Destinos

A lei do Oeste

By 1 Fevereiro, 2019 Sem comentários

A candidatura conjunta de Torres Vedras e Alenquer permitiu a estas terras da região vitivinícola de Lisboa assegurar a distinção de Cidade Europeia do Vinho em 2018. Às portas de um dos destinos mais na moda a nível planetário, será que o enoturismo está a aproveitar a maré? Rumámos ao Oeste, em busca de respostas. E voltámos com um verdadeiro resumo do que é o Portugal do vinho. Generoso, complexo, profundamente humano. E ainda longe de cumprir todo o seu potencial.

TEXTO Luís Francisco
FOTOS Ricardo Palma Veiga

Em 2017, Lisboa recebeu 4,94 milhões de turistas, quase dez por cada residente. Só em alojamento, estes visitantes gastaram no ano passado 1065 milhões de euros. Os números continuam a ser esmagadores e as perspectivas são de crescimento. Sim, a “invasão” continuou em 2018 e promete não dar tréguas. Com a Cidade Europeia do Vinho “sediada” em Torres Vedras e Alenquer, que distam escassas dezenas de quilómetros da capital, os horizontes parecem abrir-se para os operadores da região. Ainda mais após o lançamento, em Setembro, do Guia de Enoturismo destes dois municípios.
São 64 páginas, metade em português e a outra em inglês, onde se fala dos vinhos de Torres Vedras e Alenquer, fornecem-se indicações sobre as rotas do vinho e enumeram-se os produtores que recebem visitantes. Ao todo, são dez em Torres Vedras e 16 em Alenquer. É um número bastante razoável, mas que representa apenas uma fracção do universo vitivinícola destes dois municípios, ambos colocados no top-5 dos concelhos com mais vinha em território português, de acordo com números de 2014: Torres Vedras (5.126ha) aparece em terceiro lugar e Alenquer (4.886ha) em quinto, numa tabela liderada por Palmela (6.025ha).
Há muita vinha, há muito vinho e há muita vontade de fazer mais e melhor. Mas também ainda há muito caminho a percorrer, nomeadamente nesta vertente do enoturismo. Uma rápida consulta do Guia mostra que as casas com porta aberta são ainda as excepções: apenas a Quinta de Chocapalha e a Casa Santos Lima não solicitam marcação prévia (e, mesmo estes, mudam de registo ao fim-de-semana). Por todo o lado, a regra é receber mediante agendamento, ainda que em alguns casos os espontâneos acabem por ser acolhidos.
Ainda é pouco, para mais atendendo ao mercado potencial que se perfila na região (e na cidade de Lisboa, em particular). Para mais, a região de Lisboa é um excelente cenário para se absorver a realidade dos vinhos portugueses. Com o Atlântico perto e uma orografia intrincada, as terras que vão dos subúrbios da capital até à zona de Óbidos produzem vinhos completamente distintos ao virar de cada cumeada. Alenquer e Torres Vedras, por exemplo, estão lado a lado, mas a primeira é conhecida por ser terra de tintos, enquanto a segunda afirma os seus brancos. E, no entanto, há belos brancos em Alenquer e tintos de valor em Torres…
Se o vinho português é variado e complexo, Lisboa é o exemplo perfeito dessa riqueza. É neste Oeste que encontramos a expressão máxima da lei do terroir. Um mundo à espera de ser descoberto.

