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A olhar para o enófilo português

Álvaro e Fernando van Zeller são dois irmãos que decidiram lançar-se num projecto de vinhos a que deram o nome de Barão de Vilar. Um amigo juntou-se-lhes e a equipa parece funcionar com excelência, a julgar pelo crescimento que têm registado nos últimos anos.

TEXTO António Falcão
NOTAS DE PROVA Luís Lopes
FOTOGRAFIA Anabela Trindade

Corria o ano de 1996 e Fernando Luiz van Zeller deixa uma herança de Vinho do Porto aos seus filhos Fernando e Álvaro. O stock era suficiente (mais de 150 mil litros) para se conseguir criar uma empresa de produção e comércio de Vinho do Porto e foi exactamente isso que os irmãos fizeram, recorrendo para o nome da empresa ao título de um antepassado, o Barão de Vilar.
Nenhum dos intervenientes era estreante nos vinhos, muito pelo contrário. A família van Zeller tem longuíssimos pergaminhos no vinho, especialmente no Vinho do Porto. São, pelo menos, 15 gerações dedicadas à produção e comércio de vinhos! O primeiro antepassado chegou a Portugal no século 17, fugido das guerras religiosas nas terras holandesas. “É um caso ímpar em Portugal”, considera Rui Correia de Carvalho, o sócio dos van Zeller nesta aventura. Rui é uma espécie de gestor polivalente; Fernando trata da área comercial e Álvaro da enologia.
Rui só entra em 2008, para dinamizar a empresa, que estava numa espécie de ‘limbo’. Foi colega de curso de Fernando, mas quando entrou no projecto tinha acabado de vender uma empresa sua. E a equipa funcionou como uma banda de música de sucesso… No espaço de 10 anos, diz-nos Rui, “cresceram todos os meses”. Em termos de recursos humanos, falamos de passar de 3 para 40 pessoas; em volume, de 80 mil litros de Vinho do Porto vendido anualmente para, este ano, quase 1 milhão; e ainda conseguiram multiplicar a facturação 14 vezes, fechando 2018 com mais de 7 milhões de euros! Números impressionantes para “a mais jovem empresa de Vinho do Porto, mas com uma história familiar de 4 séculos”. Palavras de Rui Correia de Carvalho.

Equipa ganhadora

Como é isto possível? Um dos segredos residiu no know-how comercial de Fernando van Zeller, especialista em vender vinhos portugueses no estrangeiro, mesmo em grandes quantidades. Junte-se isto à capacidade enológica do ‘master blender’ Álvaro van Zeller, e o cocktail estava semi-pronto. Faltava apenas arranjar produto e gamas/marcas consistentes. “Apostámos na diferenciação face às outras empresas de Vinho do Porto”, revela Rui. Especificando, a equipa trabalhou na criação de vinhos diferentes (Porto branco velho, por exº), na criação de Portos biológicos (são 5 as referências que a empresa tem) e um cuidado extremo na apresentação, tanto nos rótulos como na embalagem e/ou garrafa. A empresa vende também em vários formatos (mais de uma centena!), incluindo diversas garrafas mais pequenas e os tubos (Wine in Tube, parecido com um tubo de ensaio). Só destes vendem-se centenas de milhar, revela Rui. O facto de existirem conjuntos temáticos – como os vários estilos de Vinho do Porto, por exemplo – ajudou muito.
Outro factor de sucesso passou ainda por conseguirem preços mais acessíveis para o Porto, em cada uma das gamas, mas em especial nas mais caras. “Muitas pessoas não compravam portos mais caros por falta de dinheiro ou por não lhe atribuírem o valor que custa. A partir do momento que têm um produto um pouco mais em conta, as vendas disparam”, refere-nos Rui. E dá o exemplo do tawny 40 anos, segmento em que a empresa detém 25% da quota de mercado, sendo o maior operador. Aliás, apesar do seu tamanho ainda pequeno, a Barão de Vilar é a quinta maior empresa do Vinho do Porto nas categorias especiais, ultrapassando operadores com produções muito maiores. Rui diz-nos que a empresa vende entre 80 e 85% em vinhos de categorias especiais, uma percentagem muito elevada face à maior parte da concorrência.

Vinho do Porto é rei, mas cresce aposta nos DOC Douro

Em cada 100 euros facturados nesta casa, o Vinho do Porto é responsável por 85. Se falarmos em quantidades, a proporção é mais equilibrada: 70/30. Como é evidente, o preço médio do Porto é superior ao do vinho do Douro. Por outro lado, a grande maioria do vinho vai para o estrangeiro. Mais concretamente 85%. “É mais fácil um alemão ou dinamarquês conhecer uma marca nossa que um português”, graceja Rui. Mas as coisas estão a mudar e a empresa vai dar mais atenção este ano ao mercado nacional. Até contrataram uma especialista em comunicação/marketing, Mariana Cestari.
Por outro lado, os responsáveis não escondem que querem crescer nos vinhos não-generosos, especialmente nas gamas altas. Que já tem vinhos muito premiados, a nível internacional e também nacional. O Zom Grande Reserva Touriga Nacional 2011, por exemplo, foi o vencedor da última edição do Concurso de Vinhos do Douro Superior, na categoria de tintos, batendo uma fortíssima concorrência.

