O que significa ser perfumista? E o que pode isso ter em comum com o vinho? Lourenço Lucena, o primeiro perfumista português a lançar um perfume de autor para o mercado, o Acqua di Portokáli, mostrou nos que as duas dimensões não são assim tão intocáveis.

 

TEXTO Mariana Lopes FOTOS Ricardo Palma Veiga e cortesia Embassy

A nossa conversa teve lugar na Embassy Niche Perfumery, numa rua paralela à Avenida da Liberdade. Um projecto do modelo Ricardo Claudino, esta perfumaria abriu em Dezembro de 2016 com a promessa de democratização da perfumaria de nicho. A loja, de ambiente leve e descongestionado, apresenta uma decoração minimalista a fazer jus à classe dos frascos dispostos nas estantes, tão largo é o compasso entre eles, como demanda a beleza tão própria de cada um.

Lourenço Lucena, o primeiro e único “nez” português, membro da Société Française des Parfumeurs, começou por nos explicar as tipicidades que põem o “nicho” na “perfumaria”, afirmando que “é o elevar da perfumaria ao seu expoente, onde o limite é a ambição do perfumista criador e da sua visão para o perfume. É uma perfumaria, por natureza, muito mais livre, inusitada e irreverente”. Sem precisar de incentivo, continuou: “É a diferença entre um enólogo que trabalha para uma casa de vinho que já tem uma forte história, tendo de fazer os vinhos sob uma narrativa imposta, e o enólogo que trabalha com um produtor que lhe permite começar do zero e o instiga a inovar”. É certo que esta “haute couture” dos aromas está, por defeito, direccionada para compradores que fazem do perfume uma das suas prioridades orçamentais, com um preço médio que vai dos cem euros para cima.

Quem é Lourenço Lucena?
O entusiasta dos cheiros veio do marketing, ainda mantendo a sua empresa na área (de nome Blug), embora com inovações que se ligam ao perfumismo. É formado em Composição de Perfumes pela escola Cinquième Sens, em Paris, e fez o seu primeiro perfume ainda no início dessa formação, um perfume corporativo para a EDP. Esta criação surgiu no seguimento do novo conceito de marketing que Lourenço originou, o Sensorial Branding, que se prende com a criação de uma identidade sensorial para as marcas, em que o marketing deixa de ser puramente visual e ganha dimensões olfactivas e auditivas. Além deste tipo de trabalho, Lourenço também cria perfumes em regime de marca branca para lojas, marcas ou pessoas (normalmente públicas) que queiram lançar o seu perfume, e perfumes personalizados, para clientes que desejem ter o seu próprio, e único, aroma. Mas a sua criatividade não acaba aqui. Lucena é, também, Mr. Smell, marca do próprio que proporciona “scented dinners” (jantares perfumados ou aromatizados). Isto são jantares conceito, normalmente direccionados a empresas, nos quais, baseado num tema escolhido pelo anfitrião, Lourenço associa um conjunto de aromas a esse tema e, em parelha com um chef, é criada uma refeição inspirada nesses aromas.

Uma vocação, mas não um dom
“Qualquer pessoa pode chegar a perfumista…”, revelou Lourenço, “obviamente, é preciso ter uma apetência natural, um gosto especial pelos perfumes e pelos aromas, mas é algo que se educa”. Para o criador, estas coisas sempre fizeram parte da sua vida, de uma forma especial. Pré-adolescente, gastou as suas primeiras mesadas em música e em perfumes, mas advertiu que uma formação específica é necessária. “Qualquer indivíduo pode ser enólogo se fizer a sua formação, poderá é ser um bom ou um mau enólogo. Aqui é a mesma coisa”, disse. Lourenço terminou a academia, em Paris, há onze anos. Em Portugal, este tipo de curso não existe, apesar de ser possível chegar a perfumista com licenciatura em Química, embora isso dê apenas as bases mas, para Lucena “não basta saber as fórmulas e as moléculas, é preciso ter uma noção de estética, do belo, de harmonia”, e uma grande capacidade de memorização de matérias-primas, pois “da mesma forma que um enólogo tem de ter muito presente determinadas castas e a maneira como se conjugam umas com as outras, eu também tenho de saber como cheira a Rosa da Turquia e a diferença entre o Vetiver do Haiti e o Vetiver de Java. É essencial para visualizar o resultado a que se quer chegar”. Esse resultado, porém, nem sempre é o que o perfumista imaginou pois, tal como as diferentes uvas, as diversas matérias-primas de um perfume originam efeitos díspares consoante as conjugações. E consegue-se chegar a produtos semelhantes com diferentes conjuntos, como um bom Alvarinho que, com alguma idade, expressa as notas de querosene tão características de um Riesling, por exemplo.