Quinta do Pinto

Quem chega à quinta do Anjo, a casa-sede da Quinta do Pinto, terém, de imediato, duas impressões: a força do tempo e a beleza do espaço. Para a primeira contribuem a traça nobre e antiga da casa, um palacete do século XVII; e a silhueta maciça dos eucaliptos que bordejam o pátio, três colossos seculares de troncos ciclópicos. A beleza do espaço vive também destas impressões fortes, mas assenta principalmente na harmonia das curvas do terreno, das linhas de vinha que sobem pelas encostas, nas fileiras de arvoredo que limitam as fracções, na paleta de cores que se espalha de ambos os lados da estrada.
São 120 hectares de propriedade, espalhados em forma de “8” com a casa no centro, que é também o ponto mais baixo. Subimos ao extremo da propriedade do lado sul, com o bloco maciço da serra de Montejunto dominando o horizonte, e percebemos facilmente a enorme diversidade de terrenos e exposições. A vinha ocupa mais de metade da área da propriedade (63ha) e as principais manchas estão viradas a sul, pontuadas por algumas construções para as quais já existem planos.
A quinta é um cenário privilegiado e há infra-estruturas encerram potencialidades para muito mais altos voos. Planos existem, uns em vias de concretização no curto/médio prazo, outras num horizonte temporal mais distante: transformar um depósito no alto da vertente norte em sala de provas; recuperar um complexo rústico de habitações para criar alojamentos (quatro quartos), aproveitar outras construções para dar corpo a um restaurante, reaproveitar a antiga cavalariça para loja (inauguração em breve), transformar a destilaria em espaço museológico…
Um destes dias, a Quinta do Pinto poderá ser um grande destino enoturístico. Mas o que lá está já vale bem a visita. A casa é de uma elegância distinta, com a particularidade (assumida pelo arquitecto no desenho original – do século XVII, ressalve-se) de o acesso à adega ser feito pela zona habitacional, onde pontificam vetustos salões com tectos em madeira, mobiliário clássico e belas pinturas nas paredes. Virados para o pátio exterior, em calçada portuguesa, há vários espaços para provar vinhos ou fazer refeições.
Lá dentro há belos mostos a cheirar a fruta, barricas de madeira, cubas de inox e grandes depósitos em cimento (com os nomes das crianças da família em painéis de azulejo). Mas viremos costas à azáfama das vindimas e concentremo-nos nesta vista, copo na mão e conversa fácil. O vento sopra nas folhas dos choupos e a luz de Setembro acaricia as vinhas. A vida é bela.

QUINTA DO PINTO
Quinta do Anjo, Aldeia Galega da Merceana, 2580-081 Alenquer
Tel : 919 100 800
Mail: quintadopinto@quintadopinto.pt
Web: www.quintadopinto.pt
A quinta recebe visitantes (mínimo duas pessoas) preferencialmente aos dias de semana, mediante marcação prévia. Há três programas distintos, todos envolvendo passeio pela propriedade, visita à adega com prova de amostras de cuba e posterior prova de vinhos. Os preços variam conforme o número de vinhos e os acompanhamentos (três vinhos, com pão e queijo – 25 euros por pessoa; quatro vinhos com pão, queijo e presunto – 30 euros; seis vinhos, com pão, queijo, presunto, frutos secos, salgados e tapas – 45 euros) e há descontos para grupos.

Classificação

Originalidade (máx. 2): 1,5
Atendimento (máx. 2): 2
Disponibilidade (máx. 2): 1,5
Prova de vinhos (máx. 3): 2,5
Venda directa (máx. 3): 2
Arquitectura (máx. 3): 3
Ligação à cultura (máx. 3): 3
Ambiente/Paisagem (máx. 2): 2

