desafiam a curiosidade dos mais céticos. Venha descobri-los.

 

TEXTO Nuno de Oliveira Garcia FOTOS Ricardo Palma Veiga

APESAR de não haver dúvidas de que vivemos na época com mais e melhores vinhos por provar, é igualmente claro que com esse aumento de qualidade tem surgido uma maior uniformidade nos néctares vínicos (nacionais e internacionais, já agora). Com o maior profissionalismo na enologia contemporânea, as experimentações e os desvarios foram ficando como espécimes residuais, o que, de resto, é uma boa notícia no geral. Efetivamente, as boas práticas enológicas tenderam a atenuar algumas singularidades e, no que respeita a anos, num mercado cada vez mais padronizado os produtores encontram-se, invariavelmente, a lançar tintos de 2015 (e mesmo alguns de 2016) e brancos de 2016. O homem por detrás dos vinhos Torero – André Herrera Almeida, enólogo e produtor – não pensa assim, e só agora resolveu lançar os seus vinhos topos de gama, passada uma década da colheita, no que ao tinto diz respeito.

São vinhos irrepetíveis e conceptuais, como confirma o próprio enólogo, edições limitadas, vinhos que são um marcador do tempo em que seguia (e ainda segue) o que a sua intuição e experiência pressagiavam. Segundo André, são vinhos entre o Velho e o Novo Mundo, feitos com uvas do Alentejo, mas recorrendo a várias técnicas que desenvolveu na Austrália, onde passou duas temporadas. Vinhos, sobretudo os tintos, assumidamente excessivos, na extração, na potência e no álcool, mas cheios também de carácter. O tempo em barrica (‘tempo’ é uma palavra muito usada por André) e a battonage são sempre maximizados, próximo, ou mesmo para lá, do limite. Vinhos – brancos e tintos e ainda um rosé – que André quis que fossem sujeitos a uma vinificação radical, tendo depois acompanhado quase à obsessão a sua evolução em garrafa durante uma década. São vinhos que, decididamente, precisam de um contexto, como seja, por exemplo, este texto.

E quem é André? É filho de casal ibérico, mãe espanhola e pai português, ambos fundadores de um restaurante de referência da comida do país vizinho – o Meson Andaluz (agora no Chiado, depois de ter começado na Parede e de se ter mudado no início dos anos 90 para o CascaiShoppping). Não espanta por isso que André Almeida (ou Andrés Herrera, na versão espanhola) seja um exemplo de cruzamento entre a cultura de ambos os países, bem visível, por exemplo, na sua maneira de vestir.

Nascido e criado na linha do Estoril, não muito distante da praia, seria, contudo, no Alentejo e no campo onde encontraria a sua casa, na Herdade da Murteirinha, propriedade que os pais mantêm entre Estremoz e Arraiolos e onde vive faz já alguns anos com a sua família. Estudou engenharia agrícola na Universidade de Évora, onde também fez mestrado em viticultura e enologia, e dedicou-se algum tempo ao toureio, clara inspiração para o nome da sua empresa Torero Wines. Mas André conhece muito bem o Alentejo também por ter trabalhado quase exclusivamente nesse território, sobretudo na Fita Preta, projeto fundado em 2004 pelo viticultor inglês David Booth (que, entretanto, faleceu) e pelo enólogo-produtor António Maçanita. André fez de tudo um pouco na Fita Preta, desde a gestão da adega à elaboração de lotes finais. O pouco tempo livre que ia tendo era todo dedicado à sua família (mulher e dois filhos) e, sempre que podia, aos seus vinhos pessoais, cujos topos de gama vêem agora a luz do dia.

Trabalhar um grande branco
Seja nos vinhos, seja nos rótulos (bonitos e impactantes), André e a sua mulher, Maria (responsável pela imagem e comunicação), buscam ambientes com intensidade e tensão, num estilo claramente pessoal, romântico e profundamente autêntico. A circunstância de os vinhos agora lançados terem vários anos em barrica – sempre francês, Tronçais ou Allier – e mais ainda de estágio em garrafa, proporciona um ambiente evolutivo em todos eles, sendo que os brancos e o rosé ganharam uma alma muito própria (ambos de 2010, à venda faz alguns anos e ainda disponíveis, mas apenas junto do produtor), plenamente conseguida num registo muito original. Por seu turno, os tintos mantêm-se poderosos e não dão tréguas ao provador, mas a nota frutada adocicou em prova de boca e a envolvente geral pode ser descrita como barroca. O próprio nome dos vinhos – Duende – invoca o lado sobrenatural da palavra (“encanto misterioso e inefable” pode ler-se em alguns rótulos), sobretudo na língua espanhola, na qual tem um significado ligeiramente diferente – e com uma dimensão próxima do universo do fantástico – do português.

As uvas que estão na base dos vinhos vêm, essencialmente, de vinhas do seu sogro, o pai de Maria, um dos primeiros sócios da Adega Cooperativa de Borba, vinhas com as castas tradicionais, à exceção das omnipresentes Syrah e Touriga Nacional. É nesta sub-região alentejana que André produz os seus vinhos, e não hesitou sequer em vindimar uma parcela de sequeiro (ie., sem rega) da casta Rabo de Ovelha e vinificá-la a solo dando origem à sua melhor criação – o Duende branco –, o único monocasta daquela casta que conhecemos, em versão com barrica agora lançada e em versão inox já no mercado faz algum tempo.

A casta Rabo de Ovelha (como outras autóctones, tal como o Perrum ou o Roupeiro, para falarmos apenas das brancas), é cada vez menos plantada na região. Nas vinhas velhas do sogro de André a casta está plantada nos mármores de Borba (terroir famoso desde há séculos), e André fez tudo o que pôde para produzir um grande branco. Para tal, deu especial enfoque à redução da produtividade das plantas (trata-se de uma casta que pode, mesmo em vinhas velhas, ser bastante produtiva), garantindo apenas 4000kg (ou seja, 2800 garrafas) por hectare, e teve um cuidado enorme à entrada da uva na adega com recurso sistemático a gelo seco e sulfuroso (pois o mosto de Rabo de Ovelha oxida com muita facilidade). Depois, André acompanhou a evolução do vinho, parte em inox e parte em barrica, sempre com muita battonage. O resultado final é muito bom, e a versão em barrica agora lançada está excelente, na qualidade e na originalidade.

Perguntámos a André o que podemos esperar da Toreno Wines no futuro próximo, agora que não está mais associado à Fita Preta, apesar de manter algumas consultadorias em pequenos produtores, todos no Alentejo. Diz-nos que vai passar a lançar os seus vinhos com maior regularidade, e que o tinto de entrada de gama será posto no mercado com referência a uma colheita mais recente (no mercado está o de 2010…). Esperemos sinceramente que assim seja, pois a tarefa de vender vinhos com tantos anos em estágio de garrafa deve ser, no mínimo, complicada, e alguns dos vinhos (sobretudo os tintos) mereceriam ser provados mais cedo.

Uma coisa é certa e termino este texto como comecei: para mim, num universo vínico quase sempre muito homogéneo, deverá sempre existir lugar para vinhos únicos, concetuais e de autor como são todos os vinhos Duende que provámos.

 

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