Sabia que…
O Vetiver é uma erva gramínea originária da Ásia, mas cultivada hoje em diversas partes do mundo. O óleo essencial extraído de suas raízes é a base de muitos perfumes…

Perguntámos a Lourenço se gosta de vinho, e o “nez” anuiu. Revelou-nos que assistiu, inclusive, há uns anos, a uma formação de prova. Contou, de forma engraçada, que durante as provas identificava aromas no vinho que nunca passavam pela cabeça do formador, como benjoim (resina procedente de uma árvore exótica e autóctone da Sumatra, com aplicabilidades em incenso, gastronomia e perfumaria).

O perfumista tem pena que as duas áreas não se toquem mais, apesar de, em muitos pontos, andarem lado a lado. Com a cabeça a fervilhar de ideias, disse-nos “a indústria do vinho teria algo a ganhar se incorporasse profissionais da perfumaria, talvez na assistência à enologia. A composição de um perfume tem muito que ver com a forma como um enólogo compõe um vinho, pelo menos na parte sensorial, na de acertar e afinar o blend”. Curiosamente, depois de termos tropeçado no seu blog, já desactivado há muito tempo, apercebemo-nos que a maneira como Lourenço descreve um perfume é parecida com a do jornalista que prova vinho, como se vê no seguinte excerto:

O primeiro contacto [com o perfume] revela o lado fresco e ligeiramente provocante pela presença de anis estrelado da tailândia, da jaca, um fruto asiático pouco conhecido em Portugal, o zimbro e o absinto. De seguida, sentimos as notas de camurça, as aromáticas folhas de tabaco, o absoluto de café e o buchu da África do Sul. Notas mais quentes que equilibram as mais frescas iniciais e preparam esta composição para as notas finais marcadamente envolventes, confortáveis e masculinas de que se destacam o absoluto de patchuli, as madeiras de carvalho e cedro do Texas e, ainda, o pau-ferro da Costa Rica, uma madeira mais ácida mas bastante aromática que no conjunto com as restantes madeiras fecham esta composição, respeitando a individualidade de cada matéria sem sobreposições.

O perfume Acqua di Portokáli
Passada uma década do término da sua formação, tornou-se óbvio para Lourenço Lucena que o passo seguinte seria o lançamento do seu próprio perfume. Assim, depois de oito meses de ensaios, surgiu o Acqua di Portokáli, o primeiro perfume de um perfumista português. Lançada no passado mês de Julho, esta Eau de Parfum deve o seu nome à antiga fórmula académica de perfumes chamada “Água de Portugal”. “Portokáli” é, também, a palavra grega para “laranja”. Baseado nestas duas premissas, e homenageando a Laranja do Algarve (muito apreciada na perfumaria antiga), Lourenço criou a sua própria fórmula, dando protagonismo aos citrinos. As suas matérias-primas são a laranja, o limão (que pretende acalmar a força da laranja), a bergamota (muito usada em perfumaria para conferir sofisticação, subtileza e elegância), a rosa branca (fornece uma nota algo empoeirada) e o cedro (de notas fumadas, vem dar consistência final e corpo).

O frasco de 100ml de Acqua di Portokáli custa 120 euros e está à venda na Embassy Niche Perfumery (Rua Rodrigues Sampaio 89, Lisboa), no site da marca (www.acquadiportokali.com) e, a partir do dia 15 de Setembro, no Porto.

Para Lourenço, tanto o perfume como o vinho têm que ver com o prazer dos sentidos: “Escolhemos um perfume como escolhemos um vinho, aquele que mais nos agrada e que nos provoca sensações positivas. Ambos têm esse lado mágico e muito pessoal”.

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