AVALIAÇÃO GLOBAL: 17,5

Quinta do Monte d’Oiro

Ali bem perto, aproximando-nos das vertentes de Montejunto, fica a Quinta do Monte d’Oiro, um espaço onde imperam a harmonia, a limpeza e a excelência das instalações. E dos vinhos, já agora. Não espanta o perfeccionismo: aqui está a mão de José Bento dos Santos, ilustre gastrónomo nacional e um homem conhecido pela sua atenção ao mínimo detalhe. Se não ficaram dúvidas de que há ambições de fazer crescer o enoturismo na Quinta do Pinto, aqui a estratégia também é clara: sem nunca virar costas às visitas privadas, o alvo preferencial são as entidades interessadas em organizar eventos corporativos.
Quando entramos, logo no terreiro contíguo à adega, uma escultura do próprio Bento dos Santos, intitulada “Terroir”, mostra placas de calcário sobrepostas a serem “espremidas” numa prensa sobre uma coluna de cobre – e esta é uma boa forma de lançar o tema do terroir. As vinhas lançam-se dali encosta abaixo e sobem na vertente oposta, até às linhas de arvoredo na crista – encontramos um bosque de nogueiras, sobreiros e até cedros-do-Bussaco, alguns carismaticamente curvados pela força dos ventos.
A variedade da paisagem e dos microclimas fica bem evidente até na toponímia: estamos na Ventosa, lá mais ao fundo fica a Abrigada… E estas brisas constantes são também parte da alquimia da quinta, com pouco a recear das humidades doentias e com probabilidade diminuta de noites demasiado quentes, que prejudicam a maturação lenta e gradual das uvas. Ao lado dos 20 hectares de vinha já existentes, foram agora (em 2017) plantados outros nove – e é extraordinário verificar a diferença de crescimento entre plantas da mesma casta e com a mesma idade, conforme os lotes de terreno em que estão implantados. É também por isso que na Quinta do Monte d’Oiro cada parcela é vindimada e vinificada em separado.
Percorremos a adega, o salão de refeições (com mesa de grandes dimensões e lareira, bem como uma sala de reuniões adjacente), entramos na sala de provas às escuras e só depois descobrimos a vista para as barricas, havemos depois de passar pela pequena loja junto ao estacionamento. Em todo o lado, limpeza e harmonia, a sensação de que tudo foi arranjado ao pormenor, mesmo se por ali passa gente a trabalhar. Todos os programas são por marcação e sem horários, mas em todos se garante atendimento personalizado e uma explicação detalhada dos vinhos e da filosofia que levou à sua criação. Quem aqui entra, sente-se especial.

QUINTA DO MONTE D’OIRO
Freixial de Cima, 2580-404 Ventosa, Alenquer
Tel : 263 766 060
Mail: geral@quintadomontedoiro.com
Web: www.quintadomontedoiro.com
A quinta está aberta aos dias úteis, entre as 9h e as 17h (sob consulta nos restantes dias) – ao fim-de-semana para um mínimo de 12 pessoas. A visita com prova de vinhos (incluindo sempre o Reserva tinto), acompanhada de tábua de queijos e enchidos regionais, custa 25 euros por pessoa (três vinhos), 35 euros (cinco vinhos) ou 60 euros (seis vinhos, incluindo edições limitadas/exclusivas – neste caso, mínimo de seis participantes).

Classificação

Originalidade (máx. 2): 2
Atendimento (máx. 2): 2
Disponibilidade (máx. 2): 1,5
Prova de vinhos (máx. 3): 3
Venda directa (máx. 3): 2
Arquitectura (máx. 3): 2,5
Ligação à cultura (máx. 3): 2,5
Ambiente/Paisagem (máx. 2): 2