Adega no Douro Superior, armazém em Gaia

Este vinho vem de uma das quintas – a Quinta de Zom – com que a Barão de Vilar trabalha directamente. Pertence aos sogros de Álvaro e está quase encostada a Espanha, no Douro Superior. A outra quinta é mesmo dos van Zeller e chama-se Quinta do Saião. Tem cerca de 80 hectares e situa-se também no Douro Superior, no Concelho de Vila Nova de Foz Côa.
Só lá estão 9 hectares de vinha (a maioria é recente) mas é possível ampliar a área até aos 40 ha. Estas e outras uvas, adquiridas a viticultores locais, vão para a adega da casa, instalada em Santa Comba da Vilariça, sobretudo dedicada a DOCs Douro. À frente está Mafalda Machado, técnica com várias vindimas realizadas no Douro, especialmente em não-generosos. Álvaro está agora a prepará-la para ficar mais à vontade no Vinho do Porto e em especial, claro, na arte do lote. De facto, tal como as outras empresas do ramo, a Barão de Vilar recorre à compra de vinhos (e também uvas) por todo o Douro. E nessa tarefa será mesmo o operador mais activo da região, calcula Rui. Não surpreende, contudo, dada a juventude da empresa. Todos os outros têm stocks de longa data… Aqui, temos que distinguir o que é a aquisição de stocks de vinho do Porto e a chamada compra de vindima. No primeiro caso, as aquisições são pontuais. No segundo, a Barão de Vilar tem fornecedores regulares e as aquisições são, diz Rui, “selectivas”. Ou seja, só compram o melhor…
Tudo tem que ser provado (e aprovado) e só depois se fazem lotes. Com esta equipa prova o conhecido enólogo Manuel Vieira, amigo de longa data de Álvaro. As provas decorrem todas as semanas em Vila Nova de Gaia, onde estão a sede e os armazéns, que pertenciam à Quinta do Noval (que foi propriedade van Zeller). Aqui repousam alguns cascos de Vinho do Porto e preciosidades já lotadas em pequenas cubas de inox, à espera do enchimento. As Instalações são de boa dimensão, mas precisariam de obras de vulto para serem preparadas para o enoturismo. Não está, contudo, nos planos próximos da gestão.

O cofre da empresa no Pocinho

A estrutura de imóveis da empresa contempla ainda um enorme armazém no Pocinho (Douro Superior), onde estão centenas de cascos a envelhecer Vinho do Porto. “É o nosso cofre”, considera Álvaro, a pensar em volumes superiores ao milhão de litros. Usar madeira é uma solução cara, por várias razões, incluindo a evaporação do vinho. Neste sentido, a Barão de Vilar entrou num curioso projecto com um engenheiro especialista em climatização para minorar as perdas por evaporação. Isso passará por controlo de humidade e de temperatura e Rui considera que serão soluções inovadoras. Estas instalações servem ainda de recuperação de cascos velhos que a empresa vai adquirindo a vários produtores da região. Ao mesmo tempo, apoiam a formação de novos tanoeiros.
Para o futuro mais próximo, a equipa da Barão de Vilar quer consolidar o que já foi alcançado. Mas não vai abandonar o crescimento, que este ano irá basear-se sobretudo no mercado português e, em grande parte, nos vinhos não-generosos. “Vamos deixar de ser ilustres desconhecidos em Portugal”, garante Mariana Cestari. Os enófilos portugueses vão certamente agradecer.

Em prova

  • Zom Colecção
    Douro, Tinto, 2014

    17.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Maynard’s Colheita ( 500 ml)
    Porto, Colheita, Licoroso, 2006

    17.5
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Kaputt Vinho Palhete
    Sem DO / IG, ,

    17.0
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Zom
    Douro, Reserva, Branco, 2016

    17.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Zom
    Douro, Touriga Nacional, Grande Reserva, Tinto, 2015

    17.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Maynard’s 20 anos
    Porto, Tawny, Licoroso,

    17.5
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Maynard’s Colheita (375 ml)
    Porto, Colheita, Licoroso, 1990

    17.5
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Zom
    Douro, Reserva, Tinto, 2015

    16.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Maynard’s Colheita (375 ml)
    Porto, Colheita, Licoroso, 1969

    18.5
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Maynard’s 40 anos
    Porto, Tawny, Licoroso,

    18.0
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Maynard’s Vintage
    Porto, Vintage, Licoroso, 2016

    18.5
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor

Edição Nº23, Março 2019

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