AVALIAÇÃO GLOBAL: 17,5

Adega Mãe

Deixamos as terras de Alenquer e rumamos a Torres Vedras. Vamos conhecer um projecto com menos de uma década no mercado e que, no entanto, já se afirma como um dos produtores emblemáticos do concelho e mesmo da região lisboeta no seu todo. Criada em 2005, mas com actividade “a sério” apenas desde 2009, a AdegaMãe está incluída no grupo Riberalves (um dos protagonistas do comércio de bacalhau no mundo) e faz cerca de um milhão de garrafas por ano, com vinhas essencialmente de uva branca (22ha) junto ao edifício da adega (inaugurado em 2011) e de tinta (85ha) a uns meros dez quilómetros, a leste.
A adega foi inaugurada em 2011 e os pormenores de arquitectura cativam de imediato o olhar. Mas os seus pontos fortes são a sua funcionalidade (os tractores com uvas entram na adega para descarregar – um tubo colector de fumo é ligado ao escape, para impedir a acumulação de fumos) e a incrível paisagem que se estende aos seus pés. Da varanda dominamos uma panorâmica de mais de 180 graus sobre uma bacia coberta de vinhas (da AdegaMãe e dos seus vizinhos), que se estendem em suaves inclinações pelas encostas até às linhas de cumeeira da serra da Archeira, mesmo em frente.
Também aqui, a sudoeste de Torres Novas, a toponímia não deixa dúvidas: estamos na zona da Ventosa, sinónimo de frescas brisas marítimas que contribuem para limpar os frequentes nevoeiros matinais, a que os locais chamam “rocio”. Em linha recta, estamos a menos de 10km do mar e essa é uma influência clara nos vinhos da casa. O que vem mesmo a calhar quando o grande negócio da casa-mãe é peixe… No interior da adega, um barco de madeira que em tempos serviu no “Creoula”, o bacalhoeiro transformado em navio-escola, faz a ligação entre estes dois mundos.
Damos uma volta pela adega, com capacidade para 1,5 milhões de litros; visitamos a sala de barricas, a 14 metros de profundidade; entramos na sala de eventos, onde se podem sentar largas dezenas de pessoas; espreitamos a sala de provas, com mesas de tampos em mármore; descobrimos vários auditórios. Há aqui muita coisa para ver e a empresa (que recebeu em 2017, 10.000 pessoas para eventos, 3500 para visitas e um número não contabilizado para provas) ambiciona ser um destino cada vez mais completo. Na calha está um investimento de 150 mil euros que irá criar um espaço de petiscos. Mesmo a calhar, porque quem nunca provou os pastéis de bacalhau da AdegaMãe não sabe o que perde…

ADEGAMÃE
Quinta da Archeira, Estrada Municipal 554, Fernandinho, 2565-861 Ventosa, Torres Vedras
Tel: 261 950 100
Mail: geral@adegamae.pt
Web: www.adegamae.pt
GPS: +39º 02’ 55’’ N / -9º 17’ 45’’ W
O enoturismo e loja de vinhos estão abertos todos os dias (segunda a sábado, das 9h30 às 13h e das 14h às 18h30; domingos das 11h às 14h e das 14h às 18h). As visitas, com marcação prévia aconselhada, custam entre seis euros por pessoa (prova de um vinho) e 25 euros (prova de todos os vinhos disponíveis). Pelo meio há mais cinco opções. Pode ainda optar-se por um brunch, que fica por 25 euros por pessoa, com cinco vinhos na carta. Servem-se refeições mediante marcação, a 45 euros + IVA por pessoa (mínimo de oito pessoas ao almoço de segunda a sexta; mínimo de 20 participantes nos restantes dias e horários), com visita incluída.

Classificação

Originalidade (máx. 2): 2
Atendimento (máx. 2): 2
Disponibilidade (máx. 2): 1,5
Prova de vinhos (máx. 3): 2,5
Venda directa (máx. 3): 2,5
Arquitectura (máx. 3): 3
Ligação à cultura (máx. 3): 2
Ambiente/Paisagem (máx. 2): 2

AVALIAÇÃO GLOBAL: 17,5

ESTAÇÃO DE SERVIÇO
No intrincado das estradas do Oeste, nem sempre é fácil decorar o caminho. Mas a profusão de restaurantes é garantia de que não haverá falta de combustível… Escolhemos três casas nesta região de Torres Vedras e Alenquer, duas que unem a tipicidade ao bom acolhimento e a terceira – Casta 85 – já com outras ambições gastronómicas.
ADEGA VILA VERDE – Estrada Nacional nº9, Aldeia Gavinha; 263 760 574
O SANTINHOS – Estrada Nacional nº8, Turcifal; 261 951 474
CASTA 85 – Calçada Francisco Carmo 31, Alenquer; 915 761 911

Edição nº18, Outubro 2018

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